Carpe diem, diletantismo, ser ou não ser?

Tem gente que diz ser difícil atribuir características a si mesmo, aquela tal história de definir-se é limitar-se. Discordo. Se fosse para descrever minha personalidade em poucas palavras, não deixaria de atribuir a condição de cética em que me encontro. Não acredito em destino, não acredito em milagres, não acredito em ressureição ou reencarnação, mas leio nas revistinhas de fofoca a descrição do meu signo regente. É um caso complicado…

Não sei se por uma ironia, ou por aquele simples gosto que o ser humano tem de encontrar explicações que o resumam em sua semelhança.  Não acredito em prever o futuro de acordo com o zodíaco, mas não posso deixar de pensar que, ou por costume ou por coincidência mesmo, sou a libriana indecisa e com forte tendência às artes que os astrólogos previram. E em meio a uma dessas leituras descontraídas, entre descrições de personalidades múltiplas que me alcançavam, deparo-me com um vocábulo desconhecido. Entre os defeitos do signo, diletante.  Curiosa como sou, fui logo buscar pelo significado e encontrei as seguintes explicações. De acordo com o Dicionário Online de Português, “s.m. e s.f. Amador de belas-artes, especialmente de música. /P. ext. O que se ocupa de qualquer assunto por gosto, e não por obrigação.”  E para confirmar, diletantismo, segundo o Michaelis,  1 Caráter ou qualidade de diletante. 2 Sociol Filosofia de vida que coloca, como condição prévia à ação, o prazer e o capricho pessoal.”

Seria propriamente um defeito ser diletante, apegar-se a alguma atividade pelo simples prazer que ela proporciona? Não é, afinal, um privilégio de poucos trabalhar naquilo que gostam? Será que o diletantismo resume-se ao artista? Não defendo opiniões utópicas e inalcançáveis.  É a estabilidade dos pés no chão, a gravidade do mundo que é, por muitas vezes, cruel, que nos impede de cair. Viver de arte é difícil, indubitavelmente. Quadros com incríveis noções de luminosidade e mulheres belíssimas não alimentam a fome do povo, livros com histórias arrebatadoras não preenchem currículo, uma sinfonia composta pelas notas do coração não paga contas de luz, água… Mas o ser humano precisa tentar!

Em algum instante da vida, é necessário arriscar. Apostar nessa paixão advinda do prazer que já criou as mais belas obras possíveis. Largar um pouco o certo pelo incerto, o conforto pela novidade, curtir o dia como se fosse o último, mergulhar no carpe diem.  Afundar-se em música, em letras, em pinturas e partituras para ter certeza de que o diletantismo não valeu a pena. Ninguém é obrigado a escolher entre o ser ou não ser. Às vezes a gente pode ser mais ou menos, pode não ser perdido em uma outra dimensão, ser um outro alguém, não ser razão nem coração.

O capricho pessoal não é pecado, não é preguiça, não é egocentrismo.  É puramente o contato consigo mesmo, o reencontro da vocação ou do simples prazer.  Aquele momento em que a gente para e reflete sobre a vida. Como estou com os meus planos? Quais são os meus sonhos? Quem sou eu para as pessoas que amo? Quem sou eu para mim mesmo? Onde quero chegar? Até qual ponto vai a minha determinação? Eu evoluí nos últimos anos? Sou e estou feliz?  O carpe diem não precisa durar o dia todo, até porque a realidade sempre nos atinge em algum momento, e o futuro não espera, mas pode ser aqueles sublimes minutos nos quais você se deita sobre sua cama e ouve música bem alto, quando as notas agressivas ou suaves, leves como uma brisa ou fortes como uma ventania, vão de encontro ao seu coração.

Um dos personagens de Carlos Ruiz Zafón, em Marina, em dado momento da obra, profere as seguintes palavras: “Poderia pintar por mil anos e não mudaria um milímetro da barbárie, da ignorância e da bestialidade dos homens. A beleza é um sopro contra o vento da realidade […]. Minha arte não tem sentido.”  E concluo esse texto, mais uma vez, discordando. Pois se o meu próprio ceticismo se rende a crenças populares, por que não seriam os diletantes capazes de trazer mais belezas ao mundo das barbaridades? Pense um pouco…

Ana Ferreira

Anúncios

Um pensamento sobre “Carpe diem, diletantismo, ser ou não ser?

  1. Acho que os blogueiros literários que fazem um bom trabalho ( ok, visto o cansaço e falta de tempo, sacrifício rs ) são todos uns diletantes. Não é pelos agrados tanto dos parceiros quanto dos leitores somente, é pelo prazer da leitura e da produção de um texto, pelo sentimento de trabalhar naquilo e sentir gostinho de algo bem feito. Não é bem uma arte, mas creio que se encaixaria na sua definição.
    Ótima crônica, Ana, como sempre. Não importa o quanto não tenhamos tempo. É preciso se dar alguns minutos para praticar o que ama e, mesmo que não diretamente, nada lhe acrescenta. A verdade é que muito tem a acrescentar. E o mais gostoso de tudo é que não percebe-se o quanto faz bem. Mesmo que faça, e muito – nos torna mais completos, ousaria dizer.

    Beijos,
    Victor

Escreva seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s