Resenha: Suicidas

Os livros que têm mais força – ou nos agarram mais forte durante a leitura – são aqueles que se constroem durante o virar de páginas. Claro que cada obra tem seu desenvolvimento próprio, mas são poucas as que criam seu ambiente particular e conseguem, com maestria, inserir o leitor nesse universo. Imperceptivelmente – ou talvez bem sutilmente, com a tensão policialesca como bruma – Suicidas cria e nos convida a participar de uma atmosfera onde suspeitas são deixadas no ar, através das linhas de tempo, e o leitor é levado a acreditar em tudo e a suspeitar de todos.

Nove jovens da elite carioca decidem participar de uma roleta russa, evento que acaba de forma drástica e curiosa. Um ano após o ocorrido, as mães dos participantes da macabra brincadeira são reunidas novamente pela delegada responsável pelo caso, com uma esperança: um caderno encontrado no local dos suicídios que narra, capítulo a capítulo, o que realmente aconteceu no porão da Cyrilles House. Com novas provas, velhas feridas e omissões serão claramente expostas, sem pudores, tudo a fim de que as perguntas que a todos incomodam possam ser enfim respondidas. Mas a verdade não será obtida com facilidade. A busca por explicações fará o ar cheirar a tensão, tanto para as entristecidas mães, como para os interessados leitores.

Para melhor trabalhar com os diversos fatos e personagens, o livro é dividido em três linhas. A primeira é um caderno de Alessandro, o escritor do grupo, que narra sua vida e a de seus amigos, nos inserindo no contexto necessário para conhecer cada um, e entendermos como eles vieram a participar do mortal jogo que acabou com suas vidas. A segunda linha é uma gravação da reunião das mães, com seus comentários sobre a leitura de um caderno recentemente encontrado – também escrito por Alessandro. A terceira linha é nada menos que o próprio caderno, que descreve o que aconteceu no porão onde os jovens se mataram.

Os capítulos mais instigantes são os da terceira linha. Contudo, ao decorrer do livro, a tensão se espalha pelo passado e pelo presente, deixando várias perguntas a perturbar o leitor. A segunda linha serve melhor para conhecermos os personagens de modo geral, principalmente no início, porém, em certo ponto, mostra-se tão reveladora quanto a terceira linha. Essa progressão do suspense dentro de cada capítulo é um dos elementos que atrai o leitor para a história e, sem percebermos, torna Suicidas um romance policial de roer as unhas.

Os personagens têm uma profundidade bem cuidada. Raphael nos mostra o lado bom e o lado ruim de cada um, provando que, em certas situações, os limites caem por terra. Talvez por ser o porta voz do livro, Alê foi o personagem que mais me conquistou, do início ao fim. Os outros suicidas são bem interessantes, cada qual ao seu modo. Acredito que cada leitor possa gostar bastante de uma figura diferente pelas variadas personalidades e motivações dos suicidas.

Um ponto que incomoda, ainda mais nas cenas com ação, é o fato de Alê estar escrevendo o livro no calor do momento – não só por escrever, mas também por escrever muito bem. Contudo, com a fluência de leitura que o romance oferece, esse detalhe passa impune – ou perdoado.

Suicidas é um suspense que se revela aos poucos, de forma abusiva e torturante. Nos compra não só pelo mistério, não tão presente até a metade, mas também pelos personagens bem construídos e seus dramas pessoais. São quase quinhentas páginas que passam bem rápido, tudo em busca de respostas bem mais chocantes que o esperado…

Resenha: Jogos Vorazes (filme)

A resenha da vez fala do filme para quem já está por dentro da história. Se quer saber sobre o que fala Jogos Vorazes, confira a resenha do livro.

Cartaz do filme "Jogos Vorazes"

Depois de tanto se falar no filme para lá e pra cá, umas das adaptações mais aguardadas do ano chega aos cinemas brasileiros. A pergunta é: valeu a pena? Jogos Vorazes é uma boa adaptação? É um bom filme? Bem, como fã do livro, gostei bastante de ver uma produção fiel nas telonas. O elenco está espetacular e vemos tudo que ficou mais marcado durante a leitura sendo exibido ao longo do filme. Entretanto, para um espectador normal, não creio que tenha agradado tanto assim. Por que? Vamos falar um pouco disso e ainda mais sobre a adaptação para o cinema abaixo.

O início do filme mostra como é Panem, com sua desigualdade exorbitante, as revoltas que foram cessadas pela Capital e a criação dos Jogos Vorazes. Tudo é bem explicado e sequenciado, entretanto, tem um efeito de câmera bem irritante que tenta dar vários pontos de vista ao espectador. A filmagem mexe muito, mudando sempre os ângulos, o que incomoda demais quando simplesmente queremos assistir ao filme. Outra coisa que o livro tem de muito interessante que poderia ter sido explorado é a emoção que os personagens e situações passam para o espectador. No romance, Suzanne Collins transmite isso facilmente aos leitores, como bem disse na resenha da obra. Porém, durante o filme, o espectador é fisgado pela história somente. Em certo ponto, o filme pode se tornar longo demais e com muitas reviravoltas, o que acarreta na perda de interesse de algumas pessoas. Transmitir toda a tensão e as emoções, bem com é feito no livro, seria uma jogada muito melhor e mais interessante.

Para quem esperava uma produção sangrenta, a categoria de 12 anos já diz bastante coisa. O roteiro foi escrito suavizando as partes mais violentas e impactantes a fim de poder alcançar um público mais jovem. Isso estragou algumas expectativas, claro, mas deu para compreender – mesmo sentindo falta das cenas mais fortes- a agressividade e crueldade de adolescentes jogando com a vida e a morte. Outras cenas que não tinham muito a ver com censura também foram suavizadas, o que estragou um pouco minhas expectativas – como a relação da Katniss com o Peeta e com a Rue. Sei que muitas coisas não davam tempo de serem desenvolvidas, mas, mesmo assim, são aspectos realmente tocantes que poderiam cativar o público – e satisfazer os fãs.

Um ponto interessante da produção, tanto para fãs e não fãs do livro, foram as cenas extras que não se encontravam na obra, a maior parte delas na Capital. Encontrei no Bookeando um artigo super legal falando dessas cenas. Porém, atenção, ele pode conter spoilers para quem não leu o livro ou assistiu ao filme.

Em suma, não achei o filme aquilo tudo que estávamos esperando, mas creio que a equipe está preparada para uma sequência de tirar o fôlego. E será que dessa vez tirará mesmo? Para quem viu o filme e não se impressionou tanto ou quer assistir e ouviu uns comentários baixo astral, fica uma dica: o livro é muito bom e não vai te deixar na mão. Suzanne Collins promete e cumpre com maestria.

Vale também destacar que a divulgação do filme foi muito bem feita. Ao menos aqui no Rio, foram divulgados cartazes, eventos e brindes para a pré-venda por todo lado. Confira alguns cartazes bem legais que encontrei por aí: