Uma muralha qualquer

Hoje, enquanto caminhava pelos corredores de uma loja que me remetiam às brincadeiras de minha doce e travessa infância, encontrei-me, ao encarar uma boneca de estilo “Barbie”, com os pensamentos a vagarem longe daquele lugar, de minha cidade, de meus país tropical. Bastou-me ter fitado aquela boneca, de muitas outras, mas especialmente aquela que me vi a refletir sobre o povo da China, da nação populosa, especificadamente, pensava nas mulheres chinesas e em quanta força deveriam ter para perecer às tantas dificuldades que enfrentam.
Não pergunte-se, prezado leitor, o porquê de tal ideia, uma vez que bonecas que seguem o padrão da queridinha americana, sonho de consumos de meninas ao redor do mundo, não apresentam quaisquer aspectos chineses: não têm os cabelos negros sem brilho e com a franjinha clássica, na verdade, são louras como trigo; não possuem a famosa curva nos olhos e aquela profundidade que me faz saber diferenciar chineses de japoneses (por mais incrível que lhes pareça, a um bom observador não se é impossível), têm mesmo os olhos de uma tonalidade azul que desperta certa cobiça nas pequenas moreninhas deste Brasil; altas, magras e fadas da beleza para as crianças que mal deveriam ter que se preocupar com estereótipos em seu nível de candura imaculada. E então, por que penso nas chinesas? Não é assim tão difícil. Basta virar a caixa da boneca, de todas e verá que minha dispersão não viaja tão longe espontaneamente. As bonecas com cara de americanas, “modeletes” e perfeitas no conceito estético nasceram na China, nas mãos de alguma mulher forte que trabalhava enquanto pensava em sua casa, em como estariam suas filhas, em qual presente poderia lhes dar no próximo Natal com o salário escasso e um pouco atrasado que vem recebendo. Meying, a chamemos assim, possui um nome simbólico,  que remete a uma linda flor. Meying também tem um nome popular, pois entre os dois bilhões de habitantes que vivem em seu território, há uma notável parcela de outras lindas flores. Seu rosto é comum, nem belo nem feio, tem o semblante cansado embora jovem seja. É viúva, perdeu o marido em um acidente de fábrica. Teve duas filhas com ele, uma vez que o governo chinês não quer que suas flores floresçam mais de duas vezes, seu país já é demasiadamente populoso e teme que os números tendam a aumentar em um grau de magnificência incontrolável. A vida continua.
Meying conta com o auxílio financeiro de seu governo devido à morte acidental de seu marido, embora escasso seja, e deve trabalhar  todos os dias ao longo de doze horas por seu salário não tão satisfatório recebido em xelins. Ela não reclama. Acorda cedo todos os dias e leva as filhas para a escola. Enfrenta multidões no transporte coletivo até chegar na fábrica em que passará o resto de seus dias. Acomoda-se em um banquinho qualquer, com a coluna doendo dos anos que vem realizando seu ofício e começa a embalar as bonecas. Embala princesas para o baile, médicas, veterinárias, professoras, noivas, sereias, fadas, rainhas, grávidas, cozinheiras, balconistas, perfumistas… A fábrica tem sempre muitas novidades, tem que chamar a atenção de seus clientes, satisfazer as utopias das crianças rondadas pelo capitalismo. A chinesa as acha belíssimas, gostaria de ser como aquelas bonecas, de estar sempre com um sorriso na cara sem que mal algum lhe atinja, de viajar quilômetros e continuar cheirosa, com os cabelos brilhosos sem sequer usar cremes para hidratação. Gostaria de ser loura, ou quem sabe ruiva, ter os olhos azuis e verdes, as roupas deslumbrantes, gostaria mais ainda de ser tão cobiçada, ainda que pelos mais inocentes dos olhares. Meying não causa desejo aos homens. Há muito não ama, há muito não se diverte, há muito não tem companhia, não diz o que pensa, não faz o que quer, não infringe regras, não busca pelo conforto das lágrimas. A chinesa é discreta, é forte, escrava de seu trabalho e da indústria do capitalismo em um país que se diz socialista. É a verdadeira muralha da China, a que perece às maiores dores, a que atinge dimensões enormes, porém, não se é visível. A muralha que resiste aos bombardeios com vigor, sem deixar seus homens caírem. A muralha que, em seu coração, possui uma força e destreza inabaláveis que ali nasceram e ali se farão eternas.
Meying terá mais milhares de dias comuns, chegará mais tarde do trabalho porque haverá mais bonecas para serem embaladas, continuará pensando no presente de Natal de suas filhas, continuará ligando escondida para elas perguntando-lhes se chegaram em segurança da escola, pensará no marido à noite enquanto deita na cama e deixará que uma lágrima escorra sobre o seu travesseiro de pano barato, como se aquela lágrima pudesse dissipar todo o seu fardo e limpar toda a sujeira que a mulher continuará a ver quando acordar, no céu industrial da China.
Abraços,

Ana Ferreira

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Um pensamento sobre “Uma muralha qualquer

  1. muito legal o texto^^ mostrou exatamente como a china eh.. estou estudando esse assunto agora na aula de geografia, adorei o jeito como vc escreveu!


    hangover at 16

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