Resenha: As Crônicas de Aedyn – os Escolhidos

Esse foi um livro que eu ignorei solenemente a sinopse, inventei a minha e comprei. Logicamente, o que eu encontrei não era nada do que eu esperava, mas também não significa que era ruim. As Crônicas de Aedyn – os Escolhidos é um livro pequeno e bem típico do estilo “fantasia e aventura com crianças” que traz alguns questionamentos e conforme continua até prende pela curiosidade.

     O livro conta a história de dois irmãos que moram em um colégio interno e mal se falam, mas nas férias vão para a casas dos avós esperar o pai que chega de viagem. No meio das horas de tédio, Julia acaba descobrindo um jardim secreto com um brilho diferente. Através dele, ela e seu irmão, Pedro, vão parar em um outro mundo. Lá é revelado que eles fazem parte de uma profecia. Sua missão nesse lugar é encontrar um jeito de libertar os escravos do excessivo controle de três lordes e resgatar a paz da ilha sob um governo justo.

Algo que descobrimos logo no início do livro é que, apesar da profecia ser sobre duas crianças, a maior parte da narração é focada em Julia. Além disso, os dois personagens principais é que nós conhecemos com alguma profundidade, enquanto os outros são apenas como traços para deixar melhor a composição de uma pintura. Julia, é a menina, sensível. Pedro é um garoto, científico. Em alguns momentos, como quando a avó troca um livro de História por Alice no País das Maravilhas para Julia, como se só garotas gostassem de fantasia, fica claro isso do livro marcar a visão tradicional sobre os sexos.

Para quem não sabe, o livro é da editora Hagnos, que o site de cara chama atenção pelos títulos religiosos. Antes de ler eu me perguntava: por que eles foram publicar esse livro? Por maior que seja a vontade de vender para o público jovem, eles provavelmente escolheriam algo que tivesse a ver. Não, o livro não tenta converter ninguém, mas mostra um deus (não o Deus) e fala, em parte, sobre a fé. No mundo para onde eles vão, há uma grande crença no “Senhor dos Exércitos”. É interessante um ponto em especial: os lordes na ilha tentam proibir essa fé e fortalecer o lado “científico”. Muito parecido com o que acontece em Brumas de Avalon, mas nesse caso a religião católica substituindo as crenças nos deuses antigos.

O livro fica com 3 estrelas no Skoob, o que significa bom. O livro não é ruim (de jeito nenhum), mas é como vários que já existem, lembra aos de Nárnia (nunca li, vi mais ou menos o primeiro filme e fiquei sabendo de outras coisas, mas lembra) e não tem como negar que o início da história parece com Alice no País das Maravilhas, comparação feita no próprio livro. Ele é como os livros do estilo, mas não tão grandioso. Ele ganha é no tamanho, que pode ajudar a quem não consegue ler muito ter um pouco da experiência que um maior pode proporcionar.

Serve para quem quer ler uma fantasia diferente da que tem lotado as prateleiras ultimamente, para aqueles que querem uma leitura rápida, para os que gostam de pensar na vida, para quem quer dar um presente com segurança… Se eu soubesse mais sobre o livro, só não leria pelo mesmo motivo que eu não tenho vontade de ler a continuação de Sussurro – Hush Hush, são livros até bons, mas há muitos outros melhores e que englobam o que tem nesses livros.

O livro é o primeiro de uma trilogia (os outros ainda não foram lançados aqui). Os próximos são “Flight Of The Outcasts” e “Darkness Shall Fall”.

Título: As Crônicas de Aedyn – Os Escolhidos

Autor: Alister McGrath e Voytek Nowakowski

Editora: Hagnos

Vendido no site oficial da editora e em algumas livrarias específicas, como a Saraiva.

Resenha: Para Sempre Ana

Muita conversa sobre Bienal, mas… e aí, procurando algo para ler?

O livro de hoje é interessante, eu acabei lendo muito sem querer e acabei me surpreendendo. Ele é bem diferente dos que eu costumo postar no blog, mas ainda vale a pena conhecer. Eu fiz o post ontem, estou editando agora, mas é porque eu encontrei algo que vale a pena acrescentar. A Luzia, que trabalha na divulgação do livro, disse algo mais ou menos como:

“Alguém disse que faltou algo para o livro ficar bom de verdade. Bom, eu acho que, pelo menos no caso de Para Sempre Ana, esse algo não deve vir do livro, mas do leitor. Se o leitor não tirar de si esse algo para completar a história, está a um passo de se decepcionar.”

Isso explica bem o caso do livro. Se você apenas ler Para Sempre Ana, vai achar um livro bom, como uma série de mistérios para serem desvendados com um toque de sobrenatural. Agora, se você parar e refletir sobre toda a história, vai ver como ela pode ir muito além e criar várias conexões, fazer mais sentido do que dava para imaginar.

Agora, continue a ler e descubra um pouco mais sobre o que é e por que é tão legal.

A trama de “Para Sempre Ana” parte do anúncio de uma suposta paternidade, que ameaça a fama da respeitada família Rigotti e o amor de um casal, além de trazer o risco de que verdades há muito tempo escondidas sejam reveladas. Quando isso acontece, uma série de outros fatos, e segredos, acabam surgindo. Mas, quem é o culpado? O que, de fato, está acontecendo? “É uma longa história…” E essa é a história contada no livro.


Desde o início, o leitor é atraído pela curiosidade, porque há sempre algo para descobrir. Isso ajuda para que o livro seja equilibrado: ao mesmo tempo em que traz um caso semelhante aos de séries policiais, trata de questões mais profundas. Aliás, esse é um livro que se destaca por ir além da ideia de ser apenas uma história, pois parece querer mostrar e explicar questões comuns da vida. Durante toda a leitura, o que está acontecendo está sendo explicado, mostrando que cada personagem tem seus motivos, e quais são esses motivos, ajudando a entender suas ações. O livro tem tanto esse teor explicativo, que explica até fatos simples, como quando o personagem gosta ou deixa de gostar da comida de acordo com seu humor. Esse é um artifício constantemente usado, mas que costuma aparecer sem maior alarde, apenas colaborando para o clima da história. Esse exemplo representa bem como a narração segue, seja em casos pequenos assim ou nos maiores e mais importantes.

Um outro ponto interessante que não se pode deixar passar é a discussão entre ciência e religião. O livro todo apresenta essa dualidade de visões, seja na própria fala de personagens ou explicando certos acontecimentos, que para uns foram causados por alienígenas e para outros por espíritos. Seja pelo método científico ou com o auxílio de Deus, os personagens acabam encontrando as respostas. Isso é interessante porque – mesmo parecendo aleatório, apenas para embalar as discussões – acaba por representar a história com base em pontos de vista e dar uma conclusão à questão. O próprio final do livro pode ser explicado tanto por um quanto por outro lado.

Essa história de religião contra ciência parece um pouco antiga, mas pode dizer muito sobre o livro, ou sobre seu público adequado. Este provavelmente não é um livro amado entre os jovens, não por uma suposta falta de capacidade deles para gostar de algo sério ou de assuntos profundos, mas porque o livro trata de uma questão da vida de gerações mais antigas. Atualmente, a vida com liberdade é parte do cotidiano dos jovens, algo distante da vida regrada e padronizada de seus pais. O cuidado exagerado com as aparências é algo mais antigo. Hoje em dia esse modelo está sendo quebrado, e é justamente isso o que o livro faz: mostra personagens totalmente dentro desse modelo, mas analisa o que acontece com um ponto de vista atual, como um modo de pensar alternativo ao dos personagens que serviu de caminho para encontrar a verdade – e a felicidade.

Na verdade, até o modo de escrever do autor pode afastar os jovens. Em parte porque lembra um pouco o de antigos escritores brasileiros, causando certo preconceito com toda a história. E, também, porque a escrita é contida, muito preocupada com o que seria “correto”, afastando-se da narração próxima ao cotidiano a que os jovens leitores estão acostumados. Contudo, até mesmo esse estilo de escrita do autor cai bem ao livro, também ajudando a criar o clima da história.

“Para Sempre Ana” é um livro que lembra um pouco os mistérios de livros de Sidney Sheldon, Agatha Christie e até mesmo de séries policiais americanas, mas tudo isso com um clima mais quente, como “contando histórias de vida”. O autor consegue criar uma trama intricada e interessante. E mesmo o seu modo de escrever, que pode assustar aqueles acostumados a textos livres e próximos do cotidiano, consegue cair bem à história do livro. “Para Sempre Ana” é como aquela pintura bem feita, com direito a toque final, que o autor respira fundo, olha a obra finalizada, e diz: “Está pronta!”

Título: Para Sempre Ana

Autor: Sergio Carmach

Editora: Caravansarai