Resenha: Marina

Óscar é um jovem de 15 anos que estuda em um internato de Barcelona. Ele adora escapar para a cidade a fim de passear por suas curiosas ruas e observar casarões sombrios e abandonados. Nunca vai além dessa observação até o dia que encontra um gato de expressão selvagem matando um pássaro no portão de uma dessas construções. Assustado e intrigado, ele adentra a propriedade e acaba sendo encantado pela melodia de um disco que toca numa vitrola e um belo relógio de bolso. Alguém aparece e tenta abordá-lo, mas ele acaba escapando devido ao medo e voltando para seu quarto no internato, sem perceber que carregava consigo o tal objeto. Atormentado por estar com a peça valiosa, ele decide retornar ao casarão para devolvê-lo. E, fazendo isso, acaba conhecendo a família que mora por lá.

Uma menina usando um vestido branco descia a encosta pedalando na minha direção. Uma longa cabeleira cor de feno ondeava escondendo o rosto. […] Meu olhar subiu por aquele vestido que parecia ter saído de um quadro de Sorolla e foi parar num par de olhos de um cinza tão profundo que alguém poderia cair lá dentro. Estavam cravados em mim com olhar sarcástico.                                   – Página 17

Marina é uma jovem que tem mais ou menos a sua idade. Ela mora com o pai desde sempre e não vai para a escola, sendo instruída por ele. Com suas respostas sagazes e olhares enigmáticos, ela logo encanta Óscar. Germán, seu pai,  é um homem já idoso muito sábio e simpático. Ele ama sua filha acima de tudo e se simpatiza bastante com Óscar, convidando-o a comparecer quando desejar. E assim o garoto passa a frequentar o tal casarão, criando quase um segundo mundo durante suas escapadas do internato. Ele e Marina ficam cada vez mais amigos e certo dia partem para explorar a cidade. A jovem mostra a Óscar um sombrio cemitério. Lá, eles observam uma senhora com roupas negras e véu visitando um túmulo com um símbolo de uma borboleta negra na lápide. Curiosos, a seguem pelas ruas de Barcelona e acabam se envolvendo num curioso e macabro mistério.

Alguém acabava de entrar. O vulto parecia ser uma dama coberta por uma capa de veludo preto. Um capuz escondia o rosto. As mãos, cruzadas no peito, mergulhadas em luvas da mesma cor da capa, que ia té o chão e não permitia que se vissem os pés. De onde estávamos, parecia que aquela figura sem rosto se deslocava sem tocar o solo. Por alguma razão, senti um calafrio.                                            – Página 26

Carlos Ruiz Záfon tem uma prosa espetacular. Logo em suas primeiras páginas o livro já impressiona por sua descrição e narração sem iguais. Ele utiliza comparações muito interessantes e bem boladas a toda hora, dando sempre um toque especial ao cenário que está criando. As sombrias construções de Barcelona tornam-se expressivas e ajudam a criar esse ambiente escuro e mórbido – este mais para frente – que o autor vai construindo. Inicialmente, temos Óscar rodando pela cidade, principalmente por construções abandonadas. Até quando ele encontra uma família que mora nesses terrenos supostamente desertos. A partir daí, o livro conta sobre o envolvimento do jovem com Gérman e Marina, dois personagens inteligentes e impressionantes. Essa parte do livro desenvolve os personagens de uma forma interessante e muito prazerosa de se ler.

Já mais para a metade, o foco cai sob o mistério que se deu início na primeira parte da história, quando vistam o cemitério. Encontramos ainda alguns capítulos que tratam do foco da primeira parte – o envolvimento dos personagens – mas desse ponto em diante, a história ganha uma morbidez ainda maior que em alguns trechos do começo, tornando-se até mesmo macabra. Nos deparamos com diversas histórias ocorridas no passado, de pessoas que hoje se encontram já com a idade avançada e que escondem muitos segredos. Essas histórias são narradas por pessoas que Marina e Óscar encontram com a intenção de solucionar todo esse mistério que adentram cada vez mais profundamente.  Devo dizer que em certo ponto essa parte me incomodou por ser grotesca de mais, em certos momentos. Não achei que combinou com o que o autor descreve no início e no começo, por mais que tudo faça bastante sentido. O leitor que gostou da primeira parte e se interessa por esse tipo de livro provavelmente vai se encontrar na mesma situação que a minha. De qualquer forma, para o final, voltamos ao clima mais ameno da primeira parte, onde vemos integralmente as relações dos personagens. A conclusão do livro é daquelas que deixa você refletindo sobre a história inteira e se perguntando várias coisas. Você vira a última página querendo comentar a história com alguém que também já leu.

Marina vale a pena pela prosa magnífica de Záfon, com seus personagens maravilhosamente criados e sua descrição impecável. Um ponto também interessante é que o livro consegue prender o leitor do início ao fim, mesmo durante a parte macabra – talvez até mais, por conta da atmosfera tensa e dos segredos ainda não revelados. Recomendo para todos que apreciam um bom texto, mistérios do passado e amizades atemporais. Sutil, cativante, sombrio e macabro, Marina é um livro que não abandona o leitor assim que terminado.

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Sobre Victor

Gosto de cheiro de livros novos e de biblioteca com livros velhos, de livros ( dessa vez das letras mesmo ), de chocolate, de escrever, de ficar no computador, de dias frios com céu bonito, de ir ao cinema, passear no shopping com os amigos e de viajar. Ensino inglês e um dia ainda quero publicar alguma coisa. Bolsa Amarela, Harry Potter e a pedra filosofal , Entrevista com o vampiro e Crônicas de uma namorada são meus livros favoritos. Perdi a conta de quantas vezes vi "A Múmia". Quanto às séries que gosto, sempre mudo. Elas têm suas temporadas e eu tenho as minhas.

4 pensamentos sobre “Resenha: Marina

  1. Já li bastantes resenhas sobre Marina, mas não decidi ainda se eu quero ler. Não cheguei a conclusão se é um livro que irei gostar, mas acho que no final darei uma chance. Nunca li nenhum livro de Záfon.

    • O grande ponto do livro é a escrita de Záfon. Só li esse livro dele, mas já me falaram que seus dois outros romance publicados por aqui são bem melhores. Talvez seja melhor você procurar por um deles ( Ou “A Sombra do Vento” ou “O Jogo do Anjo” ). É possível que a a narrativa te interesse mais e você pode ainda experimentar da escrita do autor. Apesar de pontos muito fortes, “Marina” não é o tipo de livro pra todo mundo. Tem certas coisas que incomodam e que nem todo mundo levaria tranquilamente.

      Boas leituras!

      Beijos,
      Victor

    • 😀 Obrigado ^^ Ela me pegou muito de surpresa. Quem me emprestou o livro até avisou que tinha esse aspecto. Mas não o imaginei até ele começar a aparecer no romance. O que estava recomendando para outras pessoas que disseram a mesma coisa que você – e que, em breve, eu também devo fazer – é ler outro livro do autor. Seus outros romances não tem dessa parte macabra e ainda contém sua maravilhosa escrita – ponto alto de Marina.

      Boas Leituras!

      Beijos,

      Victor

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