A Passagem

É melhor você se preparar, porque, como Stephen King diz, “você se descobrirá prisioneiro, lendo noite adentro”. A Passagem é um livrinho de 815 páginas impressionante, pode ter certeza. Apesar de ser só o primeiro de uma trilogia, é do tipo que inicia e completa bem a própria história, mesmo que esteja ligado a outros. No momento, vou tentar abrir uma “janela” para vocês terem ideia do que estão perdendo.

Sinopse

Jonas Lear descobre um vírus que pode mudar o mundo: a pessoa infectada fica praticamente imune às doenças. Contudo, a necessidade de financiamento faz com que ele se associe ao exército, que, por sua vez, tem outras pretensões quanto ao uso. O problema é que o vírus não causa só melhora nas capacidades físicas e regenerativas, aqueles infectados passam também a ter um “comportamento animalesco e uma sede de sangue insaciável”. É por isso que antes da utilização efetiva devem fazer vários testes e modificações. Nesse contexto, diversos personagens são inseridos, como Wolgast e Doyle, agentes do FBI em um trabalho secreto, Carter, um presidiário condenado à morte, Amy, uma garotinha de 6 anos, os trabalhadores da instalação secreta…

O problema é que tudo dá errado quando há uma quebra na segurança e as cobaias acabam escapando. No meio da confusão e terror, Wolgast tenta fugir com Amy e sobreviver em um lugar seguro. Mas onde é seguro quando a cada dia que passa o número de infectados aumenta?

Nesse ponto a narração é transformada. Lemos uma série de documentos e pequenas narrações que nos transportam 90 anos adiante, para uma colônia de sobreviventes na Califórnia. Aqui a atmosfera muda tão drasticamente que parece até outro livro. A história passa a ter um personagem principal evidente, que é Peter, um dos descendentes daqueles que formaram as primeiras famílias refugiadas. Somos apresentados aos costumes criados por esse pequeno grupo que não conhece o mundo de antes e aprendeu a se virar com pouco. E o que os mantêm vivos no meio desse mundo contaminado? As luzes que se acendem todas as noites e os grandes muros que os cercam. Mas será que isso vai durar para sempre? Não há nem tempo para questionar, já que acontecimentos estranhos começam a perturbar a rotina da colônia. A esperança, então, chega na forma de uma estranha andarilha. A partir disso, Peter se une a um grupo que está disposto a enfrentar a realidade fora dos muros e seguir em busca do que parece ser a última solução.


Bem, agora que você já tem ideia sobre o que é, podemos passar para o segundo passo: pra quem eu indicaria? Se você gosta mesmo de ler, fique sabendo que Justin Cronin é um mago da escrita. Contudo, se você só busca algo simples, rápido ou “diversão sem compromisso” para o fim de semana, é melhor procurar outra resenha. Também não indico para aqueles que se restringem a gêneros, ou para aqueles que não tenham muito o hábito, como o meu irmão de 13 anos que só está começando a gostar de ler. Ah, e às vezes a coisa não fica muito indicada para sua priminha que vive de rosa e brincando de bonecas (se é que criança assim ainda existe). Agora, se você já está “na estrada” há um tempo, é recomendadíssimo.

Ele é longo, então há vários momentos. Quando começamos a ler a narração salta entre vários pontos de vista, mostrando o precedente da hora que o vírus se espalha. Se essa constante mudança entre cenários e personagens é ruim? Pra alguns mais apressados, talvez. Fora isso, Justin Cronin foi hábil o bastante para conseguir criar a mesma linha envolvente, de modo que mesmo mudando, a ideia é de que a história continua. Diferente de livros como A Batalha do Apocalipse (Eduardo Spohr) e Labirinto (Kate Mosse), onde a cada mudança há uma sensação ruim de quebra de história. “Ei, calma aí, eu queria continuar lá…”.

A história segue até que todos os focos fiquem mais alinhados e alguns personagens ganhem mais atenção. É quando nos damos conta de que esse é só “o mundo de antes do vírus”. Esse início tem um clima de Sidney Sheldon, com Law and Order SVU, CSI e análise profunda dos personagens. Confesso que não é o clima mais atraente para qualquer público, mas é só o início.

Vale a pena seguir em frente porque logo depois é como levar uma rasteira e ficar de cabeça pra baixo, caindo dentro do armário de Nárnia, pendurado em uma vassoura de Harry Potter e na mão uma espada no estilo medieval. Isso, sem deixar pra trás o estilo ficção científica/sobrevivência/Resident Evil. Parece loucura, não é? E Justin Cronin consegue unir tudo isso com maestria. Ele consegue pegar esses vários climas e encaixar na mesma linha de história. Impressionante.

Quando chegamos nessa parte do livro nós já estamos completamente imersos. O trabalho de progressão é tão bem feito que o início parece mesmo há 90 anos. Chega a ser difícil falar de algo “tão antigo” aqui.

Repare que normalmente quando falam de um livro já começam citando personagens, o que eles são, o que eles fazem. Isso é porque na maioria das vezes a história se pendura no personagem. Ou vai dizer que Sussurro – Hush Hush seria alguma coisa sem um Patch? No caso de A Passagem o prêmio máximo vai para trama. O que não significa que os personagens não sejam bons. Pelo contrário, eles amadurecem com a história, têm personalidades vivas, são mais realistas e ainda são legais. Muitos, como a Amy, são surpreendentes.

Falando nisso, se a minha carreira de adivinha dependesse desse livro, eu estaria perdida, porque várias vezes a história tomou caminhos que eu nem imaginava.

Sei que já falei muito, mas há duas coisas que mostram o que Justin Cronin faz na história que não poderiam ficar de fora, principalmente para aqueles que pretendem escrever. A primeira coisa é a construção do mundo de “depois do vírus”, onde as pessoas não conhecem a nossa civilização, os conceitos estabelecidos com os quais convivemos. Pra ter ideia, eles não sabem nem o que é aeroporto. E a outra é o modo criativo de contar a história, que é feito através de emails, diários, imagens e a narração em terceira pessoa, que também só pode ser elogiada.

Enfim, é um livro grande, meio complicadinho. Seria até injusto encurtar mais a apresentação dele, porque há muuito pra falar. Com certeza, é do tipo que merece uma boa análise, mas só pra quem já leu. É difícil tentar explicar a imensidão que é sem falar demais, por causa da progressão o risco de spoiler é alto. Quem sabe uma hora eu faça uma lista de “o que torna A Passagem tão fantástico”. Enquanto isso, você pode encontrar A Passagem na livraria mais próxima. -nn


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2 pensamentos sobre “A Passagem

  1. uowww, o livro parece ser muito lgl! =] gostei da resenha, toda essa passagem de tempo e tals.. parece muito interessante, vai pra listinha^^


    hangover at 16

  2. Ah, ok, fui convencida em “comportamento animalesco e uma sede de sangue insaciável” ou, para simplificar, zumbis. Felizmente, mesmo tendo decidido nessa frase que “A Passagem” seria meu tipo de livro, resolvi ler o resto da resenha – que está ótima! De verdade.

    O engraçado é que por causa da capa eu nunca nem ao menos tentei saber mais sobre esse livro. Sempre achei que era algo no estilo “A Cabana” e, por isso, não me interessava…Por isso, fiquei MUITO contente por ter encontrado essa resenha =]!

    :**,
    Léka

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