Devaneios atemporais

Fiz aniversário num dia desses, indiferente, e relembrei com ternura dos tempos de alguns anos atrás, não tão remotos quanto parecem, quando contava o período transocrrido até a data. Eram noventa, duzentos e até, que bobagem, trezentos dias para uma novo ano do momento que refrescava-me a alma.

Quando se é criança, cada hora é uma doce celebração e, paralelamente, ninguém realmente se importa com horas. São instantes de inocência, de liberdade, de compromisso com o descompromisso. A que horários vamos brincar na gangorra? Em que período do dia nos jogaremos na lama e riremos de nossas faces rechonchudas respingando marrom? Sorriam, pimpolhos, e brinquem nas gangorras por toda a vida, joguem-se na lama às quatro, às cinco e, por que não, à meia-noite?

Chegada a juventude, pergunto-me se haverá tempo para tanto viço… O primeiro show com os amigos, os beijos cheios de desejo e gosto de descoberta nos lábios, o anarquismo às políticas maternas, voltar de casa durante a madrugada… A inconstância de corações ferozes que têm pressa de adulto e sonho de eternidade infantil.

Quando adultos, a vida cronometrada é o pêndulo que oscila de um lado ao outro com ansiedade em busca da plenitude. Às 6h acordar e tomar banho; às 7h pegar o carro na garagem e ir trabalhar; ao meio-dia sair (atrasado) do trabalho para almoçar no restaurante da esquina; às 14h tomar o expresso da máquina no lado oposto do escritório; às 17h ligar para os filhos e perguntar se estão bem; às 20h voltar para casa, exausto, e checar a agenda para a vida horária do dia seguinte.

O tempo é implacável para os que vivem a velhice. Angústias de toda uma caminhada refletidas no medo de um passo em falso, de cada palpitada do coração… Um saudosismo dos tempos de infância, juventude e maturidade jovem, todos inconscientes das futuras preocupações, dos curtos espaços necessários para destruírem em ruínas aqueles que há tantos anos resistem às ações daquele que cura, daquele que corre com ferocidade…

Pego-me repentinamente desimportando-me com o ano que adquiro, distanciando-me das celebrações e das contagens exaustivas, abdicando dos sagrados minutos de espera, vivendo o eterno enquanto ele dura.

Quem sois vós, séculos, anos, meses, semanas, dias, horas – acima de tudo, horas -, diante dos “Cinco Minutos” de atraso que deram à Carlota de José de Alencar a chance de encontrar seu amado? Quem sois vós diante de um segundo de cumplicidade entre inimigos de anos? Quem sois vós durante aquela breve troca de olhares, num metrô lotado às 19h, que irradiava uma velha e ardente paixão? E quem és tu, então, ó tempo, diante da eternidade de ter sido feliz por um longo  segundo compartilhado, afetado pela atemporalidade do majestoso senhor das eras, teu mais sincero amor.

Ana Ferreira

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