O brilho de crer

Boa noite aos leitores!

Trago-lhes hoje um texto já publicado em meu blog, o Na Parede do Quarto, com um caráter que oscila entre o conto e a crônica. Espero que gostem!

O brilho de crer

Habitava um mundo escuro, triste e arcano. Era um mundo real aquele. Um mundo sofrido e complicado no qual as pessoas escondiam-se dos olhares violentos e perdiam-se em meio aos becos sujos, talvez para sempre, dependendo da crença do morto. Ou quem sabe por um tempo menor, dependendo da disponibilidade de macas e profissionais para atendê-los no pronto socorro público.

Todos ali estavam à mercê da sorte, ou da falta dela, se preferir. Tinham desconfiança no olhar e eram calejados na defesa. Quando as forças da cidade subiam até ali atrás dos que contribuíam para o funcionamento do mercado negro, dos que, a puro sangue frio, propagavam a fama dos entorpecentes, os honestos não tinham vez. Escondiam-se e, muitas vezes, pagavam o preço pela escolha dos outros. Estas, a propósito, não eram muitas. Ou lutava-se bravamente para alcançar o degrau mais baixo, tão distante dos ricos e abastados, ou atacava-se para cair pelo abismo do tráfico, do crime. Os primeiros tentavam viver, os outros morriam cedo, quase sempre pela ação da vingança.

A moldura da janela de Carolina era triste. Eram tempos de briga, de guerras entre os grupos. Durante o dia, as crianças iam às escolas assustadas. Outras achavam tudo engraçado, diziam que fariam o mesmo quando grandes, sentiam adrenalina no sentimento de simplesmente matar. Não haviam aprendido a gravidade que acarretava o ato de tirar a vida de alguém a custo de nada, ou a custo de muito pouco.

As mães sofriam, tinham que ir trabalhar e deixar os filhos aos cuidados de sabe-se lá quem. Alguns não tinham mães. Algumas mães não tinham filhos, abandonavam-os ao destino, ao lado negro da força. Algumas filhas confundiam-se com mães, meninas de onze, doze anos carregando outras meninas em seus ventres. E não nos esqueçamos dos pais, escassos eram os tais dos pais. Bandidos, presos, traficantes, bêbados e alguns trabalhadores de dias inteiros que não eram capazes de cuidar dos vários filhos.

As casas eram pobres, cheias de falhas. Menores que alguns apartamentos tidos como pequenos para solteiros de classe média, e às vezes, abrigavam mais de cinco pessoas. Cinco vidas de opções poucas, de sonhos improváveis e de vontades que perdiam-se durante o trajeto. A cada aniversário, uma utopia ficava para trás na estrada esburacada. Era difícil alcançar o topo com que todos sonhamos quando jovens. Salvo raras exceções, pessoas realmente especiais e dotadas de determinação maior que o próprio mundo obscuro no qual tinham de viver.

Homens armados, drogas de todos os tipos escondidas sob o piso de madeira gasto e as forças da cidade que chegavam em carros. Nessas horas, era comum ouvir tiroteio. Todos, os que tinham sorte de estar em casa especialmente, abaixavam-se e rezavam a um deus que eles desconheciam por um futuro melhor, por uma solução ao problema que nunca se resolvia. Azarados os que estavam nas ruas, perto de onde o fogo queimava rápido, a bala consumia-se na madeira e no cimento pobre de um barraco qualquer.

Carolina tinha plena noção daquele mundo. Vivia dentro dele e tinha alguma esperança de que mudasse. Às vezes, quando as guerras acabavam e todos estavam tristes, desolados pelas inúmeras perdas, perguntavam-na como ainda era capaz de sorrir. Não de uma forma maldosa, mas tranquilizadora, como se algo melhor viesse, como se ela pudesse acreditar que viria, como se soubesse.

– O mundo é bom. – Ela lhes dizia, sorria.

Ficavam com dúvidas se a menina os caçoava, abrigados pela constante ignorância de quem vivia isolado dos benefícios de outros.

Ela sabia, sim, que havia algo melhor. Sabia pois à noite, quando as luzes apagavam-se e todos iam dormir sonhando com tudo que lhes ira inalcançável, ela abria sua janela e enxergava tudo, o seu mundo.

Era um lugar belo. As latas do lixo que transbordava viravam árvores enormes, cheias de frutos coloridos e flores transbordando pela relva verde. Os muros altos que separavam os becos tornavam-se muralhas e fortalezas brancas meramente decorativos de seu castelo cor-de-rosa, o seu reino encantado no qual todos sorriam, no qual ninguém estava preso, no qual ninguém era assassinado, no qual todas as mães tinham filhos e todos os filhos tinham mães, no qual as crianças brincavam e não precisavam cuidar de outras crianças, no qual o que mais se aproximava de vício eram os algodões deliciosamente doces das árvores localizadas às margens do rio cintilante.

Tudo ali era deslumbrante e nascia através de um simples gesto. Quando Carolina sentava-se à frente de sua janela, acendia uma antiga lanterninha e abria um livro, com um brilho todo especial nos olhos ao folhear suas páginas. Um brilho de esperança que só havia nas crianças e nos que entregavam-se aos encantos de ler, eternos sonhadores.

Ana Ferreira

 

 

 

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