Os sem amor

Semana inteira trabalhando. Estresse não falta. Tem no trabalho, em casa, até na rua. O tempo mesmo que é pouco. Nunca suficiente. Mas o fim de semana é meu. Os outros dias eu não gastei muito comigo. A gente sempre tenta dar um jeito de fazer tudo ser nosso, de aproveitar o dia tendo tempo pra gente, espaço pra gente. Mas às vezes é tão pouco que nem conta. Ou nem se sente. Cinema marcado com os colegas e uma saída cultural com os pais à noite. Um dia cheio. Mas eu que enchi. Entro na condução com ares diferentes. A mesma mochila, uma disposição contente, direção oposta e sorriso de quem não vai dar nada a ninguém. É tudo seu agora. Eis que o passageiro ao lado é exaltado e interativo. Uma senhora de sessenta e poucos que mora sozinha e tem problemas com bancos. “Perguntei onde estava aquele gerente de merda e logo me atenderam. Tem que ser grossa esses dias. Mando logo tomar naquele lugar”. Com ela não se brinca, observo.

Escuto a conversa, troco poucas palavras por minha carteira estar cheia. “Sim, tenho costume de guardar notas ficais”. “Uso cartão de débito, acho cartão prático”. Papo vai, papo vem e meu ponto chega. “Vai saltar no shopping? Fazer o que?”. “Dar um rodada com os amigos, comer um lanche, ver um filme…”. “Hum, quer saber? Vou contigo. Cansei de ficar em casa e preciso mesmo comprar uma bolsa. Essa merda que comprei aqui já rasgou a alça. Não foge não que vou contigo”. Chego com uma das minhas maiores caras de constrangimento perto dos meus amigos com uma idosa ao meu lado que nem sei o nome. Acabou que viu o filme conosco e me arrastou para escolher uma bolsa. “Essa vai durar, parece ser de mais qualidade que aquela vagabunda de vinte reais.” Ao deixá-la no ponto e voltar para meus amigos, para ter meu tempo da semana, explico melhor: “Encontrei no caminho e ela grudou em mim. Não tem família nem ninguém. O irmão é, como bem disse, um filho da puta que roubou 15 mil de sua conta. Fiquei com pena.”

O acontecimento ficou na minha cabeça. Achava graça, claro, e ainda toda a vergonha da situação. Levei uma senhora que nem sabia o nome para passear comigo, são as reações que se esperam. Mas fiquei triste também. Fiquei triste por essas pessoas que vivem a vida sem amor, amargas, sozinhas, sem propósito. Como é passar a semana onde o tempo não é seu e, ao chegar no final, não ter com aproveitar? E, pior, quando o tempo é todo seu, não doa a outros, e não se tem o que fazer? Eu não sei o que faria se todos os minutos, todas as horas de minha vida eu nunca tivesse algo com o que me contentar ou algo a aguardar. Como é passar cada dia sem amar os que estão ao seu redor. Sem sorrir ao sair na rua, sem esperar por aquele programa que você marcou ou aquela tarde que você reservou para passar de pijama com um livro? Aquele frio na barriga de conhecer pessoas e lugares novos. A sensação de constrangimento e medo ao passar por situações complicadas? Aquele riso sincero e descontrolado que só é arrancado por alguém engraçado que provavelmente provocou o mesmo em outras pessoas, todas com você, se divertindo? Sinto pena de quem não tem nada disso.

São coitadas aquelas pessoas que comem um prato sem tempero e se dão por satisfeitas por estarem alimentadas. Porque não é o “estar alimentado” que importa. É o sabor de cada garfada. Viver por viver é sobreviver. É fazer o mínimo necessário para não morrer fisicamente, pois por dentro você já está padecendo. Não vê o valor dos sentimentos mais raros ou o brilho dos acontecimentos mais primorosos. Viver é amar. É aproveitar aquelas 24 horas que você tem com gosto, mesmo sabendo que vem muito trabalho pela frente logo amanhã. É gastar 2 horas produzindo algo com esforço e sorrir para o resultado, sabendo que está vivendo, criando, formulando, construindo, consertando e se divertindo com tudo isso. Você não precisa depender de algo ou alguém para viver, mas sim para sobreviver.

Quem vive, ama. Quem sobrevive, haveria de amar. E é em toda essa diferença que temos o sobre, o prefixo do vazio no coração dos sem amor.

Victor

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Sobre Victor

Gosto de cheiro de livros novos e de biblioteca com livros velhos, de livros ( dessa vez das letras mesmo ), de chocolate, de escrever, de ficar no computador, de dias frios com céu bonito, de ir ao cinema, passear no shopping com os amigos e de viajar. Ensino inglês e um dia ainda quero publicar alguma coisa. Bolsa Amarela, Harry Potter e a pedra filosofal , Entrevista com o vampiro e Crônicas de uma namorada são meus livros favoritos. Perdi a conta de quantas vezes vi "A Múmia". Quanto às séries que gosto, sempre mudo. Elas têm suas temporadas e eu tenho as minhas.

2 pensamentos sobre “Os sem amor

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