Prometheus!

“Um filme sobre o despertar de ideias.”

Por Bruno Albuquerque de Almeida!

Fazer ficção-científica na Hollywood de hoje é um negócio complicado. Além de ter que encarar os já clássicos clichês e estereótipos, os roteiristas e diretores também devem tomar cuidado para não, simplesmente, fazer um filme ação com inúmeras explosões, mortes banalizadas e um final feliz onde o mocinho se impõe ao vilão. Felizmente, Prometheus passa longe disso, além de ser cheio de referências a filmes clássicos do mesmo gênero.

Mostrando estar inspiradíssimo, o já cultuado diretor Ridley Scott começa suas referências logo na primeira tomada do filme, ao enquadrar um determinado planeta de uma maneira extremamente parecida com a qual Stanley Kubrick faz em 2001 – Uma Odisseia no Espaço, também em sua tomada inicial. Note, também, que um dos trajes espaciais expostos nos corredores da Prometheus se assemelha muito com um dos trajes do filme de Kubrick. E na cena em que David anda sozinho pela nave ao som de música clássica, Scott também cria uma rima com 2001. Além de citar o filme de ficção-científica mais influente de todos os tempos, Scott faz referências a um de seus próprios filmes: perceba como as duas tomadas da cena em que a tripulação acorda, após uma hibernação induzida, se assemelham bastante com as utilizadas em Alien – O 8º Passageiro, na cena em que o bebê Alien se revela na mesa do café da manhã.

Após chegarem ao seu destino, guiados pela questões universais (De onde viemos? Por que?), o que mostra que nenhum dos personagens jamais leu ou viu O Guia do Mochileiro das Galáxias, a equipe da nave Prometheus logo inicia sua investigações. Ao entrarem na base dos Engenheiros, a direção de arte do filme é de cair o queixo. O cuidado de Ridley Scott em se aproximar da realidade o levou a construir todos os cenários, que foram detalhados com esmero. E destaco a enorme cabeça localizada no centro do “depósito principal” da base: além de ser bela, mostra que os Engenheiros possuíam uma religião, e que aquilo provavelmente representava seu deus. E perceba como ela se parece extremamente com eles – “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Gênesis 1:26″.

Ou seja: teriam os engenheiros passado a sua religião a nós também? Bem, essa é uma das muitas perguntas que Prometheus não responde, e que muitos veem como um problema do filme, mas que acredito ser uma maneira de despertar ideias no público, para fazê-lo pensar. A partir daqui, revelarei momentos do filme, assim como informações cruciais, portanto, continue lendo apenas se você já viu o filme – ou se não se importa de levar spoilers na cara.

Respostas para Prometheus?

Como amante do cinema interpretativo (que coloca as informações na mesa mas que deixa o espectador tirar suas próprias conclusões, como A Origem, Ilha do Medo, entre outros), é claro que parei um tempo para pensar nas perguntas de Prometheus – e nas respostas que seriam plausíveis dentro daquele universo. Portanto, nos próximos parágrafos, enumerarei as perguntas e em seguida colocarei as respostas que encontrei e que achei que seriam satisfatórias.

1. – Como os nossos antepassados sabiam da existência do mapa? – Simples: os engenheiros vinham de tempos em tempos visitar suas criações, aqui na Terra. A prova disso são as semelhanças que encontrei entre a religião deles e o nosso cristianismo, além de que seria a melhor justificativa para o porquê de uma raça tão primitiva como a nossa saber da existência de planetas tão distantes. E não se esqueça: sacrifícios são características das civilizações americanas pré-colombianas. O que vemos um dos engenheiros fazendo na primeira cena do filme? Um sacrifício.

2. – Por que David infectou Holloway? – Note como ele, após entrar na base dos Engenheiros, começa a apertar todos os botões que vê. Ou seja, ele estava testando aquilo, vendo aonde iria chegar – e o que sustenta isso é quando ele abre um dos portões, que leva os exploradores para a câmara aonde existe a cabeça gigante, além dele roubar um dos muitos vasos que existiam lá. Logo em seguida, vemos ele abrindo o vaso, e checando o que encontrava dentro dele. E, após infectar o Holloway, note como Ridley Scott faz questão de mostrar David olhando para o infectado, procurando por reações. Portanto, David estava testando as reações humanas àquele líquido preto encontrado dentro dos vasos. Ele estava vendo aonde aquilo iria chegar.

3. – Por que a cabeça encontrada do Engenheiro explode? – Para entender isso, basta prestar atenção ao filme. Antes de colocar aquele aparelho dentro da cabeça do alienígena, a Dra. Elizabeth Shaw explica que aquilo vai reanimá-la. Ou seja: aconteceria com a cabeça o que teria acontecido se o Engenheiro não tivesse morrido. Então, se o Engenheiro já tivesse tomado aquele líquido preto, aconteceria aquilo. Mas como saber se ele tomou? Minha teoria não é muito concreta, mas note pelos hologramas que o Engenheiro morto tropeça, sem contar que ele estava atrasado em relação aos outros. Então, ele poderia ser o precipitado ou burro da equipe, e além de estar atrasado e ter tropeçado, ele poderia já ter tomado o líquido negro que o mataria. Portanto, é plausível que sua cabeça explodisse após ser reanimada.

4. – Por que os Engenheiros queriam nos destruir? – Talvez isso seja explicado numa provável continuação, mas tenho a teoria de que eles simplesmente viram que… deu M@#%!. Sendo verdadeira a teoria que, de tempos em tempos, eles vêm para a Terra para passar seus conhecimentos (principalmente religiosos), eles podem ter vindo para cá novamente (2000 mil anos atrás, como o filme mesmo explica) e visto que o ser humano se tornou uma péssima espécie, e decidido destruí-la, já que somente fazia mal a si mesma e ao mundo (um breve estudo de história revela que, naquela época, o ser humano já se revelava extremamente egoísta). Então, alguma coisa deu errado, e quase todos os Engenheiros morreram. Provavelmente por conta daquele líquido preto.

[FIM DOS SPOILERS]

E por que tantas questões sem respostas são levantadas pelo filme?

Para essa pergunta, consigo encontrar duas respostas. Primeira: para despertar ideias no espectador, chamá-lo para dentro do filme e perguntá-lo o que ele acha que é tudo aquilo. Ou seja, fazer com que você crie sua própria interpretação sobre tudo o que está ocorrendo, e isso é muito bacana vindo de um blockbuster como Prometheus. E segunda: imagine que você está indo a um planeta distante, numa expedição para procurar vida extraterrestre. Ao chegar lá, você encontra uma base militar abandonada, apenas com materiais criados pelos alienígenas e os corpos deles. Você conseguiria obter respostas imediatamente?

Desculpe, mas acredito que não.

Sim, mas e a crítica ao filme?

Voltando a crítica tradicional, Prometheus peca bastante ao ser extremamente didata. Didatismo esse que, se retirado do filme, não faria a menor diferença – como na cena em que o geólogo do grupo explica que as esferas prateadas que emitem luzes vermelhas vão escanear o local. Bastava mostrar elas escaneando (veja o trailer do filme, fica CLARO que é isso que elas estavam fazendo) e o modelo holográfico se formando numa mesa dentro da nave Prometheus. Não havia a necessidade de explicar aquilo, assim como não havia a necessidade do personagem de Idris Elba explicar TUDO o que estava acontecendo ali para a personagem de Noomi Rapace, sendo que as cenas mostradas já nos faziam deduzir aquilo. Se o roteirista, Damon Lindelof (responsável por Lost), queria aproximar os dois personagens para justificar uma atitude heroica por parte de um deles logo depois, que fizesse isso sem ser didata. E o que falar sobre o biólogo que brinca (isso mesmo, BRINCA) com um animal extraterrestre completamente desconhecido, e visivelmente hostil? Outro problema que encontrei foi a Dra. Shaw ser praticamente indestrutível, não importa o que aconteça de ruim com ela, tornando sua personagem um tanto irreal. Todos esses furos são imperdoáveis no roteiro do filme.

Em compensação, Michael Fassbender está SENSACIONAL na pele do robô David, com um trabalho de voz e gestos que se mostram terem sido planejados previamente por ele. Noomi Rapace dá uma carga emocional pesadíssima a sua personagem, que grita, chora e até luta quando necessário. O resto dos personagens, por incrível que pareça, são apenas enfeites – e me admira muita gente dizendo que eles são estereótipos pesados, já que nem aprofundados pelo roteiro eles são.

As cenas de ação são maravilhosamente filmadas, com poucos cortes e um total entendimento do que está acontecendo em tela. O terror do filme também é ótimo: confesso que fiquei extremamente tenso em duas cenas – [SPOILER] a em que o geólogo e o biólogo são atacados, a do aborto e a morte de Holloway [FIM DO SPOILER], todas cruas e extramente pesadas. Existe uma reviravolta interessante pouco antes do clímax do filme, o que faz o espectador ficar mais ansioso para o que vai acontecer ali.

Portanto, não se iluda com críticas negativas – nem com as positivas – para Prometheus. Vá ao cinema, assista ao filme (pois todo filme nos ensina alguma coisa, mesmo que seja pelo mal exemplo) e defina sua opinião sobre. E tente responder as questões levantadas a sua maneira, claro.

Nota: 8,5

Ps: no Facebook, avisei que a nota do filme seria 8,0. Mas ao terminar de escrever a crítica, não vi motivos para dar uma nota tão “mediana” a um filme tão bom.

Anúncios

Sobre Bruno Albuquerque

Crítico de cinema há 4 anos. Para os haters, o "metido a dono da razão".

4 pensamentos sobre “Prometheus!

  1. Confesso que os comentários negativos ou não tão animados ( todo o marketing de Prometheus me fez esperar um segundo Vingadores, confesso ) acabaram por me desanimar. Mas você conseguiu defender seu ponto e me motivar a assisti-lo novamente – talvez até mesmo rever Alien e 2001 para perceber as referências, uma coisa sempre bacana ao assistir longas que “citam” outros longas. Só uma dúvida acerca dos atores: Charlize Theron não marca presença? Eu nem lembro ao certo qual é sua personagem no filme, mas as últimas produções que vi com ela, a atriz sempre foi destaque e alvo de admiração.

    A propósito, ótimo texto!

    Abraços,

    Victor

  2. Obrigado, primeiramente!
    Não, a Charlize Theron é ofuscada pelo talento da Noomi Rapace e do Michael Fassbender.

    Re-assista a esses clássicos MESMO. Sempre é bom nos manter ligados em coisas boas! haha

    Bruno. 😀

    • Huum, entendi. Então provavelmente também não foi o melhor dos seus trabalhos :/

      Verdade! Aproveitando o gancho do filme para enriquecer toda a experiência 🙂

      Abraços,

      Victor

  3. Esse filme me fez pensar muito. Várias teorias eu acabei criando na cabeça para preencher os pontos “subjetivos” do roteiro.se tiver um tempo, visite meu blog. Fiz um post sobre minhas teorias sobre o filme. E que venha Prometheus 2.
    Realmente o que vc disse eu concordo plenamente. muitos perguntas sem respostas surgiram.e sim…a ideia foi trazer para dentro do filme o espectador…faze-lo indagar, questionar e pensar.

    drunkwookieblog.wordpress.com/2012/07/04/prometheus/

Escreva seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s