Entrevista com Rosana Rios e Helena Gomes

Não sei se todos aqui já leram Sangue de Lobo ou desejam ler, mas de qualquer forma, não deixem de conhecer esse maravilhoso livro. Leia a resenha já postada no blog. Como gostei muito do livro e admiro bastante as autoras, optei por fazer uma entrevista e enviar para elas. O resultado foi uma entrevista muito bem bolada com respostas bem humoradas e interessantes. Por fim, ganhamos um bate-papo sobre Sangue de Lobo, lobisomens, valorização da literatura nacional e até frases de Eddie Vedder e Daniel Pennac. Aproveitem e não deixem de comentar para prestigiar as autoras !

Fotos : Helena Gomes à esquerda e Rosana Rios à direita. Capa do livro Sangue de Lobo ao lado das autoras

Sobre o processo de produção de um livro em parceria. Como funciona ? Cada um escreve um pedaço e vocês juntam, avaliam descartam ou a maior parte deles são escritos em conjunto ? Conte-nos um pouco mais sobre como isso funciona.

Helena –

Com a Ro, funciona assim: conversamos sobre a sinopse, trocamos ideias, acertamos o mais importante e depois desenvolvemos juntas o que vai cena a cena, capítulo a capítulo. A seguir, nós dividimos as cenas que cada uma vai fazer. É um processo muito divertido para nós, que adoramos inventar histórias.

Rosana –

É isso mesmo, eu e a Helena ficamos um bom tempo conversando sobre a história que queremos escrever, desenvolvendo os personagens… É a fase mais divertida, pois aparecem ideias totalmente malucas que a gente usa – ou não! Durante a escrita da sinopse muitas vezes tudo muda, personagens somem, aparecem outros, qualquer coisa pode acontecer. Então, começamos a escrever e os livros florescem.

Como surgiu a ideia de Sangue de Lobo ? A formação da mitologia dos lobisomens apresentada no livro (a teoria da transformação do homem em lobisomem a partir do sangue, a imortalidade e o ritual de „transformacionalístico“) já estava, em parte, montada ou aceitada na cabeça de vocês duas ou ela foi criada especialmente para o livro ?

Helena –

Ela foi surgindo conforme a gente ia escrevendo. É impossível prever tudo na fase da sinopse, pois o processo de escrita é dinâmico e sempre ocorrem mudanças e acréscimos.

Rosana –

Ah, quando nós começamos, na história só havia o Hector e seu dilema. Aí fomos “recheando” com mais personagens, e a trama se complicou. Os segredos da composição do sangue dos lobisomens nós fomos elaborando conforme o enredo necessitava.

Li nas partes que falam das autoras, nas últimas páginas do livro, que Rosana criou Daniel e Helena criou Hector. Como foi o processo de combinação destes dois personagens ?

Helena –

Complicado responder sem revelar spoilers… rsrs
Posso dizer que o Daniel é mais maduro, um tanto amargo até, pois já passou por muita coisa na vida. Ele é o resultado de um processo de amadurecimento natural.

Rosana –

Ah, a Helena tinha já escrito um pouco sobre o Hector, mas eu sempre preferi o Daniel. Como a Helena diz, ele é bem mais maduro. Sem falar no charme. Combinar a escrita de nós duas, com nossas preferências, sobre esses personagens, foi fácil. Teve etapas muito mais difíceis no processo!

O que vocês acham que é mais atraente nos lobisomens ?

Helena –

Olha, sinceramente não consigo achar nada de atraente em cachorrões peludos que ficam babando… rsrs
Digamos que, antes da Lua Cheia, um lobisomem charmoso como o Hector pode ser muito atraente. Mas, após a mutação, nem pensar! rsrs

Rosana –

Ih, lobisomens em noites escuras de Lua Cheia são apavorantes. Mas talvez seja o próprio pavor que eles despertam que atraia tanto os leitores… Acho que gostamos de sentir medo. E quando o medo vem associado a um personagem misterioso e com o encanto do nosso lobisomem, bem… as pessoas se apaixonam.

A abordagem da crueldade presente em cada um de nós, aparente a partir da loucura foi, na minha opinião, muito interessante e inteligente. Acham mesmo que uma pessoa pode ser tao cruel e selvagem quanto qualquer ser sobrenatural ?

Helena –

Até pior, Victor. Infelizmente temos inúmeros exemplos na vida real.

Rosana –

Qualquer pessoa tem um lado obscuro, um potencial para ser cruel. Algumas, porém, escolhem não sê-lo, e investir na generosidade, na bondade que também faz parte de todos nós. Sempre se pode escolher – e batalhar pela escolha feita.

Algo já muito discutido é o antigo conflito entre lobisomens e vampiros. Quem vocês acham que vence nessa disputa ? É possível que apareçam vampiros na continuação de Sangue de Lobo? Tomara que eu tenha deixado uma ideia para um terceiro livro.

Helena –

Não sei quem venceria. Os dois lados são poderosos.
Quanto à ideia, quem sabe? A Ro imaginou uma cena em que o Daniel diz para a Ana Cristina que há muita coisa por aí que ela nem imagina existir…

Rosana –

Eu não sou uma escritora muito entendida em vampiros. Não sei mesmo quem tem mais poder! Mas, de repente, um desses seres pode aparecer. Não dá pra saber o que vai acontecer a um texto, muitas vezes os elementos aparecem sem querer e nos surpreendem.

Sobre escrever em geral. Preferem escrever ficção ou não ficção ? Para crianças, jovens ou adultos ?

Helena –

Prefiro ficção. E para jovens e adultos com espírito jovem.

Rosana –

Ah, eu só escrevo ficção – e mesmo quando brinco com a não-ficção, ela fica meio ficcional… Escrever especificamente para adultos não me interessa. Prefiro os jovens como leitores.

Do tema tratado, lobisomens, vocês tem filmes ou livros para indicar que fizeram vocês gostarem dessa criatura ou que vocês gostem e recomendam ?

Helena –

Posso fazer propaganda aqui? rsrs
Vou indicar meu livro Lobo Alpha, publicado pela Rocco. Conta a história do jovem Wolfang, que tem o estranho poder de se transformar em lobo. Apesar de ser o mais fraco e insignificante de seu clã, acaba salvando a vida de Amy, uma jovem que, sem saber, carrega um segredo capaz de definir o futuro das criaturas — seres com poderes de mutação, que vivem anonimamente pelo mundo.

Rosana –

Eu assino embaixo. Li o Lobo Alpha e o Código Criatura, da Helena, e adorei.

Poderiam citar livros, filmes e séries de que gostam ? E um (a) autor (a) que admiram ?

Helena –

Difícil escolher… Hoje, costumo acompanhar seriados como House, Castle, Glee, Law & Order SVU e Drop Dead Diva. Sou ainda meio viciada em programas sobre Gastronomia, como Top Chef, gosto bastante dos documentários do canal History e também assisto a desenhos animados, como ao divertido Perry, o Ornitorrinco. Vejo filmes de aventura, de suspense e comédias românticas também.

Rosana –

Eu assisto The Big Bang Theory, Glee, Eureka e não consigo deixar de ver as reprises de Star Trek Next Generation e Stargate SG1. Gosto das 3 séries de CSI também… Filmes, mais comédias, ficção fantástica, épicos. Um autor que admiro é o inglês Neil Gaiman.

O livro se passa, em sua maior parte, no Brasil. Muitos autores, mesmo escrevendo histórias brasileiras, gostam de explorar outros territórios em seus livros. O que vocês acham de atraente e proveitoso em nosso território que pode ser utilizado nos livros ?

Helena –

Tudo. Temos cenários fantásticos no Brasil, que só esperam uma chance de ser descobertos pela ficção.

Rosana –

O Brasil é imenso e cheio de mistérios, locais paradisíacos e/ou assustadores. Tem muito potencial para histórias fantásticas!

Como vocês já devem estar cansadas de saber, nossos leitores se concentram em livros estrangeiros. Livros traduzidos ou até mesmo direto em inglês são seu foco, desvalorizando a literatura nacional. O que pensam sobre esse assunto ? O que acham que pode vir a ser uma solução ? Por que livros estrangeiros são mais lidos e os nacionais desvalorizados, uma vez que são de nosso país, escritos em nossa língua e de nosso povo, na opinião de vocês ?

Helena –

Sofremos uma desvalorização de tudo o que é nosso e isto inclui a cultura. É o preço que pagamos por termos sido colonizados, por aprendermos a acreditar que o que vem de fora é melhor.
Não vamos mudar esta situação de um dia para o outro. Mas, em relação à Literatura Fantástica nacional, há boas perspectivas. E muito se deve a blogueiros como você, que valorizam nossos livros.

Rosana –

Concordo totalmente com a Helena. E eu também gosto de ler os autores estrangeiros. Mas leio também os nacionais! Um problema grave é a falta de espaço para nós, autores brasileiros, mostrarmos nossa produção. A grande imprensa nos ignora.
Uma solução é o autor ir às bibliotecas, feiras, colégios. Isso pode ajudar a mostrar que existimos, rsrsrsrsrs…

Gostam do Halloween? O que fazem nessa data ? Gostariam que fosse levado mais a sério no Brasil ?

Helena –

Adoro Halloween. Quando eu era jovem, nos anos 80, organizava festas de Halloween numa época em que quase ninguém fazia isso no Brasil. É noite de magia, de boas energias.
Para mim é uma data tão legal que fiz meu primeiro personagem, o Thomas, nascer no que batizei na história de Noite dos Mortos. Foi no livro O Arqueiro e a Feiticeira, o primeiro volume da saga A Caverna de Cristais, hoje publicada pela Idea Editora.

Rosana –

Halloween é Samhain, a festa de fim do verão da cultura celta. Para mim é uma noite de muito poder no ar. Mas não faço nada especial, e como sou workaholic, sempre trabalho nesse dia, como nos outros…

Há uma tendência atual em aproximar criaturas sobrenaturais sombrias de jovens. O gótico sempre esteve perto do romântico, entretanto, existem autores que não conseguem separar muito bem os dois. O que pensam sobre essa tendência e , na opinião de vocês, o quanto um vampiro ou lobisomem pode mudar para viver com sua amada(o) ?

Helena –

Depende de como é esse personagem vampiro ou lobisomem. Ou seja, de como o autor o construiu, de como é a história etc. Não consigo generalizar.

Rosana –

Não sou uma autora de terror, gótico ou sobrenatural. Meu tema preferido é o fantástico, mas gosto do suspense e do mistério ao escrever. Sei que existe grande procura dos leitores por obras mais sombrias, não saberia dizer o porquê; mas não é muito a minha praia. E o fato de um(a) personagem mudar para ficar com a pessoa amada é um dos grandes motes da Literatura. Todos nós mudamos com o passar do tempo, e o amor é uma grande motivação para isso!

Curto e Grosso – Perguntas Rápidas, diga a primeira coisa que vier à mente

Helena :

Um livro – No momento, o que estou lendo: Deuses, Monstros, Heróis, de Johnni Langer. Está me ajudando bastante numa pesquisa sobre vikings.
Um filme – Rastros de Ódio, de John Ford.
Uma série – Stargate SG-1.
Uma década – Os 90.
Um país – Irlanda.
Um personagem – Daniel Jackson, de Stargate.
Uma comida – Italiana.
Uma música – Under Pressure, do Queen.
Um autor – JK Rowling: graças a ela, as editoras começaram a prestar atenção nos jovens leitores.
Uma frase – “I know I was born and I know that I’ll die. The in-between is mine”, Eddie Vedder, Pearl Jam ( *livremente para o português : Eu sei que nasci e sei que irei morrer. Esse meio-tempo é meu. )

Rosana :

Um livro – “Deuses Americanos”, de Neil Gaiman
Um filme – Highlander (o primeiro, claro; só pode haver UM)
Uma série – The Big Bang Theory.
Uma década – Dã? A atual. Sempre prefiro o hoje ao ontem.
Um país – Brasil, claro. Se tiver de ser outro, a Inglaterra.
Um personagem – Elizabeth Bennet, criada pela Jane Austen.
Uma comida – Arroz, feijão, bife à milanesa, batata frita e salada de alface.
Uma música – “Don’t Stop me now”, do Queen.
Um autor – Além do Neil Gaiman, tô adorando ler Moacyr Scliar.
Uma frase – “O verbo ler não suporta o imperativo. Aversão que partilha com alguns outros: o verbo amar, o verbo sonhar. Me ame! Sonhe! Leia! Resultado? Nulo.”
Daniel Pennac.

Muito Obrigado por cederem a entrevista ao Blog das Resenhas ! Fico grato e muito feliz por concordarem. Continuem escrevendo tão bem quanto escrevem. Sucesso !
Helena –

Muito obrigada, Victor!
Agradeço a oportunidade de participar do Blog e falar sobre o meu trabalho.

Rosana –

Eu também agradeço! Foi muito legal responder às suas perguntas. Sucesso com o Blog!

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Sobre Victor

Gosto de cheiro de livros novos e de biblioteca com livros velhos, de livros ( dessa vez das letras mesmo ), de chocolate, de escrever, de ficar no computador, de dias frios com céu bonito, de ir ao cinema, passear no shopping com os amigos e de viajar. Ensino inglês e um dia ainda quero publicar alguma coisa. Bolsa Amarela, Harry Potter e a pedra filosofal , Entrevista com o vampiro e Crônicas de uma namorada são meus livros favoritos. Perdi a conta de quantas vezes vi "A Múmia". Quanto às séries que gosto, sempre mudo. Elas têm suas temporadas e eu tenho as minhas.

6 pensamentos sobre “Entrevista com Rosana Rios e Helena Gomes

    • Obrigado, fico feliz que tenham gostado da entrevista. Parece que está para sair um novo livro delas, pela Rocco, Conexao Magia. Depois que eu ler – e lancar, obviamente – faco outra entrevista a respeito do livro 🙂 O que acham ? 😉
      Abracos e Obrigado pelos comentários !

  1. Excelente entrevista!!! Adivinha qual é a minah escritora favorita??? Helena é claro! Ops, ops, ops!!! Rosana Rios também! Conheci a escrita dela somente agora em Sangue de Lobo, amei!!!

    Beijos

    • Obrigado ! kkk que legal ! Elas sao ótimas mesmo, escrevem muito bem. Parece que vem mais delas por aí. Vamos esperar 😀

      Beijos,

      Victor

  2. E quanto tempo vamos esperar para o volume 2 ? eu realmente amo o livro, perdido no meio dos mil livros da escola lá estava ele, e JESUS QUE PERFEIÇÃO
    li umas 5 vezes e leria mais 5 sem pensar

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