Resenha: A Resposta

Se você pensava que donas de casa brancas da década de 60 não faziam nada além de fofocar e se preocupar com a aparência, está muito enganado. O livro A Resposta traz à tona a relação desse grupo de mulheres com as empregadas domésticas negras no estado do Mississipi, em 1960. Sob a ótica de três ótimas personagens, entendemos mais de como era a vida das pessoas de ambos os lados dessa sociedade. Kathryn Stockett escreve com maestria e nos apresenta personagens cativantes e verdadeiros que tornam a leitura de A Resposta uma aventura fascinante.

Edição de luxo da versão americana de “A Resposta”

Skeeter* é um jovem que acabou de se graduar na faculdade de jornalismo. Sua mãe deseja que ela arrume um namorado e se case, pois é isso que as mulheres fazem na sua idade – inclusive, várias de suas colegas largaram a faculdade para esse fim. Mas Eugenia tem uma mente aberta e sonha com mil coisas menos tornar-se uma dona de casa, como são suas amigas do clube do bridge ( jogo de cartas ) e da Liga Regional de Jackson. Após ter seu pedido para trabalhar numa editora de Nova Iorque rejeitado, Skeeter mantém contato com a editora-chefe, a Sra. Stein, que propõe à jovem que ela escreva sobre um assunto polêmico para ser analisado por ela própria.

*Skeeter em inglês significa mosquito. É o apelido dado a jovem por seu irmão mais velho. Isso porque ela sempre foi magra e de pernas bem longas, o que, segundo ele, parecia um mosquito. O apelido pegou e todos da cidade a chamam assim, com a exceção de sua mãe.

Capa americana de uma das edições de “A Resposta”

Aibileen é uma empregada doméstica que já trabalha há anos cuidando de bebês. Ela gosta de cuidar das crianças até que elas cheguem à idade que começam a discriminá-la como suas mães, achando que a pessoas negras são diferentes por sua cor. Sua atual família são os Leefolt, que tem uma bebê chamada Mae Mobley. Aibileen ama Mae Mobley e tenta cobrir a tristeza e raiva que a menina sente com a negligência e impaciência que a mãe a passa diariamente a ela.

Minny é uma empregada sem papas na língua, que fala o que pensa e por isso perde vários empregos. Só não para de ser contratada, pois cozinha muito bem. Ela é a melhor amiga de Aibileen, tem vários filhos e um marido que volta ou meia chega em casa bêbado e a bate. Ela trabalhava para a Sra. Walters, mãe da dona Hilly, que era meio surda e senil, por isso não ouvia os resmungos e xingamentos de sua empregada. Acontece que a Sra. Walters é enviada para um asilo por Hilly e esta quer que Minny trabalhe com ela. Entretanto, para isso acontecer uma amiga de Minny teria de ser demitida ( a empregada que trabalha com Hilly ), mas a determinada cozinheira não concorda com os termos e recusa a oferta. Forma-se entre as duas uma rixa envolvendo um grande segredo que só sabemos mais para o final do livro.

Skeeter decide, após se encontrar com Aibileen para dicas sobre limpeza, – a fim de ajudá-la na coluna, sobre esse assunto, que escreve para o jornal local – escrever a respeito do ponto de vista das empregadas negras. Ela precisaria de algumas mulheres que contassem suas histórias, as quais fariam parte de um livro a ser avaliado pela Sra. Stein. O projeto é muito arriscado, pois mexe com os limites que ninguém ousa passar – ou não sai ileso quando ultrapassa – porém, Aibileen percebe que algo precisa ser feito quanto àquela situação. Minny se junta ao projeto depois e vemos como essas personagens se relacionam, a respeito ou não do livro, num estado racista e discriminatório.

Capa da primeira edição brasileira de "A Resposta"

Capa da primeira edição brasileira de “A Resposta”

A Resposta é extremamente cativante e emocionante. Kathryn Stockett nos apresenta várias personagens de personalidades distintas e interessantíssimas que movem o enredo com suas relações. Apesar do livro que está sendo produzido ter um grande papel na história, achei que o foco da autora cai sobre como as personagens femininas se retratam, sobre como é ser uma mulher naquela época, naquele estado segregacionista e preconceituoso, isso tanto do lado das brancas como das negras. Esse aspecto de dar um ponto de vista mais feminino me lembrou muito As Brumas de Avalon, que foca demais na ótica das mulheres. A escrita da autora é proporcionalmente boa às suas personagens. Ela muda o tom e o modo da pessoa se expressar quando outra personagem passa a narrar. Cada 2 ou 3 capítulos seguidos são narrados ou por Skeeter ou por Minny ou por Aibileen. O interessante desse artifício utilizado é que podemos ver reuniões, lugares e principalmente personagens por três ângulos diferentes – inclusive as próprias protagonistas descrevem umas às outras, já que se encontram com alguma frequência. Essa possibilidade de explorar vários pontos de vista foi muito interessante e adiciona demais ao romance. As três me conquistaram verdadeiramente, mas sinto que Minny me encantou mais por sua relação com Celia Foote, sua nova patroa após a Sra. Walters. As duas aprendem muito uma com a outra, mostrando que as mulheres têm sempre um lado muito forte, mas, em contrapartida, fraquezas que as fazem contraditórias. Kathryn trabalha com vários blocos a cada capítulo, criando um novo a cada cena – mesmo que esta seja um telefonema ou uma conversa. Sua escrita é inteligente e muito gostosa, o que faz nossos olhos correrem pelas linhas.

A Resposta tem recebido ótimas críticas e ganhou recentemente uma adaptação que concorreu ao Oscar. O romance tem muito a oferecer para quem se interessou pela história. Os espectadores que já assistiram ao filme podem aguardar ainda por muitas outras surpresas caso peguem no livro – o meu caso, pois já sabia muito do que iria acontecer, mas não deixei de vibrar com cada cena. Recomendo muitíssimo esse livro. Mergulhem nesse romance divertido, emocionante e ousado.

O filme

Você pode ler a resenha que escrevi sobre o filme na época do Oscar. A adaptação é bem fiel ao livro. Ela consegue capturar a essência da obra, aspeto que vivo repetindo, é o mais importante quando falamos de adaptações. A atmosfera da produção é divertida e ao mesmo tempo chocante e emocionante. Os leitores vibram tanto com os capítulos quanto os espectadores com as cenas. O poder deles cativarem o público com sua atmosfera sem igual é o que faz de ambos um sucesso e os torna semelhantes. O título do filme (Histórias Cruzadas), na minha opinião, caiu muito melhor para nomear a história do que A Resposta. O título original (The Help) também ficou ótimo, mas não tem no português o mesmo valor do que no inglês – o trocadilho de ajuda com auxiliares.

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Sobre Victor

Gosto de cheiro de livros novos e de biblioteca com livros velhos, de livros ( dessa vez das letras mesmo ), de chocolate, de escrever, de ficar no computador, de dias frios com céu bonito, de ir ao cinema, passear no shopping com os amigos e de viajar. Ensino inglês e um dia ainda quero publicar alguma coisa. Bolsa Amarela, Harry Potter e a pedra filosofal , Entrevista com o vampiro e Crônicas de uma namorada são meus livros favoritos. Perdi a conta de quantas vezes vi "A Múmia". Quanto às séries que gosto, sempre mudo. Elas têm suas temporadas e eu tenho as minhas.

3 pensamentos sobre “Resenha: A Resposta

    • É ótimo mesmo, Andressa, você não faz ideia. Eu acho que qualquer ordem vai agradar, mas, se você prefere o livro primeiro, é só passar na livraria mais próxima e aproveitar ahaha

      Beijos,

      Victor

  1. Quando vi a capa, imaginei q fosse apenas um livro de fofocas e intrigas entre empregadas e donas de casa. Graças á sua resenha maravilhosa, pude ver que é bem mais que isso; já marquei o livro como desejado no skoob e pretendo lê-lo o quanto antes! 😀

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