Resenha: A Maldição da Pedra

Após o desaparecimento do pai, a realidade de Jacob Reckless se torna extremamente amarga. Buscando um escape para seus problemas, ele encontra o Mundo do Espelho, uma enorme e encantada terra onde os feitiços, artefatos e criaturas mais puros e fantásticos existem, assim como os mais sombrios  – e tudo através do espelho do escritório de seu pai. Desde que encontra esse segundo mundo, sua presença na vida real – onde tem que se deparar com a tristeza de sua mãe e a fraqueza e insegurança de seu irmão caçula  – torna-se cada vez menos frequente. Mas quando ambos os irmãos já estão crescidos e Will encontra-se nessa terra mágica, o inesperado acontece: ele é atacado por um Goyl ( uma criatura de pedra) e agora está se tornando um deles. Para impedir a transformação de seu irmão, Jacob está disposto a fazer o impossível e viajar para os reinos mais longínquos. Acontece que a jornada não será menos que complicada: há outras pessoas interessadas no Goyl que Will está se tornando e, além disso, a pedra parece afetar mais que somente sua pele…

Capa americana – da qual não gostei nem um pouco…

A sinopse não passa tão bem o clima e a proposta do livro, mas logo nos primeiros capítulos – no meio de uma confusão – passamos a ser cada vez mais inseridos naquele contexto e esperar pelo o que virá. Os capítulos iniciais são confusos, pois o livro é narrado transitando entre personagens e lugares. No começo não conhecemos ninguém, logo essa transição causa uma estranheza, para depois irmos entendendo e conhecendo tudo aos poucos. Os irmãos não estão sozinhos nessa aventura. Fux, a menina que se transforma em raposa, é a fiel escudeira de Jacob e não poderia faltar nessa busca, assim como Clara, a namorada de Will, que nada conhece daquela realidade fantástica. Todos os personagens têm características distintas e bem definidas, nos conquistando de modos variados. A narrativa de Cornelia Funke é muito bem escrita e conduzida, nos levando imersos em seu mundo da fantasia, o qual, inclusive, é muito bem criado, com uma mitologia espetacular e cativante. Sem colocar esse fator muito evidente, ela insere alguns elementos de contos de fada na história, porém tudo com as características do mundo que ela criou ( bastante sombrio e de criaturas sempre de cheias interesses, por mais que possam ser boas ). As informações sobre aquela nova realidade são inseridas aos poucos, preservando aquele místico quando tratamos de segredos ou mistérios da magia ou da própria terra encantada. Esse artifício permite que o leitor se surpreenda volta e meia, por mais que sempre possamos adivinhar o que está por vir.

Capa alemã – apesar de bem melhor que a americana, ainda não me agrada

A junção de uma boa narrativa, um ótimo ambiente e personagens com presença tornam A Maldição da Pedra uma leitura imperdível, principalmente para os fãs de fantasia. O segundo livro leva o título de Fearless  ( Destemido, em tradução literal ) e está previsto para sair no exterior em Setembro. Aqui no Brasil ele não tem previsão de lançamento, porém, o gancho deixado para a sequência, na minha opinião, não foi tão forte a ponto de esperarmos desesperadamente. O livro dois deve explorar outra situação que, por mais que possa ser contada de forma interessante, também teria como ser deixada de lado pelo modo como o romance foi concluído. Contudo, fico feliz que haja uma continuação, quero ler mais desse universo do Mundo do Espelho.

PS.: O livro conta com diversas ilustrações da autora, as quais ilustram muito do que é descrito. São sempre encontradas no início e no final de cada capítulo, toda feitas de grafite. Essas ilustrações e a edição que a Companhia das Letras deu à capa fizeram a versão brasileira ficar lindíssima!

Resenha: Magia Roubada

Em um mundo onde pessoas com habilidades mágicas podem realizar feitos extraordinários, não poderia faltar uma ordem. E o responsável por garantir que Lord Drayton, um mago que anda cometendo algumas infrações que passaram despercebidas, não faça nada ameaçador é o Lord Simon Falconer. O que o guardião não esperava era a astúcia deste que estava sendo perseguido, que o surpreende, transformando o invasor de seu castelo em um unicórnio. Depois de algumas confusões e reviravoltas, por sorte, Simon consegue escapar e voltar a sua forma humana graças a Meg, uma virgem poderosa que, por ter bastante magia dentro de si, era mantida em cativeiro por Lord Drayton. O cruel mago pretende acumular grande quantidade de poder para realizar um feito maléfico. E ninguém melhor do que a dupla que conseguiu escapar de suas garras com sucesso para combater esse perigoso vilão. Com aliados fiéis, uma atração irresistível, encontros sociais na luxuosa Londres do século XIII e vários encantos, Magia Roubada é uma divertida aventura com romance para passar o tempo. Entretém, mas é simples demais para emocionar.

A narrativa de Mary Jo Putney é boa, bem conduzida, porém bem simples. Os personagens carecem de um desenvolvimento maior e uma profundidade. Seus pensamentos e reflexões são pouco explorados e a autora não faz de nenhum deles figuras marcantes que conquistem o leitor. Faltaram personagens que entram na sala e não só a autora fala que eles tiram a respiração de todos presentes, mas o leitor, só pela descrição e presença do mesmo, perde a respiração por si só. Não é a figura que vai marcar sua vida, mas sim sua leitura. Seu enredo é mais interessante, contudo, apresenta algumas partes que deixam o leitor desconfiado ou não convencido. É preciso engolir alguns fatos e explicações para realmente mergulhar na onda do romance, aproveitando a aventura descomprometida que Magia Roubada nos oferece. Os encantos são brevemente explicados, por mais que se mostrem complexos. As situações problemáticas são quase sempre resolvidas facilmente. Se citaram um feitiço complicado, que exige muito treino e concentração, mas, em certo momento, o personagem precisa usá-lo, ele vai conseguir – e sem suar tanto assim. Os acontecimentos são, na maioria das vezes, previsíveis. É difícil a autora conseguir te surpreender.

O livro é o segundo de uma trilogia na qual os volumes contam histórias diferentes no mesmo universo. Seu antecessor é Um Beijo do Destino, o qual dizem ser melhor por conta do romance. O romance de Magia Roubada é, de um modo geral, bem desenvolvido, com um toque de erotismo bem conduzido, mas não tão presente pelo fato de Meg ter de preservar sua virgindade para reverter a transformação de Simon em unicórnio. Eu esperava que a autora melhorasse alguns aspectos durante a trama, mas os problemas continuaram constantes. Senti falta de algumas coisas que queria ver naquele universo que a autora criou, mas principalmente de um lado místico e misterioso desse mundo mágico. A incerteza, o mistério, as lendas, as revelações, os segredos ou verdades que ninguém ousa falar ou descobrir, são todos elementos que dão um quê interessante nas histórias de magia e fantasia. Tudo muito claro perde um pouco de seu encanto e diminue a curiosidade. A falta desses elementos e a simplicidade dos personagens e do enredo que reservaram ao romance o título de um passatempo. Não é das melhores opções, visto que temos muita coisa boa do gênero por aí.

Destaques: Conheça a “Geração Subzero”

Em Geração Subzero iremos encontrar contos de autores bem conhecidos e bem comentados pelos leitores, mas ignorados pela crítica. Como bem diz o subtítulo: 20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores. Felipe Pena, jornalista e escritor, reuniu vários autores encontrados em sites e blogs etc, lidos e comentados por leitores, mas sem nenhum destaque na crítica literária – bem conhecida por seu caráter elitista e excludente. O livro será publicado em Julho pela editora Record e já tem dois grandes lançamentos marcados com a presença de vários dos nomes que tanto gostamos. Conheça mais abaixo sobre a ideia da antologia, pelas palavras do organizador:

As coletâneas costumam ser pretensiosas e elitistas. A revista Granta, por exemplo, teve a pretensão de apresentar os vinte melhores autores brasileiros com menos de quarenta anos. Mas que critérios definem os melhores? E quem define esses critérios? Figurinhas carimbadas pela “mídia especializada” e referendadas pelas panelas literárias levam vantagem nessa escolha?

            Talvez a atitude mais honesta seja assumir que a escolha é pessoal, como fez o crítico Nelson de Oliveira, organizador do livro Geração 00, que, ainda assim, manteve o caminho da pretensão, ao tentar reunir os melhores autores de uma década.
            Esses autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual, baseando suas narrativas em jogos de linguagem que têm como objetivo demonstrar uma suposta genialidade. É estranho que boa parte deles manifeste preocupações sociais e tendências políticas progressistas em suas entrevistas, enquanto suas práticas profissionais os levam a uma torre de marfim representada por feiras e festivais que os mitificam como ícones da literatura para aqueles que também se enxergam como elite.
Felizmente, há uma massa de leitores no país que ignora essa tentativa de forjar novos cânones para a literatura. É um público que se preocupa apenas com o prazer da leitura, com a relação afetiva com o livro, com as reflexões que uma história bem contada pode provocar e com a socialização dessas histórias e dessas reflexões. Sim, a socialização, pois aquele que tem prazer na leitura sempre recomenda o livro ao amigo mais próximo.
  É para esse leitor que a coletânea Geração Subzero foi organizada. Aqui estão vinte autores congelados pela “crítica especializada”, mas adorados pelo público. Este livro não é uma antologia. Os contos e autores não têm a pretensão de figurar entre os melhores de sua geração ou estilo. Tampouco foram escolhidos exclusivamente pelo organizador da obra, que apenas observou os nomes comentados em redes sociais, blogs, salas de aula e grupos de discussão cujo objeto era simplesmente o prazer da leitura, além de ouvir os signatários do Manifesto Silvestre, um documento que defende o entretenimento como conceito de valor na literatura.
            Todos os autores aqui reunidos cederam seus direitos autorais para a ONG “Ler é dez, leia favela”, que forma leitores no Complexo de favelas do Alemão, no Rio de Janeiro. Como Silvestre da Silva, personagem de Camilo Castelo Branco no livro Coração, cabeça e estômago, os escritores da Geração Subzero colocam a cara na vidraça e esperam pelas pedras e flores. Mais pedras do que flores. Os trocadilhos vão causar indigestão e os intelectualismos, cefaleia. Mas o coração não será atingido.
Os dois penúltimos parágrafos para mim são os mais interessantes e ilustram melhor a proposta do livro. Estou bem animado com o lançamento. O livro conta com vários autores que sempre tive curiosidade de ler, e dois, em especial, que gosto muito: Eric Novello e Helena Gomes.
Saiba mais sobre os lançamentos:
No Rio de Janeiro ( 11/07):
18h30 – Abertura do evento feita pelo presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Leitura de contos pelos meninos da ONG Ler é dez, leia favela e bate-papo com o organizador e os autores da coletânea.
20h – Coquetel e sessão de autógrafos.
Em São Paulo (17/07):
19h – Sessão de autógrafos com alguns dos participantes da coletânea.
Gostaram do livro? Querem ler o conto de algum autor em especial? Vão comparecer aos lançamentos? Compartilhem sua opinião conosco!
Fontes: Informações sobre os eventos de lançamento retirados do blog Leitora Viciada e o texto da orelha foi retirado do site Curioso Inovador.

Destaques: Condenáveis – Uma História de Pai e Filho

Conheçam o romance Condenáveis – Uma História de Pai e Filho, do jornalista e blogueiro Leonardo Torres ( Confira seu blog, o Fala Leonardo!). Abaixo a sinopse e capa do livro:

Sinopse: Ele descobriu que o pai havia sido preso através de um programa de TV. No início, sentiu culpa e vergonha por acreditar ser filho de um criminoso. Depois, raiva e aversão. Tudo o que queria era distância. Policial civil conhecido pelo combate ao tráfico de drogas, o pai foi acusado de venda de armas e repasse de informações sigilosas a traficantes procurados no Rio de Janeiro. Era a chamada Operação Guilhotina, que ocupou os noticiários nacionais em 2011. Estudante de Jornalismo, o filho tinha pânico que os colegas de trabalho descobrissem sua ascendência. Nunca pensou em visitar o pai na cadeia ou em telefonar para ele após sua libertação. O filho condenou o pai e, neste livro, explica o porquê.

Adicione no skoob: http://www.skoob.com.br/livro/236784

Compre seu exemplar: Versão Impressa , Versão digital

Leia o primeiro capítulo: http://falaleonardo.files.wordpress.com/2012/05/condenc3a1veis-primeiro-capc3adtulo-grc3a1tis1.pdf

Resenha: Do Jeito que você gosta

E chegamos ao fim, um tanto atrasados, do nosso especial Shakespeare. Hoje irei falar de uma peça não tão conhecida, que foi recentemente publicada pela Balão Editorial, em uma nova tradução realizada pela Cia. Elevador de Teatro Panorâmico. Para começar, vamos falar do enredo grifando os personagens.

Duque Frederico é um homem rico e poderoso que baniu seu irmão, o Duque Sênior, para tomar seu lugar. É pai de Célia, prima quase irmã de Rosalinda. Incomodado pela presença da sobrinha, o duque expulsa Rosalinda de suas terras. Contudo, a proximidade das duas é tão grande que quando ela parte vestida de homem – e agora se chamará Ganimedes -, Célia a acompanha, chamando-se, a partir daquele momento, Aliena. Olivério é um irmão severo e ambicioso que detesta seu caçula, Orlando. Este é criado com os servos, não recebendo educação ou um lugar na nobreza, como bem mereceria por também ser filho de Sir Rolando de Boys. Olivério concede a liberdade a seu irmão, que sente-se preso naquela odiosa vida perto ao que tanto detesta. Porém, tudo não passa de uma armadilha e logo Orlando se encontra apaixonado e em uma enrascada. Ele está sendo perseguido pelo Duque Frederico e nesse meio tempo cai de amores por Rosalinda ( que também corresponde a paixão ). Junto com seu fiel servo, vai para o exílio perto do duque banido, onde também se encontram Rosalinda e Célia disfarçadas. Com vários romances complicados e entrelaçados, difarces e tiranos, está aí uma comédia divertida, no estilo Shakespeare, do qual todo mundo gosta.

Devo confessar que, do que já li de Shakespeare, a história não a das mais interessantes. Contudo, Do jeito que você gosta ganha o leitor por vários outros elementos, principalmente por suas passagens inteligentes e bem colocadas – como é típico de Shakespeare. Na entrevista ao final do livro, a qual comentarei melhor mais tarde, os tradutores comentam brevemente o título do livro. Shakespeare quis colocar na peça todos os elementos que o público gosta, para assim ser um espetáculo como você gosta. Acredito que talvez por isso a história não seja a das mais chamativas ou interessantes. O que encantava e divertia a todos na época do grande dramaturgo já não tem o mesmo efeito atualmente. Por mais que, como já falei no começo do parágrafo, a peça tenha outros meios de conquistar seu leitor/espectador. As passagens são muito boas, talvez seja uma peça com passagens ainda melhores que obras mais famosas do autor. Minha vontade era de selecionar várias, mas me contive e, mesmo assim, ultrapassei o recomendado. O destaque dos personagens, para mim, é Toque, o bobo da corte. Ele é responsável por várias ótimas passagens, além de trazer cenas muito boas, sempre carregadas de sarcasmo ou gozação. Uma das melhores partes é quando vemos Rosalinda, como Ganimedes, conversando, testando ou até mesmo incitando Orlando, seu amado.

A tradução ficou muito boa, um ótimo trabalho da companhia de teatro. As colocações mais modernas ficaram bem estranhas no texto, mas compreendo, ainda mais com as notas de tradução, que foi necessária uma adaptação já que os termos utilizados originalmente fariam sentido somente na época de Shakespeare. Sobre as notas, são bem completas e explicativas, gostei muito de como foram colocadas. A entrevista ao final do livro, realizada com a companhia durante o período que a peça esteve em cartaz no ano passado, é muito interessante, somente complementando a leitura. O meu comentário sobre o título partiu de um ponto da entrevista, por exemplo. Outro fato interessante é que uma das mais famosas traduções para o português trazem Como gostais como título. Estranho como, não só esse, mas também outras traduções para o título, sempre soaram mal. Este atual foi um dos únicos que realmente gostei.

Por fim, está aí uma obra menos conhecida de Shakespeare com ótimas passagens. Uma comédia com confusões românticas e final feliz que traz muito, que todos gostam, do grande dramaturgo.

Confira duas passagens que separei:

Ora, disse bem. Acabo de me lembrar de um ditado: “O tolo é aquele que pensa que é sábio; mas o verdadeiro sábio é aquele que se reconhece um tolo”. Os filósofos de antigamente, quando tinham o desejo de comer uvas, abriam seus lábios ao pôr-las na boca, significando assim que uvas foram feitas para serem comidas e lábios para se abrir. Você ama esta donzela? [Toque, o bobo da corte]

Cantarolam uns versos bacanas

Dizendo que a vida é só pra quem ama

Viva o presente, aproveite seu dia

A vida é pequena, apenas sorria

Vamos amar!

[Balada do segundo pagem]

Algumas capas do livro:

Capa estilo desenho de “As You Like It”

Capa de box com a peça gravada em áudio


Resenha: A Megera Domada

A adaptação que li

O segundo livro do nosso breve especial de Shakespeare –  só de comédias e em homenagem ao dia dos namorados – conta sobre uma personagem feminina pra lá inflexível e emburrada. Vamos, como na última resenha, falar do enredo grifando os personagens.

Batista é um homem de grande fortuna que tem duas belas filhas. A mais velha, Catarina, é brava e insolente, sempre espantando seus pretendentes. A mais nova, Bianca, é doce e e gentil, atraindo para si muitos homens que desejam sua mão. Porém, para o azar de todos, o pai decide que Bianca só poderá se casar após Catarina ser desposada. E todos perguntam: o que fazer para arrumar um marido para a diaba? Eis que chega à cidade Petrúquio, um homem rude e bem doido que aceita se casar com Catarina somente por seu dote. Louco de um modo bem peculiar, ele fará a megera passar por poucas e boas a fim de domá-la. Em contrapartida, temos os cavalheiros disputando pelo amor de Bianca. Lucêncio acabou de chegar na cidade e já caiu de amores pela jovem. Troca de lugar com seu criado, Trânio, e se disfarça de professor particular para poder conquistá-la longe de olhos curiosos. Enquanto isso, seu criado garante a aprovação do pai, comprovando sua fortuna. Grêmio e Hortênsio também disputam a mão da jovem, sendo que este último também se disfarça, porém de professor de música, para conquistar a jovem em particular.

Ilustração da capa pela Anna Anjos

A Megera Domada é um livro super divertido e engraçado com personagens atrapalhados e/ou metidos em enrascadas que garantem uma confusão geral. O modo como todos temem Catarina e como esta não nega seu título de diaba ou língua de cobra é logo a primeira impressão que temos da história. Daí a ver como Petrúquio lida com ela, fazendo-a passar pelas situações mais loucas e imprevisíveis, o enredo só fica melhor. Os criados, no geral, também têm suas cenas. Todos eles são bem atrapalhados e se perdem mais ainda com as estranhas exigências – vários disfarces e outras ordens ainda mais loucas tratando-se de Petrúquio com Catarina – de seus patrões. Uma comédia descontraída com personagens marcantes.

A edição que eu li foi uma adaptação escrita por Walcyr Carrasco, por sinal muito boa, com várias notas de tradutor. Shakespeare faz sempre várias referências a outras histórias, além de contar as coisas como eram naquele tempo ( o que às vezes confunde o leitor que não tem uma observação à mão ). O autor ( Walcyr ) também sempre chama a atenção para algumas expressões ou adjetivos que ele preferiu utilizar em sua versão e quais são eles(as) no original. É um ótimo livro, a edição vale bastante a pena. Minha única reclamação ou dúvida foi a respeito do final, quando percebemos levemente que Petrúquio talvez tenha tido seu gênio domado por Catarina, por quem acabaria se apaixonando. Não sei se no original isso ficou mais claro – o que seria ótimo, pois mostra que o casamento não se trata somente de acordos e que o amor pode surgir das formas mais inesperadas -, mas na adaptação esse detalhe mostrou-se bem vago.

Confira algumas capas do livro:

Capa de uma adaptação da história

 Não percam, no domingo, a resenha do último livro desse especial shakespeariano! Trata-se do lançamento da Balão Editorial, Do Jeito que você gosta, uma comédia não tão conhecida do dramaturgo.

Resenha: Sonho de uma noite de verão

Capa da edição da LPM que eu li

Já falei várias vezes que esse é o meu livro favorito ( dos que li, claro ) do grande Shakespeare. E, por conta do meu projeto Semana Shakespeare, em homenagem ao dia dos namorados, essa apaixonante comédia não podia deixar de ser relida. Pois vamos então, agora, sonhar sob os feitiços dos travessos serventes de Oberon e Titânia.

Algo muito importante em peças, é sempre saber quem é quem, a fim de não se confundir ao decorrer da dramatização. Vamos conhecer os personagens em negrito enquanto conto um pouco do enredo. Hérmia é uma bela jovem, filha de Egeu, que ama Lisandro e é correspondida. Contudo, Demétrio também ama Hérmia e o pai da moça permite que o rapaz a despose, por mais que ela não goste dele e prefira que outro tome sua mão. Helena é apaixonada por Demétrio, que a rejeita, só tendo olhos para Hérmia. Teseu e Hipólita são o casal real de Atenas e eles estão prestes a se casar. O duque deseja que Hérmia, no dia de seu casamento, ou se case também, porém com Demétrio, ou se ofereça à morte, por desrespeitar a vontade do pai. Para poder escapar desse trágico destino, os amantes desafortunados, Hérmia e Lisandro, planejam escapar de Atenas pelo bosque. Porém Helena fica sabendo da fuga e conta a Demétrio, que não tarda a correr atrás dos dois com a jovem apaixonada em seu encalço.

Na floresta, há várias fadas e duendes e outra situação. Oberon é o rei. Titânia a rainha. Por diversas razões ambos têm brigado muito. Oberon deseja o pagem da rainha e, para isso, fará ela se apaixonar pela primeira besta que vir pela frente, pingando em seus olhos o sumo de uma flor flechada pelo cupido. Só que, com a tal flor em mãos, ele vê Demétrio e Helena, ficando com dó da jovem. Ordena a seu atrapalhado duende que faça um jovem ateniense se apaixonar por Helena. Perdido, o ser das florestas encanta Lisandro, que persegue Helena e esquece Hérmia. E é esta só uma das muitas confusões que aguardam os amantes nessa noite de verão…

A história é bem divertida e com falas muito bonitas. Como é típico de Shakespeare, o lirismo está super presente na dramatização, gerando várias passagens belíssimas que impressionam o leitor. Uma que me chamou bastante a minha atenção, apesar de não ter sido a mais bonita ou poética, foi a seguinte:

Helena: Sua virtude é minha proteção, pois, quando vejo o seu rosto, não é noite e, assim sendo, penso que não saí à noite. Tampouco este bosque carece de mundos de companhia, pois você, aos meus olhos, é o mundo todo. Então, como pode-se dizer que estou sozinha se o mundo todo está aqui, olhando para mim?

As melhores partes são com certeza no bosque, porém, uma das minhas cenas favoritas é a do final, quando todos se reúnem para o casamento e há a apresentação da peça de Príamo e Tisbe, encenada pelos trabalhadores atenienses.

É uma leitura leve e rápida, por se tratar de uma peça, inclusive bem curta. Perfeito para um tarde de domingo, principalmente se for de verão…

Confira algumas capas do livro:

Capa versão Twilight figurando as tais flores lilases flechadas pelo cupido

Capa de um versão em HQ publicada pela editora Nemo

Depois que eu percebi que esse se trata de um cartaz de uma montagem da peça, na verdade. Mas é tão bonito que decidi colocar aqui assim mesmo.