Resenha: O Caderno de Maya

Esse livro eu conheci quando estava fazendo mais uma das minhas costumeiras rondas pela livraria e ouvi alguém dizer “Ainda bem que chegou, tem um monte de gente procurando”. Curiosa, ativei meu lado Sherlock Holmes e fui ver. Dei de cara com “O Caderno de Maya” da Isabel Allende, livro que eu nem tinha ouvido falar. O nome da autora não era totalmente desconhecido, provavelmente recebido de memória genética de algum antepassado (-n), mas não fazia nenhuma diferença para mim.

Não sei por que, cismei com o livro e decidi que ia ler. Acabei ganhando no Natal e agora, ao terminar “Os Anos de Fartura”, foi a vez dele me chamar atenção na prateleira e falar “é a minha vez”.

Eu não sabia nada sobre a história e nem o que esperar, mas não precisei nem de 10 páginas para ter certeza de que eu ia gostar. Isabel Allende é uma escritora habilidosa e sabe criar uma narrativa com sabor e cheia de temperos.

O ponto de partida é: Maya, uma garota de 19 anos, com cabelos pintados de várias cores e botas rosas que encontrou no Exército da Salvação, é mandada pela avó de personalidade forte para uma ilha no cu do mundo, mais conhecido como Chiloé, no Chile. Nós logo percebemos que há algo do qual ela está fugindo (até o FBI está atrás dela!) e alguma relação daquilo com o seu passado, mas precisamos passar por todas a 400 páginas para conhecer a história da personagem e descobrir as respostas.

A história não tem um pecado em si, é uma trama muito inteligente, que parece ter sido montada com capricho. Mas, com certeza, não vai agradar a todos. Primeiro, porque ela tem muitas variações (em uma hora estamos conhecendo a história dos avós dela, outra hora a vida de um adolescente rebelde acabando com o próprio corpo, vamos parar no meio de histórias de ditadura – olha a distopia me seguindo até aqui – e ainda conhecemos muito sobre a vida na ilhazinha) e grande parte da atenção é prendida no interesse que o leitor tem por essas histórias. Eu adorei a narração, que dava vontade de voltar a ler, mas isso vai de gosto.

Outro motivo que pode fazer alguém desanimar é as mudanças. Às vezes estamos no passado, às vezes no presente. Não é uma corte ruim como em alguns, mas a mudança de ambientes pode desanimar.

E, para terminar, um ponto da resolução da história que ficou um pouco fraco. Depois de uma história tão puxada para a realidade, a gente pode esperar um pouco mais. Não que seja ruim, só definiu a comparação entre ela, a Nora Roberts e o Sidney Sheldon que eu já tinha começado a formular. A maior diferença é que a escrita da Isabel é mais viva, com mais tons de história, se é que dá para entender.

No geral, eu gostei bastante. Eu percebi que lia os diálogos com vozes diferentes no pensamento, a ponto de diferenciar a voz da Maya quando criança ou no presente. Os personagens vão sendo montados com várias nuances e características diferentes, além de cada um chamar atenção ao seu modo.

Às vezes a autora conta bastante da cultura local, que pode ser interessante. É divertido ver sobre as crenças e as formas de se organizar. Aliás, foi o segundo livro que pareceu lidar com uma fonte parecida com a que JK usou para criar a mitologia de Harry Potter (o primeiro foi Brumas de Avalon).

Também gostei da forma como a autora mistura várias questões sérias à narrativa. E, uma vez ou outra, joga um elementro surpresa que cai de paraquedas na história e dá um ânimo novo.

Ela cria uma trama, escolhe cuidadosamente onde vai colocar os pontos principais para nos instigar e, no final, cobre tudo com várias camadas (história do lugar, características dos personagens, modo de narração…) para dar vida à história. O único problema nisso é que pode haver camadas demais e dificultar a leitura dos que não se interessam.

Se você busca romances, pura diversão e outras coisas simples comum em YA, não indico (até porque o livro não recebe essa classificação). Mas para quem gosta de uma história com pegadas de Nora Roberts e Sidney Sheldon, com vários momentos diferentes e adora conhecer culturas, fica muito mais fácil gostar.

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4 pensamentos sobre “Resenha: O Caderno de Maya

  1. A autora sempre me chamou a atenção, mas nunca a ponto de me chamar para ler um de seus livros. Parece ser bem interessante não só esta como outras obras dela. Entrou na lista dos escritores a serem lidos, provavelmente atrás de Carlos Ruiz Zafón. Vários pontos me interessaram no livro, mas creio que principalmente o elemento cultural da desconhecida ilha que você mencionou. Parece ser ótimo.

    Beijos,

    Victor

  2. Parece um bom livro e vou procurar-lo. Não li o post ate o final pois fiquei com medo de conter spoiler mas li o suficiente para me deixar curiosa.

  3. Gosto muito de Isabel Allende e depois de ler ” A casa dos Espíritops” achei que me fascinaria por Maya Vidal e suas aventuras e descobertas,a capa já me chamou bastante atenção,confesso que comprei o loivro há 3 meses e acabo dse terminar, nunca havia demorado tanto para ler um livro,a narrativa é cansativa e degradante,não me arrependo de ter comprado porque ler é minha maior paixão porém é muito decepcionante. Não me apeguei em nenhum sentido a Mayal Vidal e sua estória , achei tudo muito desconjuntado e fabuloso ( apesar de saber que Isabel tem essa veia fantasiosa ) certamente para mim o ponto forte do livro foi conhecer Chiloé. Mas eu não recomendaria.

  4. Livro fantastico de Isabel Allende.Surpreendeu-me,porque nas suas historias,encontramos sempre mulheres de carater forte e desta vez encontramos uma personagem mimada,sem garra,que se deixa arrastar,pelo seu circulo de amigos,caindo no precipicio da droga e de outros delitos.Isabel Allende,baseou-se em factos reais,que muito a terao afetado.Os 3 filhos do marido, do seu segundo casamento envolveram-se no mundo da droga,tendo a filha do meio,morrido de overdose.Que provocou a queda de Maya? O abandono da mae? Um pai ausente? A morte do unico ser que amava verdadeiramente e que lhe queria incondicionalmente? Nao e facil penetrar nos pensamentos de um jovem…,sobretudo quando ele se fecha na sua concha.A avo envia-a em jeito de libertacao,para a Ilhota de Cliloe, no Chile,pais amado e defendido pela autora. Ai na ilhota Maya escreve o seu Caderno e conta o que lhe vai na alma,assim como os erros que cometeu. E um livro escrito na 1 pessoa,em que obviamente se fazem encaixes,escritos pela propria Maya.Como sejam as vivencias na ilha.Livro que apos a sua leitura,ficou na minha mente a recordar-me o flagelo social que neste momento afeta um sem numero de familias.Recomendo-o vivamente!
    Um outro,que e o meu preferido da mesma autora e o livro “Paula”,quem o ler vai encontrar um verdadeiro Poema de amor de uma mae para com a sua filha.Li-o sem conseguir parar.Boas leituras!

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