Resenha: Sangue Quente

Zumbis não são algo tão comum de se encontrar na literatura. E, mesmo quando os encontramos, na maior parte das vezes, a história é narrada pelos olhos da resistência da raça humana, que luta para sobreviver. Talvez seja por isso que Sangue Quente me saltou tanto os olhos. Não é só mais uma história de zumbis: é também narrada por um morto-vivo !  Não há mais nada interessante do que ficar por dentro da rotina – por mais que monótona – dos zumbis, descobrir como eles se interagem, como se expressam, se organizam, quando sentem fome e, principalmente, descobrir a resposta – ao menos do ponto de vista do autor  – para a pergunta que não param de fazer: Por que eles comem cérebros ?

E tudo isso do ponto de vista de R, um contaminado pela “praga”, que agora assola o mundo destruído. Ele é um zumbi como qualquer outro, não se lembra de seu nome, de sua vida anterior e passa os dias em sua típica monotonia. À medida que lemos sua discrição sobre a sociedade dos Mortos, uma frustração nos assola, pois, por mais que ele reflita muito, nunca consegue se expressar direito – os zumbis falam poucas palavras na mesma frase. E como ele reflete ! R sempre pensa sobre seus hábitos alimentares, sobre os humanos, sobre seus amigos zumbis e várias outras coisas. Ele aprecia música e outras tranqueiras que encontra em lugares abandonados pelos humanos. Em várias partes do livros o vemos escutando The Beatles ou Frank Sinatra. Ele é personagem cativante, provavelmente um dos primeiros zumbis que você vai poder dizer que adora. Os mortos moram todos num aeroporto na mesma monótona rotina. Mas tudo está para mudar.

A fome perturba os Mortos com uma sensação estranha e eles montam um grupo que ruma para a cidade, a fim de se alimentar, essa é a regra. E quando tem sorte, eles conseguem um cérebro para comer ! – e aí vai a resposta que você estava esperando: eles comem cérebros, pois podem ver as lembranças mais marcantes da pessoa que possuia a massa cinzenta. R tem sorte naquele dia, comendo o cérebro de Perry, namorado de Julie, uma menina que ele encontra encolida e com medo. R deseja protegê-la quando a vê, ao invés de querer devorá-la. O morto vivo a leva para o aeroporto, mantendo-a segura dos outros zumbis. Um vai ensinando coisas aos outros aos poucos, à medida que o medo de Julie passa e o afeto de R por esta aumenta. Mas, é possível um zumbi amar ? E, seria ainda possível um cadáver andante ser amado por uma humana ?

O autor, Isaac Marion, ainda reforça o conceito de “estar morto”, no livro, que não implica, necessariamente, que você esteja, literalmente, morto. Além disso, ele nos permeia com valores e vantagens que ser vivo nos traz, e o quanto nós todos não damos importância a eles.

Anúncios

Sobre Victor

Gosto de cheiro de livros novos e de biblioteca com livros velhos, de livros ( dessa vez das letras mesmo ), de chocolate, de escrever, de ficar no computador, de dias frios com céu bonito, de ir ao cinema, passear no shopping com os amigos e de viajar. Ensino inglês e um dia ainda quero publicar alguma coisa. Bolsa Amarela, Harry Potter e a pedra filosofal , Entrevista com o vampiro e Crônicas de uma namorada são meus livros favoritos. Perdi a conta de quantas vezes vi "A Múmia". Quanto às séries que gosto, sempre mudo. Elas têm suas temporadas e eu tenho as minhas.

5 pensamentos sobre “Resenha: Sangue Quente

  1. Realmente, é raro ver um livro que fale sobre zumbis, e se fala, é sempre o julgando pelo errado e que deve ser exterminado. Adorei saber que tem livros que contem a versão deles! *-*
    Eu ia falar que envolver zumbis com humanos já era pedir demais, mas no mundo da literatura tudo é possível, então estou ficando acostumada e nem adianta mais reclamar… UHSUISAHSOIUSA
    Você me deixou moorta de curiosidade pra ler esse livro, parece mesmo ser muito bom!

    xx carol

  2. Caramba, que interessante! Sempre via a capa do livro por aí mas confesso que não tinha idéia do que se tratava! Parece bem diferente! Eu confesso que não tenho o mínimo interesse em zumbis, mas esse aí parece aceitável. Apesar de achar difícil uma menina gostar de um zumbi depois dele matar e comer o cérebro do seu namorado! Mas nunca se sabe, né…. HSAUHSUAHS
    Natália Maia – viciadasemlivros.wordpress.com

  3. ATENÇÃO! CONTEM SPOILERS!
    cara, sinceramente, eu li o livro antes de ver qualquer recomendação, e digo que é decepcionante.o autor fez algo que adoro ver na literatura de ficção, mudar o ponto de vista, neste caso, para um zumbi, é genial. Até o meio do livro, a historia é interessante, mas a personalidade de R, aquele jovem sonhador, é triste de se ver. um zumbi seria alguém cuja mente fora desgastada por toda a brutalidade que viu, alguém obscuro, até mesmo sádico. o fato de ser inteligente(de verdade, faz comentários sobre a condição humana dignos de Freud) não incomoda, chega a agradar por dar um ar mais intectual a ele,mas agir como um adolescente apaixonado? isso não é digno de alguém que passou pelo que ele passou. o final foi o que mais me enraiveceu, contando logo, ele se cura graças “ao amor”. já não vimos isso antes, vamos ver, trilhões de vezes? para mim, seus pensamentos e a ideia do livro são excepcionais, mas deveria ter sido escrito como memórias ou em forma comentários, pois a historia em si deixa a desejar. acho que todos já nos cansamos de ver livros com essa necessidade de ter um final feliz.

    • TAMBÉM CONTÉM SPOILERS !!! – Entendo o que diz, uma vez que zumbis são seres mais violentos etc e tal. Porém, acho que, como comentei, a abordagem do autor é muito mais estar morto, parar de viver a vida. O zumbi seria muito mais uma metáfora ali do que o ser dos filmes de terror. E por mais que tenha uma conclusão “felizinha”, que em certos momentos não me agradou, o livro me ganhou por sua abordagem dos costumes dos zumbis. Achei muito interessante esse ponto de vista e, mesmo quando banidos, o grupo de mortos vivos nunca se tornou desinteressante para mim. E quanto ao amor, como ele não tem lembranças, considerei aquela experiência como sua primeira, entende ? Ele está amando pela primeira vez, sabe ? Por isso fica tão bobo. Imaginei que essa parte não agradasse aos fãs tão grandes de zumbis ou que prezam essa parte mais sangrenta – nada contra, acho que lobisomens, por exemplo, também devem sempre ser assim. Talvez goste mais deles do que dos mortos-vivos. Entendo seu ponto de vista e seus argumentos. Sinto que o livro nao le agradou tanto. Que livro de zumbi indicaria ?

      Abracos,

      Victor

Escreva seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s