Resenha: O Matador

Máiquel acabou de perder uma aposta que mudará sua vida. Colocando fé no time de futebol que saiu perdedor, ele teve de pintar os cabelos de loiro. E nada será a mesma coisa para Máiquel a partir daquele momento. Nunca mais.

Patrícia Melo tem uma narrativa bastante curiosa. Ela vai mais fundo no que já mencionei aqui no blog que seria uma narrativa extremamente pessoal, narrando tudo através dos olhos do  protagonista ( o que ocorre em Sou Louco por Você ). Para você ter uma ideia, do início ao fim do livro não encontramos nenhum travessão. E não porque não há diálogos. Acontece que todos eles são narrados por Máiquel.

Eu estava de boca aberta, o dr. Carvalho com um motorzinho na mão. Se doer, você avisa. Já doía, mas era outra dor. […]

– Página 42

Isso permite que ele, logo após transmitir a fala ou o que entendeu dela, faça diversos comentários, naturais para quem acabou de ouvir uma coisa e está pensando nela. A narrativa de Patrícia Melo também tem fortes cenas de sexo, violência, além de palavrões e outros termos chulos a toda hora.

Nosso protagonista é um cara muitas vezes indeciso e quando pressionado por situações a tirar conclusões, rimos e pensamos muito com suas teorias e seus momentos filosóficos. É interessante ver como seus problemas se agravam e como momentos que ele passara no início tornan-se, primeiramente, não mais engraçados até virarem trágicos.

Máiquel é um homem que mora em uma comunidade, normal, que ninguém nota, sem estudos e que não tenta encontrar sentido em tudo. Sua vida muda quando ele mata um cara que falou mal do seu cabelo. Ele sentiu-se ofendido, marcou um duelo, pegou uma arma e, quando notou, já estava atirando. E seu antigo colega já estava morto. Ele acabou de matar pela primeira vez em toda sua vida. Sente-se culpado, perdido, mas, mesmo assim, as coisas não saem tão ruins.

   Suel, o cara que foi morto, aparentemente era uma espécie de estuprador e ladrão que perturbava a comunidade, mesmo que em pequena escala. E todos gostaram do ato de Máiquel, lhe respeitando e enviando-lhe presentes. Ganha até um porco, Gorba – o porco vira animal de estimação de Máiquel, ganhando casa, comida e até carinho -, que mais tarde rende o que para mim foi uma das melhores partes do livro. E Máiquel fica confuso, pois, apesar de matar ser errado, tudo está indo muito bem, nem a polícia se preocupa.

Então, Máiquel entra num esquema muito do perigoso. Conhece uns aristocratas que se incomodam com ladrõeszinhos e estupradores e, ouvindo que ele matara Suel, querem seus serviços para matar outros caras que vivem incomodando seus colegas burgueses. O que acontecera por impulso lhe dera uma profissão, pois daquele momento em diante, Máiquel vira um matador, cada vez mais perdendo escrúpulos quanto a quem matar.

Essa transição na personalidade e estilo de vida de Máiquel é muito bem feita pela autora. Ela consegue nos conduzir pelo mundo do protagonista, onde inicialmente havia moral, e nos leva até um cara que mata por dinheiro, e mesmo assim tem um vida, onde consegue dormir em paz, sem remorsos. Do engraçado ao trágico.

   Também é interessante apontar as paixões de Máiquel. Ele está sempre a procura por parceiras de cama, mas duas mexem especialmente com ele. A primeira é Cledir, que logo aparece no livro. Ela é uma vendedora e gosta muito dele, propondo, entretanto, logo um compromisso. A segunda é Érica, a ex-namorada do Suel, que inicialmente irrita o protagonista, pois se enfia na casa dele –  Suel a sustentava, então, como Máiquel o matou, ela decide que ele deve sustentá-la agora – e o perturba com mil perguntas. Mas com o tempo algo nasce entre os dois, uma atração forte que se mistura com um terno carinho. E o matador, com suas crises de personalidade por conta de seu trabalho, fica pra lá e pra cá, fazendo complicadas escolhas e levando bons tapas.

O livro é muito interessante, tem partes muito boas, realmente memoráveis e, ao chegar no final, quando você percebe essa transição que eu mencionei, você admira Patrícia Melo por sua narrativa bem construída. Originalmente lançado pela editora Companhia das Letras, o livro – assim como os outros da autora  – ganhou nova edição ano passado pela Rocco. O Matador tem uma continuação ( Mundo Perdido ), que não foi considerada tão boa, por isso vou esperar um pouco pra ler. Foi publicado em diversos países ( veja capas internacionais do livro ) e teve uma adaptação para o cinema ( com o nome de O Homem do Ano ) com roteiro da própria autora. Assista ao trailer abaixo:

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Sobre Victor

Gosto de cheiro de livros novos e de biblioteca com livros velhos, de livros ( dessa vez das letras mesmo ), de chocolate, de escrever, de ficar no computador, de dias frios com céu bonito, de ir ao cinema, passear no shopping com os amigos e de viajar. Ensino inglês e um dia ainda quero publicar alguma coisa. Bolsa Amarela, Harry Potter e a pedra filosofal , Entrevista com o vampiro e Crônicas de uma namorada são meus livros favoritos. Perdi a conta de quantas vezes vi "A Múmia". Quanto às séries que gosto, sempre mudo. Elas têm suas temporadas e eu tenho as minhas.

2 pensamentos sobre “Resenha: O Matador

  1. Tenho problemas sérios com isso de não separar as coisas…a leitura não flui. Gostei da sinopse e parece ser uma boa história, mas eu gosto da estrutura organizada…rs, vamos ver, de repente + p/ frente role…rs

    Andy_Mon Petit Poison

  2. Nossa, se eu fosse matar todo mundo que já me criticou um dia.. haha. Mas se, no caso, o cara realmente era ruim… Hm, falta não faria.
    Gostei bastante da sua resenha, e da temática da história. Digo, é bem diferente do de costume, parece ter bastante ação!

    xx carol

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