Resenha: Suicidas

Os livros que têm mais força – ou nos agarram mais forte durante a leitura – são aqueles que se constroem durante o virar de páginas. Claro que cada obra tem seu desenvolvimento próprio, mas são poucas as que criam seu ambiente particular e conseguem, com maestria, inserir o leitor nesse universo. Imperceptivelmente – ou talvez bem sutilmente, com a tensão policialesca como bruma – Suicidas cria e nos convida a participar de uma atmosfera onde suspeitas são deixadas no ar, através das linhas de tempo, e o leitor é levado a acreditar em tudo e a suspeitar de todos.

Nove jovens da elite carioca decidem participar de uma roleta russa, evento que acaba de forma drástica e curiosa. Um ano após o ocorrido, as mães dos participantes da macabra brincadeira são reunidas novamente pela delegada responsável pelo caso, com uma esperança: um caderno encontrado no local dos suicídios que narra, capítulo a capítulo, o que realmente aconteceu no porão da Cyrilles House. Com novas provas, velhas feridas e omissões serão claramente expostas, sem pudores, tudo a fim de que as perguntas que a todos incomodam possam ser enfim respondidas. Mas a verdade não será obtida com facilidade. A busca por explicações fará o ar cheirar a tensão, tanto para as entristecidas mães, como para os interessados leitores.

Para melhor trabalhar com os diversos fatos e personagens, o livro é dividido em três linhas. A primeira é um caderno de Alessandro, o escritor do grupo, que narra sua vida e a de seus amigos, nos inserindo no contexto necessário para conhecer cada um, e entendermos como eles vieram a participar do mortal jogo que acabou com suas vidas. A segunda linha é uma gravação da reunião das mães, com seus comentários sobre a leitura de um caderno recentemente encontrado – também escrito por Alessandro. A terceira linha é nada menos que o próprio caderno, que descreve o que aconteceu no porão onde os jovens se mataram.

Os capítulos mais instigantes são os da terceira linha. Contudo, ao decorrer do livro, a tensão se espalha pelo passado e pelo presente, deixando várias perguntas a perturbar o leitor. A segunda linha serve melhor para conhecermos os personagens de modo geral, principalmente no início, porém, em certo ponto, mostra-se tão reveladora quanto a terceira linha. Essa progressão do suspense dentro de cada capítulo é um dos elementos que atrai o leitor para a história e, sem percebermos, torna Suicidas um romance policial de roer as unhas.

Os personagens têm uma profundidade bem cuidada. Raphael nos mostra o lado bom e o lado ruim de cada um, provando que, em certas situações, os limites caem por terra. Talvez por ser o porta voz do livro, Alê foi o personagem que mais me conquistou, do início ao fim. Os outros suicidas são bem interessantes, cada qual ao seu modo. Acredito que cada leitor possa gostar bastante de uma figura diferente pelas variadas personalidades e motivações dos suicidas.

Um ponto que incomoda, ainda mais nas cenas com ação, é o fato de Alê estar escrevendo o livro no calor do momento – não só por escrever, mas também por escrever muito bem. Contudo, com a fluência de leitura que o romance oferece, esse detalhe passa impune – ou perdoado.

Suicidas é um suspense que se revela aos poucos, de forma abusiva e torturante. Nos compra não só pelo mistério, não tão presente até a metade, mas também pelos personagens bem construídos e seus dramas pessoais. São quase quinhentas páginas que passam bem rápido, tudo em busca de respostas bem mais chocantes que o esperado…

Resenha: Imortais

Desde que o trailer desse filme foi liberado, no ano passado, eu fiquei com bastante vontade de assistí-lo. Contudo, após sua chegada aos cinemas, os comentários não foram animadores. Perdi a conta de quantas vezes disseram: É um Fúria de Titãs mal feito. Então acabei adiando minha ida ao cinema e quando vi, ele já estava nas locadoras. A vontade de alugá-lo não era grande, mas, em domingos chuvosos, não sei porque, eu quase sempre acabo vendo alguns filmes que estavam parados na lista. Imortais não é um bom filme sobre mitologia grega ou simplesmente de aventura com bastante ação. Contudo, é um filme bom, que peca nesses dois gêneros citados. Serve para diversão descomprometida com ainda espaço para um debate com seus furos. Ou pizza, fica a critério de vocês…

Mostrando ser um concorrente direto de Fúria de Titãs, a produção aposta em dois elementos: um herói  famoso da mitologia grega ( metido num contexto maior do que a sua história de origem, com alguns elementos da mesma ) e uma guerra de deuses. A partir de uma narração didática desncessária, ficamos sabendo sobre a famosa história dos Titãs. Quando estes governavam, estavam em guerra com os deuses. Porém, esses últimos conseguiram vencer e trancaram seus inimigos numa prisão indistrutível dentro do nada acessível Monte Tártaro. Mas, para o bem dos humanos, sempre tem um lunático querendo acabar com a Terra. O rei Hyperion ( ou Hiperião ) quer libertar os titãs e, para isso, procura o Arco de Épiro, a única arma capaz de destruir a prisão na qual eles se encontram.  O escolhido dos deuses – que não podem intervir em assunstos terrenos – é Teseu, um jovem de Creta muito habilidoso e corajoso. Numa jornada ao lado de fiéis aliados ( incluindo uma vidente que os ajuda ), Teseu terá de impedir que o Arco caia nas mãos do rei (e, é claro que isso acontece) e que este invada o Monte Tártaro.

Cobertura no monte olimpo com vista para a Terra. Quem quer?

Vamos falar primeiramente dos pontos fortes do filme. A parte visual é um espetáculo. Desde efeitos especiais a figurinos, construções e cenários, tudo é super caprichado. Apesar de um tanto surreais, as cenas de luta também são boas. Não são confusas como a maior parte dos filmes de ação que assisto e há vários efeitos de câmera lenta para destacar os movimentos. Foram um pouco sangrentas demais. Eram sempre jatos de sangue espirrando para todo lado e muitas perfurações, decapitações, marteladas e por aí vai. O roteiro não é todo muito bom, mas achei que tem cenas bem boladas. Algumas fugas, invasões são bem pensadas, apesar da história do filme como um todo não seguir essa linha. Destaque também para a releitura que é feita da lenda do minotauro. Não só como o bichano é retratado, mas o confronto entre este e Teseu.

Olha o Klaus do The Vampire Diaries! Coitado, só faz porcaria e se ferra…

Tenho que parar de me preocupar com as mudanças escandalosas em adaptações da mitologia grega. Mas simplesmente não entendendo por que os filmes mexem com mitos tão bem bolados –e sempre a fim de criar produções pra lá de inferiores ao lado das histórias que as deram origem. O primeiro detalhe é que sempre tem um herói escolhido. Na mitologia, há muitos heróis. Os deuses nunca vão dar destaque só a um deles. E mais, onde estão os outros? Não faz mal colocar Teseu e Hércules, ou Perseu e Aquiles. Já estão modificando, vamos fazer isso ficar legal e coerente ( uma guerra de deuses afeta o mundo inteiro, não é?)! O segundo detalhe: o Tártaro não fica tão exposto. Ele é um lugar escondido, também conhecido como a parte mais escura e profunda do Submundo. Faz sentido os Titãs serem trancados por lá, lugar onde os humanos dificilmente vão conseguir entrar. Mas não no filme! Terceiro detalhe: deuses não matam deuses! Sabe por quê? Porque eles são imortais! A palavra já explica bastante coisa, acho que o roteirista não leu direito. Eles não morrem, independente de quem os atinge. A única maneira de eles serem destruídos – e não mortos, pois isso não acontece – é retirar sua imortalidade. E só há uma deusa menos conhecida com esse poder, a Nyx, o qual é guardado a sete chaves. Além disso, eles podem sim intervir na guerra dos humanos, como fazem toda hora. Ainda mais quando o problema em questão é libertar os imortais que eles mesmo aprisionaram!

Olha os deuses do filme preparadíssimos pro Carnaval carioca

Lembram quando eu falei que as lutas eram meio surreais? Pois é, quando necessário, o herói ou vilão em questão pode matar cinco homens em segundos – e todos muito bem assassinados. Os propósitos dos personagens não são muito bem colocados. Um dos aliados de Teseu quer escapar, antes de se juntar ao grupo, mas em pouco tempo decide acompanhá-los. Isso sem falar na motivação dos outros personagens, até mesmo os principais.  As construções são bem bonitas, com já disse, mas tem uma estética moderna que não combina com a Grécia antiga. Tudo bem que estamos falando de uma releitura, mas um arquitetura do nosso século não fica legal num filme de época. O mesmo ocorre com a vestimenta dos deuses, todas psicodélicas, não combinando muito com todo o contexto.

Como foi dito no início, Imortais é uma aventura descomprometida. Vale o seu tempo, só não dê prioridade. Apesar de considerar Fúria de Titãs ( ao menos o primeiro ) melhor, se você gostou dele, provavelmente vai curtir Imortais. E ficamos no aguardo de uma adaptação da mitologia grega descente. Aliás, se alguém conhecer alguma, indique! Pelo Olimpo, quero um filme que honre Hércules e companhia…

Resenha: Jovens Adultos

Todos sabemos que crescer pode ser, realmente, bem complicado. Quantos amigos de escola não permanecem naquele mesmo esquema de ensino médio mesmo algum tempo após a formatura ou a entrada a faculdade? Alcançar a maturidade não é para todos, só a idade que ninguém consegue escapar.

Cartaz americano do filme que ilustra de outra forma a protagonista versão matinal

É exatamente sobre isso que fala Jovens Adultos, roteirizado por Diabo Cody ( que escreveu o excelente Juno ), um drama com leves toques de comédia sobre uma mulher de quase quarenta anos que se prende à glória de seu passado escolar. Esta é Mavis, uma escritora fantasma muito bonita e talentosa que está passando por essa crise “adolescente”. Solteira e solitária, ela se vê com o último romance de sua saga para jovens adultos ( adorei a abordagem do gênero literário YA – Young Adults, ou Jovens Adultos – , na história ) em produção, lembrando-se dos seus tempos de escola e, principalmente, da sua paixão da adolescência: Buddy. Determinada, ela viaja até sua cidade natal, onde reecontra várias pessoas que estudavam com ela e consegue rever o tão desejado ex-namorado. Acontece que agora ele está casado e com uma filha bebê, ou seja, nem um pouco disponível. Contudo, passional, atrevida e iludida como uma garota de 15 anos, Mavis investe em seus flertes com Buddy, não ligando para a opinião alheia ou para o casamento dele.

Mavis com cara de poucos amigos ao ver que as coisas não vão tão bem assim…

À medida que vemos suas tentativas em se reaproximar de Buddy, também conhecemos um pouco mais de sua rotina e de suas manias. Um fato interessante e bem expressivo é que ela sempre acorda tarde, arrasada, com cabelos desarrumados e um rosto bem abatido, saindo por aí muitas vezes com pijama e um casaco por cima. Enquanto à noite, ou pelo menos no final da tarde, ela está rigorosamente arrumada e chique. Passa bastante maquiagem e toma muito cuidado com seu cabelo, fazendo diversos efeitos ou colocando um aplique. A história que ela está escrevendo, a qual muitas vezes escutamos alguns trechos, reflete muito sua própria vida e estado de espírito. Para o final isso se torna ainda mais evidente. A direção é muito bem feita. O filme é conduzido basicamente pelo ponto de vista de Mavis, colocando bastante o destaque na personagem e na atriz, desafio bem aceito e conduzido por Charlize Theron. Ela é o destaque do filme. Creio por esse enfoque na Mavis e sua visão de mundo – que foram belamente trabalhados pela atriz, como já bem disse – os outros atores não ganharam um brilho ou reconhecimento muito grande, apesar de nenhum personagem ser deixado de lado por completo ou muito pouco desenvolvido. Sempre os revemos em outras cenas, principalmente no desfecho da história.

Pois é, infelizmente o visual do cartaz americano não era promocional. Ela realmente anda por aí assim de manhã…

Em alguns momentos o filme pode parecer um pouco lento, com o propósito de retratar a solidão e o tédio de Mavis. O bacana do longa é refletir sobre essas pessoas que são como a protagonista, vazias, perdidas, lembrando de seus tempos de adolescente onde tudo era mais fácil e glorioso. Buscar atenção no colégio sempre é bem mais fácil do que conseguir um lugar ao palco na vida adulta. O humor variável e egoísta também é um aspecto interessante e bem característico desses jovens adultos. Charlize bem nos mostra como certas vezes essas pessoas podem estar por demais iludidas ( ou até mesmo com tudo na mão ) e, por isso, com uma postura mais confiante e sexy, como já estivessem de jogo ganho, e, outras vezes, quando a situação foge do controle ou não está bem como desejam, ficam perdidos, entediados e até mesmo agressivos ou mal educados.

Foto da ótima cena na qual Mavis é praticamente menosprezada pelo vendedor de uma livraria que vende “sua” saga.

Jovens Adultos vale seu tempo, se, claro, a proposta te agradar. É um filme bem interessante que faz refletir sobre o que fazemos com nossas vidas e o que realmente queremos fazer. Sobre nossos objetivos e os motivos pelos quais queremos os alcançar. A vida adulta é muito complicada, ainda mais se não estivermos prontos para ela.

Resenha: A Maldição da Pedra

Após o desaparecimento do pai, a realidade de Jacob Reckless se torna extremamente amarga. Buscando um escape para seus problemas, ele encontra o Mundo do Espelho, uma enorme e encantada terra onde os feitiços, artefatos e criaturas mais puros e fantásticos existem, assim como os mais sombrios  – e tudo através do espelho do escritório de seu pai. Desde que encontra esse segundo mundo, sua presença na vida real – onde tem que se deparar com a tristeza de sua mãe e a fraqueza e insegurança de seu irmão caçula  – torna-se cada vez menos frequente. Mas quando ambos os irmãos já estão crescidos e Will encontra-se nessa terra mágica, o inesperado acontece: ele é atacado por um Goyl ( uma criatura de pedra) e agora está se tornando um deles. Para impedir a transformação de seu irmão, Jacob está disposto a fazer o impossível e viajar para os reinos mais longínquos. Acontece que a jornada não será menos que complicada: há outras pessoas interessadas no Goyl que Will está se tornando e, além disso, a pedra parece afetar mais que somente sua pele…

Capa americana – da qual não gostei nem um pouco…

A sinopse não passa tão bem o clima e a proposta do livro, mas logo nos primeiros capítulos – no meio de uma confusão – passamos a ser cada vez mais inseridos naquele contexto e esperar pelo o que virá. Os capítulos iniciais são confusos, pois o livro é narrado transitando entre personagens e lugares. No começo não conhecemos ninguém, logo essa transição causa uma estranheza, para depois irmos entendendo e conhecendo tudo aos poucos. Os irmãos não estão sozinhos nessa aventura. Fux, a menina que se transforma em raposa, é a fiel escudeira de Jacob e não poderia faltar nessa busca, assim como Clara, a namorada de Will, que nada conhece daquela realidade fantástica. Todos os personagens têm características distintas e bem definidas, nos conquistando de modos variados. A narrativa de Cornelia Funke é muito bem escrita e conduzida, nos levando imersos em seu mundo da fantasia, o qual, inclusive, é muito bem criado, com uma mitologia espetacular e cativante. Sem colocar esse fator muito evidente, ela insere alguns elementos de contos de fada na história, porém tudo com as características do mundo que ela criou ( bastante sombrio e de criaturas sempre de cheias interesses, por mais que possam ser boas ). As informações sobre aquela nova realidade são inseridas aos poucos, preservando aquele místico quando tratamos de segredos ou mistérios da magia ou da própria terra encantada. Esse artifício permite que o leitor se surpreenda volta e meia, por mais que sempre possamos adivinhar o que está por vir.

Capa alemã – apesar de bem melhor que a americana, ainda não me agrada

A junção de uma boa narrativa, um ótimo ambiente e personagens com presença tornam A Maldição da Pedra uma leitura imperdível, principalmente para os fãs de fantasia. O segundo livro leva o título de Fearless  ( Destemido, em tradução literal ) e está previsto para sair no exterior em Setembro. Aqui no Brasil ele não tem previsão de lançamento, porém, o gancho deixado para a sequência, na minha opinião, não foi tão forte a ponto de esperarmos desesperadamente. O livro dois deve explorar outra situação que, por mais que possa ser contada de forma interessante, também teria como ser deixada de lado pelo modo como o romance foi concluído. Contudo, fico feliz que haja uma continuação, quero ler mais desse universo do Mundo do Espelho.

PS.: O livro conta com diversas ilustrações da autora, as quais ilustram muito do que é descrito. São sempre encontradas no início e no final de cada capítulo, toda feitas de grafite. Essas ilustrações e a edição que a Companhia das Letras deu à capa fizeram a versão brasileira ficar lindíssima!

Resenha: Magia Roubada

Em um mundo onde pessoas com habilidades mágicas podem realizar feitos extraordinários, não poderia faltar uma ordem. E o responsável por garantir que Lord Drayton, um mago que anda cometendo algumas infrações que passaram despercebidas, não faça nada ameaçador é o Lord Simon Falconer. O que o guardião não esperava era a astúcia deste que estava sendo perseguido, que o surpreende, transformando o invasor de seu castelo em um unicórnio. Depois de algumas confusões e reviravoltas, por sorte, Simon consegue escapar e voltar a sua forma humana graças a Meg, uma virgem poderosa que, por ter bastante magia dentro de si, era mantida em cativeiro por Lord Drayton. O cruel mago pretende acumular grande quantidade de poder para realizar um feito maléfico. E ninguém melhor do que a dupla que conseguiu escapar de suas garras com sucesso para combater esse perigoso vilão. Com aliados fiéis, uma atração irresistível, encontros sociais na luxuosa Londres do século XIII e vários encantos, Magia Roubada é uma divertida aventura com romance para passar o tempo. Entretém, mas é simples demais para emocionar.

A narrativa de Mary Jo Putney é boa, bem conduzida, porém bem simples. Os personagens carecem de um desenvolvimento maior e uma profundidade. Seus pensamentos e reflexões são pouco explorados e a autora não faz de nenhum deles figuras marcantes que conquistem o leitor. Faltaram personagens que entram na sala e não só a autora fala que eles tiram a respiração de todos presentes, mas o leitor, só pela descrição e presença do mesmo, perde a respiração por si só. Não é a figura que vai marcar sua vida, mas sim sua leitura. Seu enredo é mais interessante, contudo, apresenta algumas partes que deixam o leitor desconfiado ou não convencido. É preciso engolir alguns fatos e explicações para realmente mergulhar na onda do romance, aproveitando a aventura descomprometida que Magia Roubada nos oferece. Os encantos são brevemente explicados, por mais que se mostrem complexos. As situações problemáticas são quase sempre resolvidas facilmente. Se citaram um feitiço complicado, que exige muito treino e concentração, mas, em certo momento, o personagem precisa usá-lo, ele vai conseguir – e sem suar tanto assim. Os acontecimentos são, na maioria das vezes, previsíveis. É difícil a autora conseguir te surpreender.

O livro é o segundo de uma trilogia na qual os volumes contam histórias diferentes no mesmo universo. Seu antecessor é Um Beijo do Destino, o qual dizem ser melhor por conta do romance. O romance de Magia Roubada é, de um modo geral, bem desenvolvido, com um toque de erotismo bem conduzido, mas não tão presente pelo fato de Meg ter de preservar sua virgindade para reverter a transformação de Simon em unicórnio. Eu esperava que a autora melhorasse alguns aspectos durante a trama, mas os problemas continuaram constantes. Senti falta de algumas coisas que queria ver naquele universo que a autora criou, mas principalmente de um lado místico e misterioso desse mundo mágico. A incerteza, o mistério, as lendas, as revelações, os segredos ou verdades que ninguém ousa falar ou descobrir, são todos elementos que dão um quê interessante nas histórias de magia e fantasia. Tudo muito claro perde um pouco de seu encanto e diminue a curiosidade. A falta desses elementos e a simplicidade dos personagens e do enredo que reservaram ao romance o título de um passatempo. Não é das melhores opções, visto que temos muita coisa boa do gênero por aí.

Resenha: Do Jeito que você gosta

E chegamos ao fim, um tanto atrasados, do nosso especial Shakespeare. Hoje irei falar de uma peça não tão conhecida, que foi recentemente publicada pela Balão Editorial, em uma nova tradução realizada pela Cia. Elevador de Teatro Panorâmico. Para começar, vamos falar do enredo grifando os personagens.

Duque Frederico é um homem rico e poderoso que baniu seu irmão, o Duque Sênior, para tomar seu lugar. É pai de Célia, prima quase irmã de Rosalinda. Incomodado pela presença da sobrinha, o duque expulsa Rosalinda de suas terras. Contudo, a proximidade das duas é tão grande que quando ela parte vestida de homem – e agora se chamará Ganimedes -, Célia a acompanha, chamando-se, a partir daquele momento, Aliena. Olivério é um irmão severo e ambicioso que detesta seu caçula, Orlando. Este é criado com os servos, não recebendo educação ou um lugar na nobreza, como bem mereceria por também ser filho de Sir Rolando de Boys. Olivério concede a liberdade a seu irmão, que sente-se preso naquela odiosa vida perto ao que tanto detesta. Porém, tudo não passa de uma armadilha e logo Orlando se encontra apaixonado e em uma enrascada. Ele está sendo perseguido pelo Duque Frederico e nesse meio tempo cai de amores por Rosalinda ( que também corresponde a paixão ). Junto com seu fiel servo, vai para o exílio perto do duque banido, onde também se encontram Rosalinda e Célia disfarçadas. Com vários romances complicados e entrelaçados, difarces e tiranos, está aí uma comédia divertida, no estilo Shakespeare, do qual todo mundo gosta.

Devo confessar que, do que já li de Shakespeare, a história não a das mais interessantes. Contudo, Do jeito que você gosta ganha o leitor por vários outros elementos, principalmente por suas passagens inteligentes e bem colocadas – como é típico de Shakespeare. Na entrevista ao final do livro, a qual comentarei melhor mais tarde, os tradutores comentam brevemente o título do livro. Shakespeare quis colocar na peça todos os elementos que o público gosta, para assim ser um espetáculo como você gosta. Acredito que talvez por isso a história não seja a das mais chamativas ou interessantes. O que encantava e divertia a todos na época do grande dramaturgo já não tem o mesmo efeito atualmente. Por mais que, como já falei no começo do parágrafo, a peça tenha outros meios de conquistar seu leitor/espectador. As passagens são muito boas, talvez seja uma peça com passagens ainda melhores que obras mais famosas do autor. Minha vontade era de selecionar várias, mas me contive e, mesmo assim, ultrapassei o recomendado. O destaque dos personagens, para mim, é Toque, o bobo da corte. Ele é responsável por várias ótimas passagens, além de trazer cenas muito boas, sempre carregadas de sarcasmo ou gozação. Uma das melhores partes é quando vemos Rosalinda, como Ganimedes, conversando, testando ou até mesmo incitando Orlando, seu amado.

A tradução ficou muito boa, um ótimo trabalho da companhia de teatro. As colocações mais modernas ficaram bem estranhas no texto, mas compreendo, ainda mais com as notas de tradução, que foi necessária uma adaptação já que os termos utilizados originalmente fariam sentido somente na época de Shakespeare. Sobre as notas, são bem completas e explicativas, gostei muito de como foram colocadas. A entrevista ao final do livro, realizada com a companhia durante o período que a peça esteve em cartaz no ano passado, é muito interessante, somente complementando a leitura. O meu comentário sobre o título partiu de um ponto da entrevista, por exemplo. Outro fato interessante é que uma das mais famosas traduções para o português trazem Como gostais como título. Estranho como, não só esse, mas também outras traduções para o título, sempre soaram mal. Este atual foi um dos únicos que realmente gostei.

Por fim, está aí uma obra menos conhecida de Shakespeare com ótimas passagens. Uma comédia com confusões românticas e final feliz que traz muito, que todos gostam, do grande dramaturgo.

Confira duas passagens que separei:

Ora, disse bem. Acabo de me lembrar de um ditado: “O tolo é aquele que pensa que é sábio; mas o verdadeiro sábio é aquele que se reconhece um tolo”. Os filósofos de antigamente, quando tinham o desejo de comer uvas, abriam seus lábios ao pôr-las na boca, significando assim que uvas foram feitas para serem comidas e lábios para se abrir. Você ama esta donzela? [Toque, o bobo da corte]

Cantarolam uns versos bacanas

Dizendo que a vida é só pra quem ama

Viva o presente, aproveite seu dia

A vida é pequena, apenas sorria

Vamos amar!

[Balada do segundo pagem]

Algumas capas do livro:

Capa estilo desenho de “As You Like It”

Capa de box com a peça gravada em áudio


Resenha: A Megera Domada

A adaptação que li

O segundo livro do nosso breve especial de Shakespeare –  só de comédias e em homenagem ao dia dos namorados – conta sobre uma personagem feminina pra lá inflexível e emburrada. Vamos, como na última resenha, falar do enredo grifando os personagens.

Batista é um homem de grande fortuna que tem duas belas filhas. A mais velha, Catarina, é brava e insolente, sempre espantando seus pretendentes. A mais nova, Bianca, é doce e e gentil, atraindo para si muitos homens que desejam sua mão. Porém, para o azar de todos, o pai decide que Bianca só poderá se casar após Catarina ser desposada. E todos perguntam: o que fazer para arrumar um marido para a diaba? Eis que chega à cidade Petrúquio, um homem rude e bem doido que aceita se casar com Catarina somente por seu dote. Louco de um modo bem peculiar, ele fará a megera passar por poucas e boas a fim de domá-la. Em contrapartida, temos os cavalheiros disputando pelo amor de Bianca. Lucêncio acabou de chegar na cidade e já caiu de amores pela jovem. Troca de lugar com seu criado, Trânio, e se disfarça de professor particular para poder conquistá-la longe de olhos curiosos. Enquanto isso, seu criado garante a aprovação do pai, comprovando sua fortuna. Grêmio e Hortênsio também disputam a mão da jovem, sendo que este último também se disfarça, porém de professor de música, para conquistar a jovem em particular.

Ilustração da capa pela Anna Anjos

A Megera Domada é um livro super divertido e engraçado com personagens atrapalhados e/ou metidos em enrascadas que garantem uma confusão geral. O modo como todos temem Catarina e como esta não nega seu título de diaba ou língua de cobra é logo a primeira impressão que temos da história. Daí a ver como Petrúquio lida com ela, fazendo-a passar pelas situações mais loucas e imprevisíveis, o enredo só fica melhor. Os criados, no geral, também têm suas cenas. Todos eles são bem atrapalhados e se perdem mais ainda com as estranhas exigências – vários disfarces e outras ordens ainda mais loucas tratando-se de Petrúquio com Catarina – de seus patrões. Uma comédia descontraída com personagens marcantes.

A edição que eu li foi uma adaptação escrita por Walcyr Carrasco, por sinal muito boa, com várias notas de tradutor. Shakespeare faz sempre várias referências a outras histórias, além de contar as coisas como eram naquele tempo ( o que às vezes confunde o leitor que não tem uma observação à mão ). O autor ( Walcyr ) também sempre chama a atenção para algumas expressões ou adjetivos que ele preferiu utilizar em sua versão e quais são eles(as) no original. É um ótimo livro, a edição vale bastante a pena. Minha única reclamação ou dúvida foi a respeito do final, quando percebemos levemente que Petrúquio talvez tenha tido seu gênio domado por Catarina, por quem acabaria se apaixonando. Não sei se no original isso ficou mais claro – o que seria ótimo, pois mostra que o casamento não se trata somente de acordos e que o amor pode surgir das formas mais inesperadas -, mas na adaptação esse detalhe mostrou-se bem vago.

Confira algumas capas do livro:

Capa de uma adaptação da história

 Não percam, no domingo, a resenha do último livro desse especial shakespeariano! Trata-se do lançamento da Balão Editorial, Do Jeito que você gosta, uma comédia não tão conhecida do dramaturgo.

Resenha: Sonho de uma noite de verão

Capa da edição da LPM que eu li

Já falei várias vezes que esse é o meu livro favorito ( dos que li, claro ) do grande Shakespeare. E, por conta do meu projeto Semana Shakespeare, em homenagem ao dia dos namorados, essa apaixonante comédia não podia deixar de ser relida. Pois vamos então, agora, sonhar sob os feitiços dos travessos serventes de Oberon e Titânia.

Algo muito importante em peças, é sempre saber quem é quem, a fim de não se confundir ao decorrer da dramatização. Vamos conhecer os personagens em negrito enquanto conto um pouco do enredo. Hérmia é uma bela jovem, filha de Egeu, que ama Lisandro e é correspondida. Contudo, Demétrio também ama Hérmia e o pai da moça permite que o rapaz a despose, por mais que ela não goste dele e prefira que outro tome sua mão. Helena é apaixonada por Demétrio, que a rejeita, só tendo olhos para Hérmia. Teseu e Hipólita são o casal real de Atenas e eles estão prestes a se casar. O duque deseja que Hérmia, no dia de seu casamento, ou se case também, porém com Demétrio, ou se ofereça à morte, por desrespeitar a vontade do pai. Para poder escapar desse trágico destino, os amantes desafortunados, Hérmia e Lisandro, planejam escapar de Atenas pelo bosque. Porém Helena fica sabendo da fuga e conta a Demétrio, que não tarda a correr atrás dos dois com a jovem apaixonada em seu encalço.

Na floresta, há várias fadas e duendes e outra situação. Oberon é o rei. Titânia a rainha. Por diversas razões ambos têm brigado muito. Oberon deseja o pagem da rainha e, para isso, fará ela se apaixonar pela primeira besta que vir pela frente, pingando em seus olhos o sumo de uma flor flechada pelo cupido. Só que, com a tal flor em mãos, ele vê Demétrio e Helena, ficando com dó da jovem. Ordena a seu atrapalhado duende que faça um jovem ateniense se apaixonar por Helena. Perdido, o ser das florestas encanta Lisandro, que persegue Helena e esquece Hérmia. E é esta só uma das muitas confusões que aguardam os amantes nessa noite de verão…

A história é bem divertida e com falas muito bonitas. Como é típico de Shakespeare, o lirismo está super presente na dramatização, gerando várias passagens belíssimas que impressionam o leitor. Uma que me chamou bastante a minha atenção, apesar de não ter sido a mais bonita ou poética, foi a seguinte:

Helena: Sua virtude é minha proteção, pois, quando vejo o seu rosto, não é noite e, assim sendo, penso que não saí à noite. Tampouco este bosque carece de mundos de companhia, pois você, aos meus olhos, é o mundo todo. Então, como pode-se dizer que estou sozinha se o mundo todo está aqui, olhando para mim?

As melhores partes são com certeza no bosque, porém, uma das minhas cenas favoritas é a do final, quando todos se reúnem para o casamento e há a apresentação da peça de Príamo e Tisbe, encenada pelos trabalhadores atenienses.

É uma leitura leve e rápida, por se tratar de uma peça, inclusive bem curta. Perfeito para um tarde de domingo, principalmente se for de verão…

Confira algumas capas do livro:

Capa versão Twilight figurando as tais flores lilases flechadas pelo cupido

Capa de um versão em HQ publicada pela editora Nemo

Depois que eu percebi que esse se trata de um cartaz de uma montagem da peça, na verdade. Mas é tão bonito que decidi colocar aqui assim mesmo.

Resenha: Branca de Neve e o Caçador

A segunda e última adaptação do conto da Branca de Neve de 2012 chega às telonas. Diferente do divertido Espelho, Espelho Meuesse longa traz uma versão mais sombria para a história da princesa. Com sua atmosfera dark e fantasiosa, um elenco admirável, cenários, figurinos e efeitos especiais belíssimos, a super produção tinha tudo para ser épica. Porém, permaneceu só no “legal”. Vale seu ingresso. Mas podia valer uma dúzia deles – e com certeza custou ao estúdio tanto quanto.

A mais bela, como também a mais cruel e mortal…

A história vocês já devem conhecer bem. A princesa, perseguida pela rainha ( que nesta versão deseja seu coração para alcançar a imortalidade! ), é encurralada pelo caçador mercenário, o qual cai pelos encantos da bela jovem. Esta é a única do reino que poderá, além de matar a rainha má, subir ao trono para instalar a paz novamente. Fugindo dos exércitos de sua madrasta, nossa doce heroína deve rumar até o castelo e destruir a fonte de todas aquelas trevas que devastam sua terra. Os anões, eternos amigos da princesa, aparecem já para a metade do longa, com o caçador ao lado da moça, como seu fiel escudeiro. O príncipe, que tem um papel bem maior, escapa de seu reino em nome do grande amor de sua infância e, ao encontrá-la, torna-se uma ponta da tensão/triângulo amoroso, do qual o caçador faz parte.

Vai servir à rainha ou servir à rainha? Olha a democracia no castelo das trevas aí gente!

O filme mescla ação e suspense com um pouquinho de drama e romance. A aventura é bem legal e os efeitos e cenários estão fantásticos, como já disse anteriormente. Com uma proposta super interessante, o roteiro tinha tudo na mão, sem nem contar com a produção toda que ganhou, para ser um arraso. Porém, faltou emoção. A relação de todos os personagens é muito mal conduzida. As intenções do roteirista de instaurar uma rivalidade entre a madrasta e a enteada – ou um melhor desenvolvimento de ambas, que são curiosas personagens, sendo uma cruel e poderosa e a outra gentil e frágil, com passados marcantes e trágicos -, uma tensão amorosa entre o caçador e a princesa e mais tarde entre esta e o príncipe, uma amizade entre a mais bela de todas e os anões, além de uma posição mais firme da heroína ao final são muito boas, de fato. Mas para por aí. Não há profundidade, não há um desenvolvimento. O bom trabalho dos atores – com exceção de, claro, Kristen  Stewart, sobre a qual já falo um pouco – não foi suficiente para conseguirmos  personagens cativantes ou com presença. Faltou emoção na colocação de diálogos, cenas etc. Flashbacks tiveram alguns. Mas não foram suficientes para construir, realmente, um bom personagem. Figuras vazias não produzem emoção. E sem emoção não há uma produção empolgante de fazer o público vibrar, o que era bem capaz de esse filme se tornar.

Durante a fuga na Floresta Negra, Kristen continua com sua expressão sofrida-confusa digna de Oscar…

Agora, sobre a Kristen. Eu tentei olhá-la sem preconceitos, afinal, não é melhor apagar as marcar do passado e dar uma segunda chance? Segunda chance dada. Ela não aproveitou. Seu olhares e vazios e quase sempre sofridos – tudo no padrão sofrido: sofrido assutado, sofrido apaixonado, sofrido sofrido, sofrido empolgada, sofrido orgulho… – não dão alma ou figuram o papel que a amável princesa tanto exige. Sei que foi tudo marketing, até porque tem que ser um pouco louco pra gostar do trabalho dela, mas podiam economizar o tanto – e põe tanto nisso – que devem ter gastado pagando a Bella e escalar uma atriz até popular, mas descente. E acreditem, há muitas com esse perfil por aí que honrariam a personagem. Quanto ao resto do elenco, estão todos muito bons, com destaque para Charlize Theron, que está linda, mortal e cruel na medida certa.

Adorei essa cena!

A decepção é que não foi o ótimo filme que podia ter sido. Mas, mesmo assim, é diversão garantida e uma recontagem interessante do conto de fadas.

Resenha: Feios

Essa onda de distopias, pela qual Jogos Vorazes ( livro e filme ) é um dos grandes responsáveis, me fez correr atrás de alguns títulos que falam sobre o tema.  Feios está na lista de leituras há tempos e ganhou um lugar mais concreto após de uma das maravilhosas promoções do Submarino. Acabou que descobri uma saga super legal e um autor ótimo, do qual espero ler mais em breveOs Vampiros de Nova Iorque – Os Primeiro Dias é o próximo da lista!. O livro tem o fator distopia bem latente, provavelmente tudo que esperava de Destino e mais um pouco. Os personagens são interessantes, principalmente com todo seu pano de fundo, e suas relações são bem desenvolvidas. Mesmo com alguns equívocos, está aí uma obra que vale a pena, principalmente se você mergulhou nessa de sociedades controladoras.

Capa americana de “Feios”

Tally é uma feia. E isso não significa que ela é horrenda. Seu corpo tem imperfeições, como todos menores de 16 anos, o qual ficará ótimo após a operação que a transformará em perfeita. Enquanto os feios estudam e se divertem limitadamente em subúrbio afastado da grande cidade, os perfeitos gozam da boa vida, com festas dia e noite, sem barreiras. Cabe aos moradores dessa vila do outro lado do rio, sonharem com o dia quando poderão ser exuberantes e estarem no meio daquelas luzes brilhantes e pessoas sorridentes. E Tally não é diferente. Só Shay.

Shay é uma menina magrela e aventureira de olhos bem separados. Ela fala coisas estranhas sobre a cirurgia, parecendo às vezes que não quer completar seus 16 anos, o que deixa Tally, que logo vira sua amiga, bem confusa. As duas se divertem quebrando regras dos feios até o momento que Shay vai longe de mais e foge dos limites da cidade e do subúrbio. Ela se dirige para a Fumaça, uma comunidade de rebeldes que não querem ser operados, que viverão feios para o resto de suas vidas – o que apavora Tally.

Mas quando a operação da jovem é colocada em cheque, pois os Especiais ( policiais secretos que cuidam desses assuntos de rebelião ) querem sua ajuda para encontrar Shay, ou melhor, a Fumaça. Deverá ela abandonar seus sonhos de uma vida inteira a favor de uma garota que conheceu a pouco tempo? Pensando nisso é que Tally embarca numa expedição até à Fumaça, a serviço dos Especiais, onde conhecerá o outro lado de toda essa história de perfeição. Dividida entre novos e velhos conceitos, muitas decisões deverão ser tomadas, e nenhuma delas tão perfeita assim…

Capa britânica de “Feios” pegando carona no sucesso de “Jogos Vorazes”

Como comentei logo no início, a distopia criada por Scott Westerfeld é fantástica. Os conceitos que ele inventou e desenvolveu, o modo com a sociedade vive e como as pessoas são separadas e pensam são muito interessantes. Ele também dá um toque de ecologia à história, comentando não só da desigualdade da beleza que prejudicava os Enferrujados – nós! -, mas também da nossa burrice em gastar todos os recursos disponíveis. Tally fica apavorada quando vê os Esfumaçados – rebeldes da Fumaça – cortando árvores, pois sua sociedade é completamente sustentável, para se ter uma ideia.

Os personagens me convenceram, gostei de muitos deles, até mesmo os vilões. O que pegou foram algumas coisas que os YA sempre repetem: as forçações. Tally viveu todos seus 16 anos quase sem contato com a natureza. Para chegar na Fumaça, ela embarca numa expedição no meio da vida selvagem, na qual se sai muito bem, considerada uma heroína quando enfim entra na comunidade rebelde. As instruções de Shay que a levam até lá também são muito vagas, mas ela não parece ter problemas com isso, resolvendo tudo bem rápido. Outras coisas também passam pelo leitor com uma pulga atrás da orelha, como quando os Especiais entram em ação. Se vocês são cruéis e querem proteger a sociedade alienada que preservaram por tanto tempo, por que não apelar para agressão e talvez morte de rebeldes? Quando tanto está em em jogo, não acredito que possa haver diplomacia. A narrativa de Scott Westerfeld é bem escrita, gostei bastante. Um dos motivos que me inspira a buscar por mais se seus trabalhos.

Capas americanas da série “Feios”

Feios é primeiro volume de uma série de 4 livros, dos quais todos foram publicados tanto lá fora como aqui no Brasil. Perfeitos tem uma proposta bem bacana, já entrou na lista. Mas os equívocos atrasaram a leitura a ponto de colocar a outra série – sobre vampiros – do autor na frente dessa sequência. Se não fossem eles, seria tudo perfeito.