Deixe estar…

Caminhava pela casa com passos leves, uma velocidade impregnada de leviandade, um brilho nos olhos e um jeito todo leve, fluido de falar. Gesticulava com as mãos para cima e a cada vez que piscava, parecia estar emergindo de um sonho colorido, com as pálpebras relaxadas e traços de sorrisos nos lábios. Ó, doce felicidade que a atingia e a embalsamava naquela tarde comum de novembro.

“Como você está?”. “Estou feliz”. E já basta, de alguma forma… Certa vez, enquantoo folheava um livro espírita, descobri uma teoria muito pertinente de que felicidade é um estado de espírito. Puramente temporário, feito dos momentos mais planos e simples. Fiquei a me perguntar quanto tempo a tal demorava para agir sobre nós, quais eram os sintomas e se poderia nunca haver cura para o bem mais precioso da humanidade.

Um beijo apaixonado, um abraço entre amigos,  o nosso nome pronunciado pelos lábios daquela pessoa querida, música para os ouvidos. Uma viagem inesperada, sair sem rumo pela rua, ajudar um idoso a carregar peso, ensinar o irmão caçula sobre matérias que ele nunca realmente desejou aprender. Correr descalço pela chuva, fazer uma trilha e se perder em frente a uma cachoeira, passar no vestibular na última chamada, aceitar um pedido de casamento, tomar café da manhã com a família e ouvir as dicas sábias do avô de quase noventa anos. Comer todo um pacote de balas de iogurte, colocar muito óleo para fritar um hambúrguer e sair rindo da barbaridade culinária, o gosto proibido e a ardência de tomar a primeira dose de álcool, ir tomar sol na praia e só voltar à noite. Afinal, o que nos faz felizes?

Somos um conjunto de sonhos, de grandes expectativas e desejos.  As conquistas nos engrandecem, as metas nos dão vigor e os desejos aquecem o coração mas, afinal, é nas pequenas coisas que reconhecemos a nobreza do sentimento pleno de estar contente. Não é apenas sobre conquistar, porém como o conquistamos. Não é apenas sobre ter metas, porém sobre os sonhos que deram vida a elas. Não é sobre desejar, porém algo mais puro, atemporal e grandioso como sonhar.

Não somos felizes. Somos gordos, magros, altos, baixos, loiros, morenos, brancos e negros. Somos sonhadores, idealizadores de grandes planos, extrovertidos, descontraídos, tímidos e recatados, ambiciosos, narcisistas, egocêntricos, ingênuos e espertos, inteligentes, ignorantes… Somos produto da matéria, da circunstância e do momento. Um conjunto de qualidades e defeitos, tão particularmente humanos. Não temos a felicidade em nossa essência, mas podemos estar sempre acompanhados dela.

Disse algum escritor importante, certa vez, que não devemos correr atrás da felicidade, pois a mesma há de nos encontrar qualquer dia. Honestamente falando, se hoje trazia um enorme sorriso nos lábios e estava completamente feliz, digo com plena consciência de que a tal não veio buscar-me, mas foi buscada pela audácia de meus sonhos. Não é sobre ser, sobre desejar… É sobre aquele sublime momento de estar… E que nada mais importe.

Ana Ferreira

 

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