Resenha: Pequena Abelha

Na época que foi lançado, a sinopse do livro era divulgada como um segredo a ser guardado a sete chaves. Juntando essa curiosidade que o marketing criou e palavras como “perturbadora”, “excitante” e “impressionante” em trechos publicados por importantes jornais e revistas estrangeiros, a obra chamou a atenção de muitas pessoas por aqui, apesar de , mais tarde, não ganhar uma repercussão tão grande como livros que tratam da mesma temática ou com o mesmo tom ( vide A Menina que Roubava Livros ou O Caçador de Pipas ). Senti-me atraído pelo livro de imediato, mas, como não pude lê-lo na época de seu lançamento, fui acompanhando o burburinho que se criou envolta dele quando este chegou às livrarias até que isso cessasse e ele não acabou sendo lembrado como esperava que fosse. Estranhei bastante esse fato, mas ainda estava interessado pela leitura. E na primeira oportunidade que tive, peguei emprestado e comecei a ler. Agora, cá estamos.

Antes de tudo, concordo com o que vem dizendo sobre a sinopse que nada revelava da história ter sido um exagero. Mas, de qualquer forma, também acho que combina com o livro o mistério do que aconteceu com as duas mulheres ter sido preservado – veja bem, seria não contar muito, não simplesmente não contar. O autor faz bastante suspense quanto a isso no romance, por tanto, seria incoerente a sinopse revelar mais do que o autor vai nos revelando em doses homeopáticas. O fato do “grande” segredo do livro ter decepcionado tanta gente foi culpa do autor. Ele que faz muito mistério com o ocorrido e quando esperamos nos deparar com algo extraordinário, lemos exatamente algo que já estávamos esperando ou algo que simplesmente não condiz com aquelas partes todas em que os personagens hesitavam muito em falar do ocorrido. O problema de Pequena Abelha é seu ritmo, o modo como a narrativa se desenrola.

Chá tem o mesmo gosto da minha terra: é amargo e quente, forte e carregado de lembranças. Tem gosto de saudade. Tem o gosto da distância entre onde você está e de onde você veio. E também desaparece – o gosto desaparece na língua enquanto os lábios ainda estão quentes da xícara. […] Ouvi dizer que em seu país se toma mais chá do que em qualquer outro. Imagino como isso deve deixar vocês tristes – iguais a crianças que anseiam pelas mães ausentes. Sinto muito. – Página 136

Vou seguir o que todos estão fazendo e não revelar nada da história, podem ficar tranquilos. O livro é narrado pelas duas mulheres descritas na sinopse: Pequena Abelha e Sarah. A primeira é uma menina nigeriana que teve um contato com Sarah há dois anos e a reencontra logo no início do livro. Já Sarah é uma jornalista britânica que tem um filho chamado Charlie, um menino de 4 anos que vive vestido com a roupa do Batman. De vários capítulos bem longos, o livro é narrado ora por Sarah ora por Abelinha*. Enquanto Sarah é uma personagem sofrida e extremamente seca, Pequena Abelha é uma jovem ingênua e hesitante, que tenta ver as coisas belas da vida ao seu redor. Tem momentos de extrema tristeza e dureza, mas em boa parte ela mostra ter traços de Pollyanna ( lembra a menininha super positiva do clássico americano? ). Não preciso nem dizer que gostei mais dos capítulos narrados por Abelinha, não é? Sua narrativa é interessante, comovente e instigante. Acredito que os adjetivos usados nas resenhas e notas dos jornais e revistas que se encontram na capa e na contra-capa do livro se refiram, em sua maioria, às partes de Abelinha, uma vez que quase todos capítulos com Sarah são alguns dos pontos fracos do livro.

*Em inglês, seu nome é Little Bee, que tanto pode ser traduzido para o português como Pequena Abelha ou Abelinha. A tradução alterna entre os dois nomes.

Imaginem como seria cansativo para mim contar minha história para as garotas da minha terra. Essa é a verdadeira razão por que ninguém conta nada para nós, africanos. Não é porque desejem* manter meu continente na ignorância. É porque ninguém tem tempo de sentar e nos explicar o Primeiro Mundo desde os princípios básicos. Ou talvez vocês tivessem vontade de fazer isso, só que não conseguem. Sua cultura tornou-se sofisticada, como os computadores, ou como os remédios que vocês tomam para dor de cabeça. Vocês sabem usá-los mas não sabem explicar como funcionam. Muito menos para moças que empilham lenha ao lado da parede de casa. – Página 135

*O livro trás porque desejem, apesar de a forma correta ser porque desejam

 

A história de Pequena Abelha é sim comovente e até mesmo chocante. A escrita de Chris Cleave também é muito boa. Porém, os maiores problemas do livro se encontram em alguns personagens e, sobre tudo, no enredo. Quando um romance é narrado em primeira pessoa, o leitor precisa ser convencido e atraído pelo personagem que conta a história. Abelinha nos comove. Ela dialoga com o leitor enquanto conta sobre o que aconteceu com ela e de seu encontro com Sarah. Entretanto, a jornalista britânica já é uma personagem bem mais fraca e sem brilho. Vemos que ela está confusa e ela permanece uma personagem perdida, o que torna algumas de suas partes, as piores do livro. Sobre o enredo, acho que Chris Cleave se precipitou na forma de desenrolar a história. O livro começa a partir de um momento que só pode ser explicado por acontecimentos passados – e muitos deles. Ao invés de utilizar flashbacks ou momentos específicos para narrar os ocorridos, a cada capítulo temos um pouco do passado e a linha principal da história – o encontro, no presente, de Sarah e Pequena Abelha. Ficamos curiosos com o que está acontecendo e com o que está para acontecer, mas o autor sempre contorna o que mais queremos saber. Se no capítulo anterior um acontecimento do presente despertou a atenção do leitor, no seguinte temos uma narrativa do passado para enfim retornar a linha principal da história. Isso cansa o leitor, pois os capítulos são bem longos e o clímax de diversos momentos acaba sempre sendo cortado. Uma pena o autor ter escolhido não muito bem a forma de desenvolver sua história…

Acredito que possamos encontrar livros muito mais belos que tratem dessa temática ou histórias comoventes que saibam aproveitar sua proposta. Margô, do blog Chocolivros, que me emprestou o livro, já citou outro romance que desenvolve um assunto parecido e também emociona o leitor: A Vida Secreta das AbelhasNão trata sobre a África, mas, pelo o que ouvi, já faz o que Pequena Abelha não conseguiu, infelizmente, alcançar.

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Sobre Victor

Gosto de cheiro de livros novos e de biblioteca com livros velhos, de livros ( dessa vez das letras mesmo ), de chocolate, de escrever, de ficar no computador, de dias frios com céu bonito, de ir ao cinema, passear no shopping com os amigos e de viajar. Ensino inglês e um dia ainda quero publicar alguma coisa. Bolsa Amarela, Harry Potter e a pedra filosofal , Entrevista com o vampiro e Crônicas de uma namorada são meus livros favoritos. Perdi a conta de quantas vezes vi "A Múmia". Quanto às séries que gosto, sempre mudo. Elas têm suas temporadas e eu tenho as minhas.

Um pensamento sobre “Resenha: Pequena Abelha

  1. eu lembro que o livro foi bastante comentado mesmo no lançamento, mas não cheguei a procurar muitas informações sobre ele ^^’ gostei bastante da resenha, eh uma pena o livro não ter alcançado as expectativas =[


    hangover at 16

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