Projeto Oficina de Escrita: Sobre Crônicas

Muitos de vocês, pessoal das letras que não perde uma oportunidade de escrever um texto, já deve ter participado ou procurado saber de oficinas de escrita. São uma ótima pedida, se não o paraíso, para aspirantes a escritores, pessoas que acham uma maravilha dedicar certas horas a ouvir profissionais da área e poderem produzir e ler e trocar escritos. É, realmente, muito bacana. Contudo, todos devemos admitir: são cursos caros. Essas oficinas não são nada acessíveis e muitas vezes a galera que tem bem o perfil de tal curso simplesmente não pode se dar ao luxo de pagar sua inscrição em um deles. Foi pensando nisso que nós ( Victor e Ana ), bolamos um projeto super legal. Trata-se de uma espécia de oficina de escrita: mais curta, informal, sem grandes pretensões, livre e, o melhor: gratuita! Na verdade, nem chega perto de uma real oficina ou curso, foi só um nome que demos. É simplesmente uma oportunidade despretenciosa de falarmos um pouco de certos gêneros e instigarmos vocês, leitores, escritores e contistas, a trocarem textos conosco. Uma ótima pedida para as férias paradas e sem inspiração. Então, como vai funcionar? Bem, até o final do mês, publicaremos nos blogs dois textos que escrevemos em conjunto: o primeiro sobre crônicas e o segundo sobre resenhas. Falamos um pouco do que entendemos sobre ambos os gêneros e, ao final, convidamos vocês a nos escreverem algo daquela linha. Nós leremos todos os textos que vocês nos enviarem e selecionaremos os melhores para publicar em nossos blogs ( com devidos créditos ) na semana seguinte. Não é uma competição, apesar de que premiaremos os autores das produções que mais nos encham os olhos com marcadores e livretos. As crônicas e mais tarde resenhas que receberemos não precisam ser necessariamente inéditas, por mais que a ideia seja fazer vocês produzirem a partir do nosso textinho e do projeto em si.

Sem mais delongas, segue o nosso texto sobre crônicas:

A crônica é um gênero textual criado, originalmente, com o intuito de relatar os acontecimentos em sua ordem cronológica para eventuais registros. Esta da qual falamos, contudo, surgiu em meados do século XVIII, com o nascimento da imprensa na França, geradora de um novo formato em que o jornalista tinha livre-arbítrio, utilizando-se de um fato real, para compor uma narrativa curta e pessoal.

Quando falamos em crônica, uma das coisas que, particularmente, mais me agrada é o seu caráter tão democrático em se tratando de estilo e espaço. O cronista, ao produzir seu texto, pode variar entre os tipos sem temor. Para os observadores, há sempre a possibilidade da descritiva; aos falantes, a narrativa; aos cheios de argumentos, a dissertativa; aos indecisos, narrativo- descritiva; aos engraçadinhos, a humorística; aos inspirados, a lírica; aos eternos apaixonados, a poética; aos que não largam o ofício de noticiar, a jornalística; aos conhecedores, a histórica.

Um detalhe bem interessante, na minha opinião, é que a popularização desse gênero em vários jornais, revistas e portais da internet o torna bem comum, destacando, por meio disso, os melhores textos dessa linha. Das várias crônicas que leio semanalmente – e que muitos leem também– são poucas aquelas que realmente balançam meu dia e ficam na minha cabeça. Abordar um bom tema e explorá-lo com maestria não é para muitos, ainda mais na linguagem simples típica desses textos. Outro fator que considero destacável é que por mais que consideremos um autor um ótimo cronista, não é em toda edição que ele publicará uma crônica, como citei acima, que irá te marcar. É muito mais dos temas e seu desenvolvimento do que da escrita, por mais que esta também seja notável.

Em termos de estrutura, pedem-se no mínimo três parágrafos, no qual o primeiro leva a introdução, o 2º, desenvolvimento e o 3º, como é de praxe, a conclusão. Por ser um texto mais livre, entretanto, nada impede o seu autor de prolongar a estrutura, desde que de maneira bem dialogada, e sem extrapolar as regras basicamente jornalísticas de ser breve e sucinto, sempre.

Crônicas são muito gostosas de ler e de se escrever. Quando estou com uma ideia ou um fato fervilhando na minha cabeça, é quase certo de que sairá uma crônica. São os temas latentes, que mexeram e encucaram o autor, e que farão – ou tentarão fazer – o mesmo com seu leitor. Uma das cronistas mais conhecidas atualmente, a qual eu leio todo domingo, é a Martha Medeiros. Eu gosto muito também das crônicas do João Paulo Cuenca publicadas na Megazine ( aquele caderno que já nem sai mais no Globo ). Para vocês verem, lembro de crônicas deles que foram publicadas há mais de um ou dois anos. Encontrei uma da Martha para dar um gostinho não só da autora, mas do que eu considero uma crônica marcante: A Mulher e o GPS. Na procura de textos dos dois autores, acabei encontrando um trecho de entrevista com o João Paulo Cuenca super legal, no qual ele responde sobre o que o inspira a escrever uma crônica: Uma crônica é um recorte urbano, uma idéia ou sentimento que te atravessa. Pra mim ele disse tudo que um ótimo texto do gênero tem que ter.

Agora que já falamos um pouquinho, é a vez de vocês! Enviem seus textos para blogdasresenhas@gmail.com . Queremos ler suas produções 😉

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Decisão do cego

Esses dias eu tomei uma decisão. Dessas que, mesmo depois de decidir, você ainda acha que deve escolher mais alguma coisa. Porque, bem, não é apenas uma encruzilhada. São dois caminhos que não sobrevivem juntos. Não pra mim, pelo menos. Talvez para os outros, mas infelizmente não fui agraciada com a sorte de ter tudo. E às vezes é como se o problema fosse interno, quase uma possibilidade real de ter um parafuso solto. Simplesmente não somos capazes de suportar duas coisas ao mesmo tempo. Ou melhor, eu não sou capaz.

Ora, mas se ser capaz vem de capacidade, então eu sou incompetente? Só por chegar a um auge, e não suportar segurar os dois caminhos? Só porque minhas pernas não são longas o bastante para permanecerem uma de cada lado da estrada?

A questão vai além disso. Você no fundo sabe o que escolher, porque sempre sabemos, mesmo que sua situação grite incessantemente outra coisa, e todos a sua volta escolham ambos os lados. Talvez sejamos fracos, sim. Talvez eu não tenha talento para isso. Questionar decisões pode ser meu sobrenome, mas isso não faz com que menos caminhos apareçam. Quantas pessoas tomam decisões difíceis por dia? Quantas delas andam pela estrada errada? Às vezes a coisa toda é muito óbvia, e por isso você suspeita. A desconfiança jamais foi um crime, mesmo para aqueles que correm sobre pedras em vez de andar sobre flores. Vistos como tolos e cegos pelos que estão de fora, são sábios em suas próprias mentes: por que destruir a beleza das flores se posso poupá-las disso e preservar sua perfeição? E as pedras não machucam, não se você estiver de sapatos.

E enfim, após a decisão tomada, a única coisa em que se consegue pensar é: pedirei desculpas. Desculpas pela fraqueza, por não ter conseguido, por não ter alcançado o objetivo. E apesar da necessidade de pedir perdão, a ideia de se desculpar me incomoda. Porque não fizemos nada de errado, não assaltamos um banco, não matamos ninguém. Nós só… tomamos uma decisão. Escolhemos o tempo em vez do dinheiro, escolhemos dormir em vez de falhar.

Um trabalho bem feito sempre é melhor que dois feitos pela metade. Essa é a resposta que estive procurando, é o motivo pelo qual decidi dicidir.

Igraínne

Deixe estar…

Caminhava pela casa com passos leves, uma velocidade impregnada de leviandade, um brilho nos olhos e um jeito todo leve, fluido de falar. Gesticulava com as mãos para cima e a cada vez que piscava, parecia estar emergindo de um sonho colorido, com as pálpebras relaxadas e traços de sorrisos nos lábios. Ó, doce felicidade que a atingia e a embalsamava naquela tarde comum de novembro.

“Como você está?”. “Estou feliz”. E já basta, de alguma forma… Certa vez, enquantoo folheava um livro espírita, descobri uma teoria muito pertinente de que felicidade é um estado de espírito. Puramente temporário, feito dos momentos mais planos e simples. Fiquei a me perguntar quanto tempo a tal demorava para agir sobre nós, quais eram os sintomas e se poderia nunca haver cura para o bem mais precioso da humanidade.

Um beijo apaixonado, um abraço entre amigos,  o nosso nome pronunciado pelos lábios daquela pessoa querida, música para os ouvidos. Uma viagem inesperada, sair sem rumo pela rua, ajudar um idoso a carregar peso, ensinar o irmão caçula sobre matérias que ele nunca realmente desejou aprender. Correr descalço pela chuva, fazer uma trilha e se perder em frente a uma cachoeira, passar no vestibular na última chamada, aceitar um pedido de casamento, tomar café da manhã com a família e ouvir as dicas sábias do avô de quase noventa anos. Comer todo um pacote de balas de iogurte, colocar muito óleo para fritar um hambúrguer e sair rindo da barbaridade culinária, o gosto proibido e a ardência de tomar a primeira dose de álcool, ir tomar sol na praia e só voltar à noite. Afinal, o que nos faz felizes?

Somos um conjunto de sonhos, de grandes expectativas e desejos.  As conquistas nos engrandecem, as metas nos dão vigor e os desejos aquecem o coração mas, afinal, é nas pequenas coisas que reconhecemos a nobreza do sentimento pleno de estar contente. Não é apenas sobre conquistar, porém como o conquistamos. Não é apenas sobre ter metas, porém sobre os sonhos que deram vida a elas. Não é sobre desejar, porém algo mais puro, atemporal e grandioso como sonhar.

Não somos felizes. Somos gordos, magros, altos, baixos, loiros, morenos, brancos e negros. Somos sonhadores, idealizadores de grandes planos, extrovertidos, descontraídos, tímidos e recatados, ambiciosos, narcisistas, egocêntricos, ingênuos e espertos, inteligentes, ignorantes… Somos produto da matéria, da circunstância e do momento. Um conjunto de qualidades e defeitos, tão particularmente humanos. Não temos a felicidade em nossa essência, mas podemos estar sempre acompanhados dela.

Disse algum escritor importante, certa vez, que não devemos correr atrás da felicidade, pois a mesma há de nos encontrar qualquer dia. Honestamente falando, se hoje trazia um enorme sorriso nos lábios e estava completamente feliz, digo com plena consciência de que a tal não veio buscar-me, mas foi buscada pela audácia de meus sonhos. Não é sobre ser, sobre desejar… É sobre aquele sublime momento de estar… E que nada mais importe.

Ana Ferreira

 

O brilho de crer

Boa noite aos leitores!

Trago-lhes hoje um texto já publicado em meu blog, o Na Parede do Quarto, com um caráter que oscila entre o conto e a crônica. Espero que gostem!

O brilho de crer

Habitava um mundo escuro, triste e arcano. Era um mundo real aquele. Um mundo sofrido e complicado no qual as pessoas escondiam-se dos olhares violentos e perdiam-se em meio aos becos sujos, talvez para sempre, dependendo da crença do morto. Ou quem sabe por um tempo menor, dependendo da disponibilidade de macas e profissionais para atendê-los no pronto socorro público.

Todos ali estavam à mercê da sorte, ou da falta dela, se preferir. Tinham desconfiança no olhar e eram calejados na defesa. Quando as forças da cidade subiam até ali atrás dos que contribuíam para o funcionamento do mercado negro, dos que, a puro sangue frio, propagavam a fama dos entorpecentes, os honestos não tinham vez. Escondiam-se e, muitas vezes, pagavam o preço pela escolha dos outros. Estas, a propósito, não eram muitas. Ou lutava-se bravamente para alcançar o degrau mais baixo, tão distante dos ricos e abastados, ou atacava-se para cair pelo abismo do tráfico, do crime. Os primeiros tentavam viver, os outros morriam cedo, quase sempre pela ação da vingança.

A moldura da janela de Carolina era triste. Eram tempos de briga, de guerras entre os grupos. Durante o dia, as crianças iam às escolas assustadas. Outras achavam tudo engraçado, diziam que fariam o mesmo quando grandes, sentiam adrenalina no sentimento de simplesmente matar. Não haviam aprendido a gravidade que acarretava o ato de tirar a vida de alguém a custo de nada, ou a custo de muito pouco.

As mães sofriam, tinham que ir trabalhar e deixar os filhos aos cuidados de sabe-se lá quem. Alguns não tinham mães. Algumas mães não tinham filhos, abandonavam-os ao destino, ao lado negro da força. Algumas filhas confundiam-se com mães, meninas de onze, doze anos carregando outras meninas em seus ventres. E não nos esqueçamos dos pais, escassos eram os tais dos pais. Bandidos, presos, traficantes, bêbados e alguns trabalhadores de dias inteiros que não eram capazes de cuidar dos vários filhos.

As casas eram pobres, cheias de falhas. Menores que alguns apartamentos tidos como pequenos para solteiros de classe média, e às vezes, abrigavam mais de cinco pessoas. Cinco vidas de opções poucas, de sonhos improváveis e de vontades que perdiam-se durante o trajeto. A cada aniversário, uma utopia ficava para trás na estrada esburacada. Era difícil alcançar o topo com que todos sonhamos quando jovens. Salvo raras exceções, pessoas realmente especiais e dotadas de determinação maior que o próprio mundo obscuro no qual tinham de viver.

Homens armados, drogas de todos os tipos escondidas sob o piso de madeira gasto e as forças da cidade que chegavam em carros. Nessas horas, era comum ouvir tiroteio. Todos, os que tinham sorte de estar em casa especialmente, abaixavam-se e rezavam a um deus que eles desconheciam por um futuro melhor, por uma solução ao problema que nunca se resolvia. Azarados os que estavam nas ruas, perto de onde o fogo queimava rápido, a bala consumia-se na madeira e no cimento pobre de um barraco qualquer.

Carolina tinha plena noção daquele mundo. Vivia dentro dele e tinha alguma esperança de que mudasse. Às vezes, quando as guerras acabavam e todos estavam tristes, desolados pelas inúmeras perdas, perguntavam-na como ainda era capaz de sorrir. Não de uma forma maldosa, mas tranquilizadora, como se algo melhor viesse, como se ela pudesse acreditar que viria, como se soubesse.

– O mundo é bom. – Ela lhes dizia, sorria.

Ficavam com dúvidas se a menina os caçoava, abrigados pela constante ignorância de quem vivia isolado dos benefícios de outros.

Ela sabia, sim, que havia algo melhor. Sabia pois à noite, quando as luzes apagavam-se e todos iam dormir sonhando com tudo que lhes ira inalcançável, ela abria sua janela e enxergava tudo, o seu mundo.

Era um lugar belo. As latas do lixo que transbordava viravam árvores enormes, cheias de frutos coloridos e flores transbordando pela relva verde. Os muros altos que separavam os becos tornavam-se muralhas e fortalezas brancas meramente decorativos de seu castelo cor-de-rosa, o seu reino encantado no qual todos sorriam, no qual ninguém estava preso, no qual ninguém era assassinado, no qual todas as mães tinham filhos e todos os filhos tinham mães, no qual as crianças brincavam e não precisavam cuidar de outras crianças, no qual o que mais se aproximava de vício eram os algodões deliciosamente doces das árvores localizadas às margens do rio cintilante.

Tudo ali era deslumbrante e nascia através de um simples gesto. Quando Carolina sentava-se à frente de sua janela, acendia uma antiga lanterninha e abria um livro, com um brilho todo especial nos olhos ao folhear suas páginas. Um brilho de esperança que só havia nas crianças e nos que entregavam-se aos encantos de ler, eternos sonhadores.

Ana Ferreira

 

 

 

Devaneios atemporais

Fiz aniversário num dia desses, indiferente, e relembrei com ternura dos tempos de alguns anos atrás, não tão remotos quanto parecem, quando contava o período transocrrido até a data. Eram noventa, duzentos e até, que bobagem, trezentos dias para uma novo ano do momento que refrescava-me a alma.

Quando se é criança, cada hora é uma doce celebração e, paralelamente, ninguém realmente se importa com horas. São instantes de inocência, de liberdade, de compromisso com o descompromisso. A que horários vamos brincar na gangorra? Em que período do dia nos jogaremos na lama e riremos de nossas faces rechonchudas respingando marrom? Sorriam, pimpolhos, e brinquem nas gangorras por toda a vida, joguem-se na lama às quatro, às cinco e, por que não, à meia-noite?

Chegada a juventude, pergunto-me se haverá tempo para tanto viço… O primeiro show com os amigos, os beijos cheios de desejo e gosto de descoberta nos lábios, o anarquismo às políticas maternas, voltar de casa durante a madrugada… A inconstância de corações ferozes que têm pressa de adulto e sonho de eternidade infantil.

Quando adultos, a vida cronometrada é o pêndulo que oscila de um lado ao outro com ansiedade em busca da plenitude. Às 6h acordar e tomar banho; às 7h pegar o carro na garagem e ir trabalhar; ao meio-dia sair (atrasado) do trabalho para almoçar no restaurante da esquina; às 14h tomar o expresso da máquina no lado oposto do escritório; às 17h ligar para os filhos e perguntar se estão bem; às 20h voltar para casa, exausto, e checar a agenda para a vida horária do dia seguinte.

O tempo é implacável para os que vivem a velhice. Angústias de toda uma caminhada refletidas no medo de um passo em falso, de cada palpitada do coração… Um saudosismo dos tempos de infância, juventude e maturidade jovem, todos inconscientes das futuras preocupações, dos curtos espaços necessários para destruírem em ruínas aqueles que há tantos anos resistem às ações daquele que cura, daquele que corre com ferocidade…

Pego-me repentinamente desimportando-me com o ano que adquiro, distanciando-me das celebrações e das contagens exaustivas, abdicando dos sagrados minutos de espera, vivendo o eterno enquanto ele dura.

Quem sois vós, séculos, anos, meses, semanas, dias, horas – acima de tudo, horas -, diante dos “Cinco Minutos” de atraso que deram à Carlota de José de Alencar a chance de encontrar seu amado? Quem sois vós diante de um segundo de cumplicidade entre inimigos de anos? Quem sois vós durante aquela breve troca de olhares, num metrô lotado às 19h, que irradiava uma velha e ardente paixão? E quem és tu, então, ó tempo, diante da eternidade de ter sido feliz por um longo  segundo compartilhado, afetado pela atemporalidade do majestoso senhor das eras, teu mais sincero amor.

Ana Ferreira

Uma muralha qualquer

Hoje, enquanto caminhava pelos corredores de uma loja que me remetiam às brincadeiras de minha doce e travessa infância, encontrei-me, ao encarar uma boneca de estilo “Barbie”, com os pensamentos a vagarem longe daquele lugar, de minha cidade, de meus país tropical. Bastou-me ter fitado aquela boneca, de muitas outras, mas especialmente aquela que me vi a refletir sobre o povo da China, da nação populosa, especificadamente, pensava nas mulheres chinesas e em quanta força deveriam ter para perecer às tantas dificuldades que enfrentam.
Não pergunte-se, prezado leitor, o porquê de tal ideia, uma vez que bonecas que seguem o padrão da queridinha americana, sonho de consumos de meninas ao redor do mundo, não apresentam quaisquer aspectos chineses: não têm os cabelos negros sem brilho e com a franjinha clássica, na verdade, são louras como trigo; não possuem a famosa curva nos olhos e aquela profundidade que me faz saber diferenciar chineses de japoneses (por mais incrível que lhes pareça, a um bom observador não se é impossível), têm mesmo os olhos de uma tonalidade azul que desperta certa cobiça nas pequenas moreninhas deste Brasil; altas, magras e fadas da beleza para as crianças que mal deveriam ter que se preocupar com estereótipos em seu nível de candura imaculada. E então, por que penso nas chinesas? Não é assim tão difícil. Basta virar a caixa da boneca, de todas e verá que minha dispersão não viaja tão longe espontaneamente. As bonecas com cara de americanas, “modeletes” e perfeitas no conceito estético nasceram na China, nas mãos de alguma mulher forte que trabalhava enquanto pensava em sua casa, em como estariam suas filhas, em qual presente poderia lhes dar no próximo Natal com o salário escasso e um pouco atrasado que vem recebendo. Meying, a chamemos assim, possui um nome simbólico,  que remete a uma linda flor. Meying também tem um nome popular, pois entre os dois bilhões de habitantes que vivem em seu território, há uma notável parcela de outras lindas flores. Seu rosto é comum, nem belo nem feio, tem o semblante cansado embora jovem seja. É viúva, perdeu o marido em um acidente de fábrica. Teve duas filhas com ele, uma vez que o governo chinês não quer que suas flores floresçam mais de duas vezes, seu país já é demasiadamente populoso e teme que os números tendam a aumentar em um grau de magnificência incontrolável. A vida continua.
Meying conta com o auxílio financeiro de seu governo devido à morte acidental de seu marido, embora escasso seja, e deve trabalhar  todos os dias ao longo de doze horas por seu salário não tão satisfatório recebido em xelins. Ela não reclama. Acorda cedo todos os dias e leva as filhas para a escola. Enfrenta multidões no transporte coletivo até chegar na fábrica em que passará o resto de seus dias. Acomoda-se em um banquinho qualquer, com a coluna doendo dos anos que vem realizando seu ofício e começa a embalar as bonecas. Embala princesas para o baile, médicas, veterinárias, professoras, noivas, sereias, fadas, rainhas, grávidas, cozinheiras, balconistas, perfumistas… A fábrica tem sempre muitas novidades, tem que chamar a atenção de seus clientes, satisfazer as utopias das crianças rondadas pelo capitalismo. A chinesa as acha belíssimas, gostaria de ser como aquelas bonecas, de estar sempre com um sorriso na cara sem que mal algum lhe atinja, de viajar quilômetros e continuar cheirosa, com os cabelos brilhosos sem sequer usar cremes para hidratação. Gostaria de ser loura, ou quem sabe ruiva, ter os olhos azuis e verdes, as roupas deslumbrantes, gostaria mais ainda de ser tão cobiçada, ainda que pelos mais inocentes dos olhares. Meying não causa desejo aos homens. Há muito não ama, há muito não se diverte, há muito não tem companhia, não diz o que pensa, não faz o que quer, não infringe regras, não busca pelo conforto das lágrimas. A chinesa é discreta, é forte, escrava de seu trabalho e da indústria do capitalismo em um país que se diz socialista. É a verdadeira muralha da China, a que perece às maiores dores, a que atinge dimensões enormes, porém, não se é visível. A muralha que resiste aos bombardeios com vigor, sem deixar seus homens caírem. A muralha que, em seu coração, possui uma força e destreza inabaláveis que ali nasceram e ali se farão eternas.
Meying terá mais milhares de dias comuns, chegará mais tarde do trabalho porque haverá mais bonecas para serem embaladas, continuará pensando no presente de Natal de suas filhas, continuará ligando escondida para elas perguntando-lhes se chegaram em segurança da escola, pensará no marido à noite enquanto deita na cama e deixará que uma lágrima escorra sobre o seu travesseiro de pano barato, como se aquela lágrima pudesse dissipar todo o seu fardo e limpar toda a sujeira que a mulher continuará a ver quando acordar, no céu industrial da China.
Abraços,

Ana Ferreira

Das estradas pela Literatura

Tudo começou com um livro do qual não me recordo.  Rapidamente veio o hábito, aquela vontade de sempre estar acompanhada das páginas, impregnada dos pés à cabeça com o cheiro misturado a pó que delas exalava.  O Português já naquela época era muito querido por mim. Também gostava de História, o que mais tarde viria a unir-se com a língua máter e geraria a paixão pela Literatura. Nunca fui muito fã de Matemática, acho que os números não aceitaram minhas visões utópias e delicadamente tecidas do mundo, as letras sempre preferiram caminhar ao meu lado.

Vinte, cinquenta, cem, e o primeiro livro realmente grande, duzentas e oito páginas, se não me falha a memória. Era um exemplar de “Viagem ao Centro da Terra” e, mal sabia Julio Verne que acabara de levar uma jovem de dez anos (ou seriam onze?)  ao ápice do conhecimento e à convicção de querer estampar páginas, de alguma forma, pelo resto de sua vida.

Primeiramente, pensei em Letras. Comecei a escrever timidamente versos com rimas pobres, daqueles que mais soam como cantigas que qualquer outra coisa, mas eles tinham alguma essência pura a ser captada. Fui estudando, refinando o vocabulário, apurando os antigos gostos e alimentando-me de livros, livros e mais livros.  Ao dar uma volta pela biblioteca da escola, fiquei feliz em conhecer grande parte dos títulos, em poder indicá-los a amigos que logo me incentivaram a manter acesa a chama da escrita que ardia em mim. Persisti.

Romances de meninas jovens frustrados, os primeiros rastros de um texto dissertativo convincente e, por fim, enfim, o encontro, o casamento perfeito com os tipos essenciais, encantei-me com as crônicas e os contos. Nestes pude exprimir toda a fantasia e a ficção que habitavam em mim. Dei asas a personagens em Santos, em Londres, em reinos encantados… Daqueles, daquelas crônicas, entretanto, senti, pela primeira vez, o espírito jornalístico brotar e gritar em meu espírito que adquiria maior curiosidade acerca do mundo. As Letras que me perdoem mas, hoje, pouco mais de um ano antecedendo o temido vestibular, escolhi o Jornalismo. Foi ele, inclusive, assim como muitos outros, que inspirou-me a ter um blog.

Sobre o que falar? Como aguentar o ritmo das leituras? Como conseguir seguidores? Algum dia iriam me descobrir? Não foi fácil, certamente. Para sermos descobertos, precisamos explorar por muitos cantos, quase como um tesouro perdido. Nunca percam as esperanças, entretanto. Se o blog resistir aos três primeiros meses, pode considerar-se um vencedor. Diziam-me que deveria redigir sobre aquilo de que gostava, para agregar material diariamente e assim o fiz. Livros vieram, logo após eles, as resenhas e as novidades sobre o mundo literário. O desafio, que não era realmente um desafio, escrever uma resenha por semana, ler um título por semana, empolgou-me e, por vezes, tirou-me o sono, literalmente falando, mas hoje, após nove meses com o meu blog no ar, não consigo lembrar-me do quão vaga era a vida antes dele.

É em nome dessa paixão por Literatura e de minha história que começou, assim digamos, há mais de dez anos com os volumes fininhos da pré-escola e há cerca de cinco, com o pontapé incoscientemente dado por Julio Verne, que escrevo-lhes hoje.

Aparecerei aqui às quintas-feiras, uma vez a cada quinzena e pretendo, desta forma, dividir um pouco de meu cotidiano, das coisas corriqueiras da vida, tornando-as especiais de alguma forma. Falaremos, em crônicas, sobre olhares trocados nas ruas, sobre passeios pelas alamedas do coração, sonhos perdidos em bueiros, grandes descobertas, atemporalidades, chuva e sol, ventos selvagens e brisas leves, amores e desamores. Tudo com um toque metafórico e lírico que só alguém que já quis um dia fazer Letras pode ter, acompanhados do sarcasmo quase jornalístico, e de relatos sob o ponto de vista de uma adolescente que tem em si menina, moça e mulher.

Abraços,

Ana Ferreira