Resenha: O livro das coisas perdidas

David é um menino de 12 anos com várias manias e fantasias. Os livros, seus grandes amigos, tornam-se seu único refúgio quando, após meses de sofrimento, sua mãe morre de câncer. O tempo passa e David não consegue superar sua perda. O pai se casa com uma nova mulher, com quem logo tem outro filho e o menino está sempre contra a formação dessa nova família, sentindo falta da presença materna e de como as coisas eram antes da doença. Certas vezes, ele tem alguns ataques e alucinações que fazem seu pai e sua madrasta se preocuparem bastante. David sente que algo está estranho, que ele recebe visitas de alguém que não é de seu mundo. Após uma briga horrível com sua madrasta, ele é levado por sua curiosidade até um misterioso buraco debaixo do muro do jardim, através do qual ele encontra um portal para uma terra encantada com diversos contos de fada. Ou contos ao menos levemente parecidos com os que conhece.

Capa de uma edição americana

O mundo no qual ele se encontra tem vários aspectos das histórias que tanto gosta, mas possuem um toque mais macabro e sombrio. Meninas se deitam com lobos e procriam uma nova raça, reis são ameaçados por animais ferozes, anões matam princesas, caçadoras decepam crianças e por aí vai. São as histórias que ele conhece cheias da macabra realidade de seu mundo e da crueldade dos seres humanos. No meio de todo esse terror, ele encontra fiéis e bondosos aliados que o ajudam em sua jornada até o castelo do rei, provavelmente o único naquele terra com conhecimento suficiente para enviá-lo de volta para casa, pois o portal pelo qual veio já não é mais acessível. Enfrentando seus piores pesadelos e encontrando um curioso homem torto que lhe promete tudo que deseja em troca de, aparentemente, bem pouco, ele viajará por essa dimensão onde o felizes para sempre está envolto de sombras negras e sangue.

David não pôde reprimir um sorriso de prazer, apesar dos lobos que se aproximavam , da presença dos sinistros trolls e dos gritos das harpias. Ele se lembrara do enigma e da solução. Era como o Lenhador havia dito: alguém estava tentando criar uma história e David era parte dela, mas a própria história era composta por outras histórias. David lera sobre trolls e harpias, e muitas das histórias antigas tinham figuras de lenhadores. E até mesmo animais que falavam, como os lobos, apareciam nelas. – Página 133

O livro tem uma narração muito bem escrita e uma descrição impecável. John Connolly consegue tornar as histórias que tão bem conhecemos macabras e arrepiantes, criando um mundo onde os seres, em sua maior parte, são cruéis, sádicos e egoístas. Eu imaginei que os contos tivessem esse tom mais sombrio, mas não esperava encontrar o que acabei lendo. Os contos chegam ao ponto de serem cobertos de mortes, torturas e crueldade. Não que este seja o foco do livro, a história é sobre a jornada de David por esse mundo e a relação dessa aventura com sua vida normal, mas, pelos vários contos que passamos, encontramos uma releitura com essa atmosfera mais pesada. O romance possui bastante esse caráter de aventuras que formam a grande viagem do protagonista. Ele passa por diversos contos que são os episódios de sua jornada até o castelo. O problema de tecer uma história com episódios é perder a linha do romance e se manter em aventuras individuais que se conectam brevemente. Acontece que John Connolly conduziu isso bem – não digo otimamente, poderia ser um pouco melhor -, ainda mesmo com seu escorregão na parte da Branca de Neve. Com a história tendo esse aspecto sombrio e mórbido que eu descrevi, os capítulos que recontam a famosa fábula da princesa de cabelos negros como ébano foge um pouco do padrão. Eles são cômicos, me fizeram rir descontroladamente. E quando terminam, voltamos à atmosfera pesada. Isso foi bem estranho pra mim em termos de continuidade, por mais que tenha valido a pena.

De pé à sua frente estava a maior e mais gorda dama que já vira. O rosto empapado de maquiagem. O cabelo era preto, puxado para trás e amarrado com uma faixa de algodão coloridíssima, e os lábios estavam pintados de roxo. Usava um vestido rosa tão grande que conseguiria abrigar um pequeno circo. O Irmão Número Um se encontrava achatado nas pregas daquele  vestido, para melhor ouvir os estranhos ruídos que emitia o barrigão que havia por baixo dele. Os pezinhos do anão quase tocavam o chão. O vestido estava enfeitado com tal quantidade de fitas e botões que David não entendia como a dama conseguia se lembrar de quais eram os que serviam para tirar o vestido e quais serviam apenas de enfeite. Os pés da mulher estavam esmagados dentro de um par de chinelos de seda, pelo menos, três números abaixo do seu, e os anéis quase se perdiam em meio a tanta carne.

– Página 148

Mais um ponto interessante é o desenvolvimento do personagem. David muda conforme avança em sua jornada. Isso mostra o crescimento do personagem que está passando por muita coisa em tão pouco tempo, ainda mais com sua idade pouco avançada. A conexão disso com sua realidade em Londres é fantástica, esse paralelo que o autor fez merece muitos pontos.

Por trás das muralhas havia estábulos, mas estavam vazios de feno e não tinham vestígio algum daquele sadio odor animal que esses lugares costumam ter. Em vez disso, somente os ossos dos cavalos abandonados à fome, depois da morte de seus donos, e um fedor persistente que deixava adivinhar um lento apodrecimento. Do outro lado dos estábulos, a cada lado da torre central, havia o que poderiam  ter sido os alojamentos e cozinhas dos guardas. Cuidadosamente, David olhou pela janela de cada um desses alojamentos, mas estavam totalmente desprovidos de vida. No edifício dos guardas havia beliches e nas cozinhas, fogões vazios e frios. Sobre as mesas, pratos e canecas, como se uma refeição houvesse sido interrompida e os que estavam comendo nunca mais houvessem retornado aos seus alimentos.

– Pág 268

Capa de outra versão americana

Em resumo, O livro das coisas perdidas é um ótimo romance que tem muito a oferecer. Se você gosta de contos de fada e principalmente de suas versões “reais” ( as quais dizem terem sido contadas na época que os autores as registraram ), que tem esse clima mais violento e assutador, com certeza vai curtir o livro. Me lembrou um pouco Círculo Negro e eu recomendaria para esse tipo de leitor que curte fantasia com toque de realidade, mas aviso para essa parte mais macabra. Foi realmente algo que não esperava e que me pegou de surpresa, por mais que esteja em seu contexto. Uma produção que também me lembrei muito durante a leitura foi O Labirinto do Fauno. O livro tem bem essa pegada de realidade/fantasia imersos num suspense/terror com desafios fantásticos para o personagem principal. Perturbador, encantador e emocionante, O livro das coisas perdidas conta sobre a passagem para a vida adulta e os temores e felicidades da infância que nos acompanham para sempre.

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Sobre Victor

Gosto de cheiro de livros novos e de biblioteca com livros velhos, de livros ( dessa vez das letras mesmo ), de chocolate, de escrever, de ficar no computador, de dias frios com céu bonito, de ir ao cinema, passear no shopping com os amigos e de viajar. Ensino inglês e um dia ainda quero publicar alguma coisa. Bolsa Amarela, Harry Potter e a pedra filosofal , Entrevista com o vampiro e Crônicas de uma namorada são meus livros favoritos. Perdi a conta de quantas vezes vi "A Múmia". Quanto às séries que gosto, sempre mudo. Elas têm suas temporadas e eu tenho as minhas.

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