Resenha: A Floresta de Mãos e Dentes

Apocalipse zumbi e YA são duas coisas que, logo de cara, você não imaginaria juntas. Mas, mesmo apesar dessa categoria jovem, devo dizer que essa combinação até que funcionou para A Floresta de Mãos e Dentes. A autora consegue, mesmo que com alguns problemas que incomodam um tanto – vou citá-los separadamente abaixo -, nos transportar para um mundo circundado por morte e sem esperança, onde tudo é mórbido e sombrio.

Olhando ao redor, percebo que saí numa pequena clareira distante da aldeia, protegida por um anel de cerca com o dobro da minha altura. Os Esconjurados estão começando a se juntar ao meu redor num enxame. Dois passos em qualquer direção e eles podem me alcançar pelos elos de metal. O sangue martela meu corpo, o pânico obscurece minha visão, minhas mãos tremem e latejam violentamente com o ritmo do meu coração.

– Página 39

A história é sobre Mary, uma jovem que vive numa aldeia temente à Deus e cega pela ignorância após a praga da infecção zumbi ter assolado o mundo. A aldeia é cercada por grades de metal que protegem seus habitantes dos Esconjurados – como a aldeia chama os zumbis – que vivem todos numa floresta densa e misteriosa que ninguém jamais ousou cruzar. Alguns contam histórias sobre o que há além daquelas árvores e, um desses “alguns” é a mãe de Mary, que passa todas as suas esperanças de um local intocado pela praga para sua filha. E, por isso, Mary é um jovem sonhadora, que vive contando histórias para todos sobre o oceano, que ela diz ser um lugar intocado por tudo aquilo que os apavora.

Essa sociedade pós-apocalíptica tem como “líderes” as Irmãs, que mexem com as cabeças de todos os aldeões, falando sobre Deus e como os que viviam antes do Retorno o irritaram. Elas comandam também os guardiões, uma espécie de guardas que vigiam as redondezas e cuidam para que nada saia do controle – além de garantir a ordem se algo sair dos trilhos. As pessoas não sonham, como Mary, e continuam a sobreviver, normalmente, como se nunca pudesse existir – ou ter existido – algo além daquilo que eles chamam de vida.

A mãe de Mary acaba de morrer, mas, por conta de sua idade, ela já deve escolher alguém para se amarrar. A amarração é como um casamento, na qual o homem deve buscar uma mulher e propôr a amarração, o que irá uni-los para o resto de suas vidas. Harry propõe à Mary, mas ela, na verdade, quer seu irmão, Travis, que já propôs à Cass, sua melhor amiga. Desolada por estar sem ninguém após recusar indiretamente a proposta de Harry – e este não ter corrido novamente atrás dela – e Travis não ter vindo buscá-la, ela é rejeitada pela única família que lhe restou, Jed, seu irmão, indo então para Irmandade, onde se entrega a Deus. Mas Mary não é religiosa e não quer seguir esse caminho. Ela está lá pois não tem escolha, não há mais para onde ir. Porém, a Irmã Tabitha, que comanda todas as outras, fará a curiosa jovem perceber que não há meio termo e Deus não é, para quem se abriga na Irmandade, uma segunda opção.

Chegamos agora num ponto que irei retornar melhor depois. Nessa parte inicial, a irmã Tabitha é como se fosse a vilã, que não deixa Mary seguir seus sonhos e amar quem não deve amar. Ela deveria ser uma figura imponente, sombria e severa, mas, como ocorre com outros personagens, a autora não descreve isso bem. Vemos todos esse elementos pelos diálogos, na descrição isso fica pouco desenvolvido, o que seria bem melhor para definir a presença da personagem.

Mary acaba por se apaixonar ainda mais por Travis, que machuca sua perna enquanto ela está dentro da Irmandade – e por isso eles se veem frequentemente, em segredo – e aceita – por não ter outra escolha – o pedido de Harry. Porém, antes que a cerimônia que unirá os casais daquela estação acontecer, a cerca é violada e aquele mundo todo desmorona. Zumbis saem por todo o lado, contaminando as pessoas e as fazendo recuar. Até esse ponto do livro, a história estava bem morna. É dessa parte em diante que a leitura realmente começa a valer a pena. Mary, Harry, Travis, Cass, Jed e sua mulher, Beth, conseguem escapar para um portão entre as cercas da floresta de mãos e dentes que segue por um caminho estreito por onde vários Esconjurados os acompanham – por trás da proteção de metal. Para escapar de sua aldeia, que agora está um verdadeiro caos, rodeada pelo terror verdadeiro, sem a proteção das cercas, eles devem seguir por esse caminho, seguir em frente para chegar – se chegarem – a um lugar onde não conhecem, pois nada além daquilo fez parte, desde que nasceram, do mundo de cada um deles.

Carrie Ryan peca em vários pontos que, se bem tratados, fariam o livro bem melhor do que é. Em primeiro lugar, Mary não é uma protagonista tão boa. A personagem que narra o livro nos dá a ideia de ser forte, corajosa, independente e sonhadora – talvez até egoísta por conta disso. Mas Mary é boa e calma demais para tudo aquilo. Tem momentos que nos impressionamos com suas atitudes, mas outras – a maior parte – não vemos o que ela deveria ter, realmente, para guiar aquela história e para fazer parte daquela aventura.

Em segundo lugar, fica a questão dos gêneros. A autora alterna entre suspense, terror, drama e romance de uma forma que deixa a desejar. Algumas vezes funciona, como diz o comentário da contra capa de Cassandra Clare ( autora de Cidade dos Ossos ), ela “transita sem esforço entre o horror e a beleza”, o que rende cenas bem bacanas, mas bem às vezes. Esse “sem esforço” foi um pouco forçado. Não dá pra estar numa cena romântica e pular para uma outra de terror onde o pânico reina. Fica complicado. E confuso.

Subitamente, tudo em que consigo pensar são as coisas que não sei a respeito dele. Todas as coisas que nunca tive tempo de aprender. Não sei se ele sente cócegas nos pés ou se seus dedões são compridos. Não sei que pesadelos ele tinha quando criança. Não sei quais estrelas são as suas favoritas, que formas ele vê nas nuvens. Não sei do que ele tem medo de verdade ou quais são as suas lembranças prediletas.

– Página 264

Por falar em confusão, e ainda retornando à questão da protagonista, esse resumão todo que fiz sobre a sociedade da aldeia de Mary é explicado de forma bem confusa – e separada! Ela nunca fala o essencial nem tudo de uma vez só. Fica dando um pedaço de informação de cada vez, o que nunca é suficiente para compreendermos a situação como um todo. Como exemplo, temos essa questão da amarração. Quando ela conta, pela primeira vez, como Harry a aborda, ela só revela que é apaixonada por Travis, seu irmão. Em cada um dos capítulos seguintes, ela vai falando, separadamente, de como funciona essa coisa de amarração – sendo que só explica como é, realmente, a tal da cerimônia quando esta está para acontecer. Mas, oras, se ela sabia que teria poucas escolhas caso recusasse a proposta de Harry – e que Travis já havia proposto à Cass – porque ela nem ao menos pensou nisso na hora? Ou logo depois? Não dá pra entender.

Assim como a irmã Tabitha, os personagens não são bem retratados. Temos uma ideia melhor deles pelos diálogos, pois a descrição dos mesmos deixa a desejar. Isso incomoda, pois você só praticamente conhece Mary – e nem tanto assim.

Apesar de todos esse pontos negativos, A Floresta de Mãos e Dentes é um bom livro, com momentos muito bons, outros bem mornos, e que, acima de tudo, retrata os zumbis de uma forma bem interessante. As cenas de ação nas quais eles aparecem são muito legais e bem empolgantes. Com a exceção de alguns, eles são bem lentos e, sem carne, eles ficam fracos e desmontam. Basta uma mordida ou um arranhão profundo para que contaminem uma pessoa e esta, dentro de horas, possa se transformar. O livro deixa um ótimo gancho para o próximo volume ( The Dead-Tossed Waves, ainda sem tradução para o português e previsão para chegar ao Brasil ), que estou com bastante vontade de ler.

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Sobre Victor

Gosto de cheiro de livros novos e de biblioteca com livros velhos, de livros ( dessa vez das letras mesmo ), de chocolate, de escrever, de ficar no computador, de dias frios com céu bonito, de ir ao cinema, passear no shopping com os amigos e de viajar. Ensino inglês e um dia ainda quero publicar alguma coisa. Bolsa Amarela, Harry Potter e a pedra filosofal , Entrevista com o vampiro e Crônicas de uma namorada são meus livros favoritos. Perdi a conta de quantas vezes vi "A Múmia". Quanto às séries que gosto, sempre mudo. Elas têm suas temporadas e eu tenho as minhas.

3 pensamentos sobre “Resenha: A Floresta de Mãos e Dentes

  1. Acabei de ler esse livro hj de 3 horas da manhã e concordo com td que vc falou…Na realidade não é bem meu estilo de livro,mas mesmo assim eu gostei muito…E quero ler a continuação com certeza…

    • Essas séries nos deixam sempre ansiosos com a promessa do próximo volume rs Espero que chegue logo ao Brasil para podermos saciar nossa curiosidade. Mas já adianto uma coisa que percebi pelas sinopses seguintes: ao que entendi, os próximos livros focam em gerações diferentes, gerações posteriores a de Mary. A mudança de protagonista pode tornar a história mais fluente. Não fui com a cara da principal do primeiro volume…

      • o que entendi da sinopse dos demais livros, é que o 2 fala sobre a Gabrielle “a veloz” e o terceiro é sobre outra personagem que vive entre a floresta e o oceano, tem um spin-off da historia da irmã Tabitha tbm.

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