Resenha: Jovens Adultos

Todos sabemos que crescer pode ser, realmente, bem complicado. Quantos amigos de escola não permanecem naquele mesmo esquema de ensino médio mesmo algum tempo após a formatura ou a entrada a faculdade? Alcançar a maturidade não é para todos, só a idade que ninguém consegue escapar.

Cartaz americano do filme que ilustra de outra forma a protagonista versão matinal

É exatamente sobre isso que fala Jovens Adultos, roteirizado por Diabo Cody ( que escreveu o excelente Juno ), um drama com leves toques de comédia sobre uma mulher de quase quarenta anos que se prende à glória de seu passado escolar. Esta é Mavis, uma escritora fantasma muito bonita e talentosa que está passando por essa crise “adolescente”. Solteira e solitária, ela se vê com o último romance de sua saga para jovens adultos ( adorei a abordagem do gênero literário YA – Young Adults, ou Jovens Adultos – , na história ) em produção, lembrando-se dos seus tempos de escola e, principalmente, da sua paixão da adolescência: Buddy. Determinada, ela viaja até sua cidade natal, onde reecontra várias pessoas que estudavam com ela e consegue rever o tão desejado ex-namorado. Acontece que agora ele está casado e com uma filha bebê, ou seja, nem um pouco disponível. Contudo, passional, atrevida e iludida como uma garota de 15 anos, Mavis investe em seus flertes com Buddy, não ligando para a opinião alheia ou para o casamento dele.

Mavis com cara de poucos amigos ao ver que as coisas não vão tão bem assim…

À medida que vemos suas tentativas em se reaproximar de Buddy, também conhecemos um pouco mais de sua rotina e de suas manias. Um fato interessante e bem expressivo é que ela sempre acorda tarde, arrasada, com cabelos desarrumados e um rosto bem abatido, saindo por aí muitas vezes com pijama e um casaco por cima. Enquanto à noite, ou pelo menos no final da tarde, ela está rigorosamente arrumada e chique. Passa bastante maquiagem e toma muito cuidado com seu cabelo, fazendo diversos efeitos ou colocando um aplique. A história que ela está escrevendo, a qual muitas vezes escutamos alguns trechos, reflete muito sua própria vida e estado de espírito. Para o final isso se torna ainda mais evidente. A direção é muito bem feita. O filme é conduzido basicamente pelo ponto de vista de Mavis, colocando bastante o destaque na personagem e na atriz, desafio bem aceito e conduzido por Charlize Theron. Ela é o destaque do filme. Creio por esse enfoque na Mavis e sua visão de mundo – que foram belamente trabalhados pela atriz, como já bem disse – os outros atores não ganharam um brilho ou reconhecimento muito grande, apesar de nenhum personagem ser deixado de lado por completo ou muito pouco desenvolvido. Sempre os revemos em outras cenas, principalmente no desfecho da história.

Pois é, infelizmente o visual do cartaz americano não era promocional. Ela realmente anda por aí assim de manhã…

Em alguns momentos o filme pode parecer um pouco lento, com o propósito de retratar a solidão e o tédio de Mavis. O bacana do longa é refletir sobre essas pessoas que são como a protagonista, vazias, perdidas, lembrando de seus tempos de adolescente onde tudo era mais fácil e glorioso. Buscar atenção no colégio sempre é bem mais fácil do que conseguir um lugar ao palco na vida adulta. O humor variável e egoísta também é um aspecto interessante e bem característico desses jovens adultos. Charlize bem nos mostra como certas vezes essas pessoas podem estar por demais iludidas ( ou até mesmo com tudo na mão ) e, por isso, com uma postura mais confiante e sexy, como já estivessem de jogo ganho, e, outras vezes, quando a situação foge do controle ou não está bem como desejam, ficam perdidos, entediados e até mesmo agressivos ou mal educados.

Foto da ótima cena na qual Mavis é praticamente menosprezada pelo vendedor de uma livraria que vende “sua” saga.

Jovens Adultos vale seu tempo, se, claro, a proposta te agradar. É um filme bem interessante que faz refletir sobre o que fazemos com nossas vidas e o que realmente queremos fazer. Sobre nossos objetivos e os motivos pelos quais queremos os alcançar. A vida adulta é muito complicada, ainda mais se não estivermos prontos para ela.

Indicação de Filme: A Vida Secreta das Abelhas

Tanto tempo que não apareço aqui né gente? Já estava com saudades, afinal não tem um post que publico no Blog das Resenhas que não receba comentários. É praticamente mágica, por isso muito obrigada!

O filme que vou falar hoje é ‘A Vida Secreta das Abelhas’, um dos meus filmes favoritos e, por incrível que pareça, da minha mãe também (podia falar isso aqui?). Na verdade as pessoas me pedem muitas dicas de filmes e sempre recomendo os meus favoritos ou os últimos que assisti. E esse sempre, sempre, sempre mesmo! Esse é bem elogiado, então vamos lá?

O filme a Vida Secreta das Abelhas se passa na racista Carolina do Sul de 1964. E conta a historia de Lilly Owens, uma garota de 14 anos que sofre pelo fato de ter causado um acidente que levou a morte de sua mãe. Ela vive com o pai T. Ray (Paul Bettany) que a maltrata por não perdoa-lá pelo ocorrido. Sem conseguir respostas de sua mãe através do pai, Lilly decide fugir com sua melhor amiga e empregada Rosaleen (Jennifer Hudson) mas a única pista que pode levá-las ao passado de sua mãe é uma pequena cidade do interior. Na cidade, elas conhecem as negras August (Queen Latifah), June (Alicia Keys) e May (Sophie Okonedo), que vivem de fabricação de Mel e são completamente respeitadas e totalmente independentes; e ao contrario do que Lilly pensa as irmãs Boatwright tem muito a dizer a ela.

O longa metragem é baseado no livro ” A vida secreta das Abelhas” escrito por Sue Monk Kidd que foi um premiado best seller. Assim como o livro, o filme é maravilhoso e nos deixa inúmeras mensagens sobre a vida mostrando que passado, presente e futuro se misturam como os favos de uma grande colméia chamada vida.

Com roteirista, escritora, diretora e as atrizes principais mulheres não tem como negar que o filme tem uma visão bem feminina. Os temas principais abordados são o  racismo e a vida em família, talvez muitas pessoas achem que o filme seja um tanto sentimentalista, por passar mensagens defendendo o correto, o bonito e principalmente o sensível. Mas na minha humilde opinião, vale muito a pena assistir. E se você ainda pensa que filmes assim são para “mulherzinhas”, tá na hora de se desapegar desse estereótipo!

Lembrando que nesse filme a Dakota ainda esta bem novinha, mas radiante. Ela protagoniza seu primeiro beijo na telinha e sim com o menino cuja a cor da pele é diferente da dela. Não isso não é um acesso de racismo (mesmo porque nem sou), mas a questão é que isso a 50 anos atrás era totalmente inimaginavel.

Também esta no elenco Jennifer Hudson, Alicia Keys e Queen Latifah, ambas cantoras e atrizes repletas de prêmios.

Pra quem esta estudando o racismo na escola, essa é uma boa dica. Sempre procuro assistir filmes históricos, assim fixo mais sobre o que estou aprendendo ou o que já vi. Ajuda bastante!

 Trailer:

Já tinham assistido o filme? O que acharam? Comente.

Resenha: O Circo da Noite

O Le Cirque des Revês ( O Circo dos Sonhos, em francês ) é um lugar diferente de tudo que você possa imaginar. Suas tendas, sempre enfeitadas por listras pretas e brancas, guardam fantásticas atrações. Seus pátios são belamente iluminados e estão sempre cheios de vendedores das mais espetaculares criações culinárias: cidras, maçãs caramelizadas, camundongos de chocolate e muito mais. E um lugar fantástico não pode ser habitado por pessoas nada menos do que fantásticas. Seus contorcionistas, videntes, ilusionistas e acrobatas são figuras extraordinárias com histórias cativantes. Atravesse os portões abertos após o cair da noite e aventure-se nesse espetáculo jamais antes visto.

A água cai com tanta intensidade ao redor que ela mal consegue enxergar alguns passos à frente, mas continua seca e aquecida. Estende a mão para além da proteção do guarda-chuva, examinando-a com atenção, mas nem um pingo de chuva cai nela. Aqueles que se aproximam muda de direção antes de esbarrar naquela luva, desviando-se como se ela estivesse envolvida por algo invisível e impermeável.

É nesse momento que Celia percebe que o guarda-chuva que está segurando não é seu.

- Página 153

O Circo da Noite conta a história de diversos personagens envolvidos na criação e manutenção desse fabuloso lugar. Celia e Marco são dois jovens criados por dois grandes magos ( Alexander e Hector ) que ensinam aprendizes selecionados a fim de colocá-los frente a frente num duelo, ao qual os pupilos se comprometem bem pequenos. Eles vêm fazendo essas competições durante anos, sempre armando tudo para encontrar ou criar um lugar próprio para o duelo. Desta vez, este será o circo. Dentre as fantásticas tendas e atrações, os dois personagens estão numa mágica competição de inúmeras consequências. Em paralelo à história dos dois, que por mais que pareça importante, na maior parte do livro não recebe tanto destaque perto das outras, conhecemos Bailey, um menino apaixonado pelo circo, Poppet e Widget, irmãos gêmeos de habilidades fantásticas, Herr Thiessen, o criador do maravilhoso relógio exposto na entrada do circo e o maior divulgador do espetáculo, além de vários outros. Um fator interessante é que todos personagens são bem desenvolvidos. O leitor pode se interessar por qualquer figura, por menos frequente que esta seja na história, pois todos são bem descritos e trabalhados. Algumas pessoas reclamaram sobre esse desenvolvimento extenso de vários personagens e não tanto foco nos protagonistas, mas achei que a autora soube colocar isso bem, de modo que podemos conhecer os envolvidos no circo e gostar de cada um de jeitos diferentes e especiais. De qualquer forma, é fato que isso estendeu demais, por exemplo, o início do livro, podendo-o tornar devagar algumas vezes.

Capa de uma edição americana de “O Circo da Noite”

A autora não tem uma linha do tempo fixa. Ela transita entre o presente e o futuro ( podendo este ser um ou dez anos mais tarde ). Isso é confuso a princípio, mas logo nos acostumamos. Ao final, essa transição faz muito sentido e se mostra bem utilizada. Só friso para a importância de sempre ler o lugar e a data de cada capítulo. Muitas vezes eu só passava os olhos e sempre tinha de voltar para ter a certeza do ano e da cidade. A narrativa de Erin Morgenstern é muito bem escrita. Ela tem um apelo visual muito forte, tornando o circo bem nítido em nossa imaginação, assim como os truques de mágica e outras atrações. Alguns trechos ( quase que mini capítulos ) em cada parte do livro, trazem uma narração em segunda pessoa sobre certas tendas e exibições do circo. São interessantes e bem descritos, nos sentimos, realmente, no circo da noite.

Muitos visitantes apenas lançam um olhar antes de prosseguir, porém, quanto mais se observa, mais se podem perceber alguns movimentos sutis. A mudança na curva de uma das mãos pairando sobre um braço. O ângulo que se altera em uma perna perfeitamente equilibrada. Sempre gravitando um em direção ao outro.

Mas sem se torcar.

- Página 215

Com romance, magia e drama, O Circo da Noite me conquistou. Virei sua última página, mas minha cabeça foi com o trem que leva o circo mundo a fora. É um romance para se imaginar cada linha, desenhar cada tenda e conhecer cada personagem. Uma obra para se envolver e participar da trama de coração. Não vá esperando um duelo entre magos poderosos ou um romance de tirar o fôlego. Você vai até encontrar isso, mas antes, se depare com o circo que chega sem aviso, um circo que é bem mais grandioso do que aparenta, do qual você não exitará em fazer parte.

Resenha: Os Descendentes

Tem momentos que a vida simplesmente se torna complicada demais para se viver. Os Descendentes tem início num desses complexos momentos, paralisando instantaneamente Matt ( George Clooney ). Sua esposa sofreu um acidente de barco e acaba em coma, com grandes riscos de morrer. Suas filhas não estão lidando bem com a situação – um tanto revoltadas – e ele não sabe lidar bem com isso, ainda mais com a ausência da mãe. O pai de família também tem assuntos de negócios a tratar com seus primos a respeito da venda de uma propriedade de seus antepassados. Ou seja, um turbilhão de problemas na frente de quem estava acostumado a tratar somente de seu trabalho e permanecer cego para o resto.

A filha mais nova, Scottie ( Amara Miller ), anda implicando com outras garotas e meio perdida com suas amizades. A mais velha, Alex ( Shailene Woodley ), anda bebendo e escapando de seu quarto no campus da faculdade. Diferentes maneiras de demonstrar seu descontentamento com o risco de perda da mãe. Como Alex tem mais juízo e noção do que a mãe fazia quando viva, ela que se aproxima de Matt na busca por consertar as coisas. Ao lado de seu amigo Sid ( Nick Krause ), um garoto desmiolado e um tanto sincero demais, eles tentam lidar com essas difíceis situações e com as surpresas e descontentamentos que o fim da vida de Elizabeth os aguarda.

Um pouco antes do acidente acontecer, Elizabeth estava traindo Matt com outro homem, o que foi descoberto por Alex e consequentemente foi o motivo de uma briga da filha com a mãe. Ela revela esse fato com muito pesar para seu pai, que fica indeciso sobre o que fazer. Eles buscam descobrir mais do amante, chegando mais perto de realmente o conhecer, o que confronta os personagens com a pergunta: o que dizer/ fazer quando se encontra o amante de sua esposa à beira da morte?

Os Descendentes tem uma proposta comovente e sensível, apesar de não ter muito desses aspectos. Achei que, devido a toda a situação da família, faltou afeto entre os personagens. Somente vemos algumas poucas cenas tocantes entre eles e outras de cooperação, mas quase nenhuma onde eles demonstram amor e carinho uns pelos outros. Gostei bastante da direção, que parece feita na primeira pessoa. É como se o filme fosse exibido a partir do ponto de vista de Matt, como creio que é narrado o livro no qual a produção é baseada. O início apresenta uma narração do protagonista explicando os fatos juntamente com as cenas dos mesmos transcorrendo. Durante ela, aparecem ótimas frases que creio terem sido retiradas da obra. Outro ponto fraco do filme é o fato de tudo cair mais para as costas de George Clooney. Em uma de suas melhores atuações – não é a toa que foi indicado ao Oscar com esse filme -, ele não só ganha foco por ser o protagonista, mas por se destacar em meio ao resto do elenco e de carregar sozinho aquela indecisão e sofrimento contidos que o filme tenta passar. Ainda que falte um pouco mais de sensibilidade, ele foi o personagem que melhor coube com a proposta.

Indicado a 4 categorias do Oscar: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. Se tivesse de apostar em alguma coisa para o filme, diria melhor ator. George Clooney realmente está muito bem, mesmo que eu não tenha visto nenhum filme de seus concorrentes. Vamos torcer para que ele leve a estatueta para casa, pois está de parabéns por sua atuação, de verdade! Em todas as outras categorias, acredito que seus concorrentes são fortes demais para o filme que é. Não é tão bom assim para enfrentar produções que estão ganhando tamanho destaque e elogios. De qualquer forma, não custa ter esperança com o melhor roteiro adaptado…

Com alguns fatores fracos que o rebaixam, Os Descendentes poderia ser bem melhor se fosse mais bem cuidado.

Esse post faz parte do especial de Indicados ao Oscar 2012. Blog das Resenhas e Vende-se Cadeiras.

Resenha: Pequena Abelha

Na época que foi lançado, a sinopse do livro era divulgada como um segredo a ser guardado a sete chaves. Juntando essa curiosidade que o marketing criou e palavras como “perturbadora”, “excitante” e “impressionante” em trechos publicados por importantes jornais e revistas estrangeiros, a obra chamou a atenção de muitas pessoas por aqui, apesar de , mais tarde, não ganhar uma repercussão tão grande como livros que tratam da mesma temática ou com o mesmo tom ( vide A Menina que Roubava Livros ou O Caçador de Pipas ). Senti-me atraído pelo livro de imediato, mas, como não pude lê-lo na época de seu lançamento, fui acompanhando o burburinho que se criou envolta dele quando este chegou às livrarias até que isso cessasse e ele não acabou sendo lembrado como esperava que fosse. Estranhei bastante esse fato, mas ainda estava interessado pela leitura. E na primeira oportunidade que tive, peguei emprestado e comecei a ler. Agora, cá estamos.

Antes de tudo, concordo com o que vem dizendo sobre a sinopse que nada revelava da história ter sido um exagero. Mas, de qualquer forma, também acho que combina com o livro o mistério do que aconteceu com as duas mulheres ter sido preservado – veja bem, seria não contar muito, não simplesmente não contar. O autor faz bastante suspense quanto a isso no romance, por tanto, seria incoerente a sinopse revelar mais do que o autor vai nos revelando em doses homeopáticas. O fato do “grande” segredo do livro ter decepcionado tanta gente foi culpa do autor. Ele que faz muito mistério com o ocorrido e quando esperamos nos deparar com algo extraordinário, lemos exatamente algo que já estávamos esperando ou algo que simplesmente não condiz com aquelas partes todas em que os personagens hesitavam muito em falar do ocorrido. O problema de Pequena Abelha é seu ritmo, o modo como a narrativa se desenrola.

Chá tem o mesmo gosto da minha terra: é amargo e quente, forte e carregado de lembranças. Tem gosto de saudade. Tem o gosto da distância entre onde você está e de onde você veio. E também desaparece – o gosto desaparece na língua enquanto os lábios ainda estão quentes da xícara. [...] Ouvi dizer que em seu país se toma mais chá do que em qualquer outro. Imagino como isso deve deixar vocês tristes – iguais a crianças que anseiam pelas mães ausentes. Sinto muito. – Página 136

Vou seguir o que todos estão fazendo e não revelar nada da história, podem ficar tranquilos. O livro é narrado pelas duas mulheres descritas na sinopse: Pequena Abelha e Sarah. A primeira é uma menina nigeriana que teve um contato com Sarah há dois anos e a reencontra logo no início do livro. Já Sarah é uma jornalista britânica que tem um filho chamado Charlie, um menino de 4 anos que vive vestido com a roupa do Batman. De vários capítulos bem longos, o livro é narrado ora por Sarah ora por Abelinha*. Enquanto Sarah é uma personagem sofrida e extremamente seca, Pequena Abelha é uma jovem ingênua e hesitante, que tenta ver as coisas belas da vida ao seu redor. Tem momentos de extrema tristeza e dureza, mas em boa parte ela mostra ter traços de Pollyanna ( lembra a menininha super positiva do clássico americano? ). Não preciso nem dizer que gostei mais dos capítulos narrados por Abelinha, não é? Sua narrativa é interessante, comovente e instigante. Acredito que os adjetivos usados nas resenhas e notas dos jornais e revistas que se encontram na capa e na contra-capa do livro se refiram, em sua maioria, às partes de Abelinha, uma vez que quase todos capítulos com Sarah são alguns dos pontos fracos do livro.

*Em inglês, seu nome é Little Bee, que tanto pode ser traduzido para o português como Pequena Abelha ou Abelinha. A tradução alterna entre os dois nomes.

Imaginem como seria cansativo para mim contar minha história para as garotas da minha terra. Essa é a verdadeira razão por que ninguém conta nada para nós, africanos. Não é porque desejem* manter meu continente na ignorância. É porque ninguém tem tempo de sentar e nos explicar o Primeiro Mundo desde os princípios básicos. Ou talvez vocês tivessem vontade de fazer isso, só que não conseguem. Sua cultura tornou-se sofisticada, como os computadores, ou como os remédios que vocês tomam para dor de cabeça. Vocês sabem usá-los mas não sabem explicar como funcionam. Muito menos para moças que empilham lenha ao lado da parede de casa. – Página 135

*O livro trás porque desejem, apesar de a forma correta ser porque desejam

 

A história de Pequena Abelha é sim comovente e até mesmo chocante. A escrita de Chris Cleave também é muito boa. Porém, os maiores problemas do livro se encontram em alguns personagens e, sobre tudo, no enredo. Quando um romance é narrado em primeira pessoa, o leitor precisa ser convencido e atraído pelo personagem que conta a história. Abelinha nos comove. Ela dialoga com o leitor enquanto conta sobre o que aconteceu com ela e de seu encontro com Sarah. Entretanto, a jornalista britânica já é uma personagem bem mais fraca e sem brilho. Vemos que ela está confusa e ela permanece uma personagem perdida, o que torna algumas de suas partes, as piores do livro. Sobre o enredo, acho que Chris Cleave se precipitou na forma de desenrolar a história. O livro começa a partir de um momento que só pode ser explicado por acontecimentos passados – e muitos deles. Ao invés de utilizar flashbacks ou momentos específicos para narrar os ocorridos, a cada capítulo temos um pouco do passado e a linha principal da história – o encontro, no presente, de Sarah e Pequena Abelha. Ficamos curiosos com o que está acontecendo e com o que está para acontecer, mas o autor sempre contorna o que mais queremos saber. Se no capítulo anterior um acontecimento do presente despertou a atenção do leitor, no seguinte temos uma narrativa do passado para enfim retornar a linha principal da história. Isso cansa o leitor, pois os capítulos são bem longos e o clímax de diversos momentos acaba sempre sendo cortado. Uma pena o autor ter escolhido não muito bem a forma de desenvolver sua história…

Acredito que possamos encontrar livros muito mais belos que tratem dessa temática ou histórias comoventes que saibam aproveitar sua proposta. Margô, do blog Chocolivros, que me emprestou o livro, já citou outro romance que desenvolve um assunto parecido e também emociona o leitor: A Vida Secreta das AbelhasNão trata sobre a África, mas, pelo o que ouvi, já faz o que Pequena Abelha não conseguiu, infelizmente, alcançar.

Resenha: A Garota dos Pés de Vidro

Midas é um fotógrafo que se auto excluiu do mundo. Certos acontecimentos do seu passado tiveram consequências irredutíveis em sua personalidade, o que o tornou alguém receoso ao contato com outras pessoas. Ele expressa seus sentimentos por meio das fotografias, sendo fotógrafo somente por hobby. Sua vida é comum e vazia até o dia que conhece uma garota monocromática. Uma garota que combina com a passagem do inverno e que ele sabe que dará uma boa foto.

[...] Uma garota estava sentada, tranquila, numa rocha lisa. Por algum motivo, ele não havia a visto. Ela parecia ter saído de um filme dos anos cinquenta. A pele clara e o cabelo loiro eram tão pálidos que pareciam monocromáticos. [...] As íris dos olhos dela eram de um cinza-titânio, seu traço mais marcante. Seu lábios não tinham nada de especial e suas bochechas eram normais. Mas seus olhos…Ele percebeu que os estava encarando e rapidamente afastou o olhar.                                                                                   – Página 9

A jovem chama-se Ida e ela tem um problema um tanto grave com seus pés. Anda lentamente, se apoiando numa bengala, e está procurado desesperadamente por um homem que mora na ilha onde Midas vive e nasceu, um homem que ela conheceu em suas últimas férias pelo lugar e a quem precisa encontrar o mais rápido possível a fim de se curar. Ela está hospedada na casa de Carl, um professor universitário bem sério que teve um caso com sua mãe antes dessa conhecer o pai da jovem. Por sua vez, Henry ( o homem a quem Ida procura ) tem alguma relação com a mãe de Midas, assim como Carl foi amigo do pai do rapaz. A presença da jovem na vida de Midas irá não só despertar reações nele como irá mexer em muitas feridas do passado.

Algo em Ida o havia desarmado. Não apenas suas botas, seu cabelo, seu rosto. Era uma coisa estranha…A forma como a Ida real era de alguma forma mais atraente do que a Ida fotografada.                                                         – Página 20

O livro é composto por vários capítulos curtos e médios que alternam o foco entre vários personagens do livro. Dessa forma, é possível conhecermos mais de cada um e ansiarmos por sempre mais – quando chegamos ao climax da narrativa de um personagem, vamos para outro, que também nos trará curiosidade e por aí vai. É um pouco o que ocorre com Sou Louco por Você, porém mais alternado.

O autor também não se prende somente ao presente. Como disse anteriormente, várias figuras que Ida traz a tona remetem muito ao passado de ambos. Para explicar muito do que é consequência de antigos acontecimentos, alguns capítulos são flashbacks que muito esclarecem o presente. Ou somente narram como as coisas ocorreram. Quando, por exemplo, logo no segundo capítulo, sabemos que Ida está atrás de Henry e que ela o conheceu em suas últimas férias, já no quarto ou quinto capítulo o autor nos apresenta a história de como os dois se conheceram. Essa mudança tanto de pontos de vista quanto de tempos dinamiza a história e torna a narrativa fluente.

O autor tem uma descrição fantástica. Sua narrativa flui não só pelo dinamismo, mas também pelo cuidado que ele tem com o texto, descrevendo as belas paisagens, hesitações, sensações, tudo com algumas comparações e metáforas muito boas, que enriquecem a história ainda mais.

Fechou os olhos e sentiu certa felicidade por isso, junto da desconfortável ideia de que ela estava se transformando em vidro.                                                                          - Página 72

O romance de Midas e Ida ganha mais destaque da metade para o final do livro. A história é sensível e comovente, mas diria que boa parte desses sentimentos são despertadas por conta da relação dos dois personagens. Ida está virando vidro e, ao que se sabe, não há uma cura. Ela, Midas, os outros personagens e o leitor ficam tentados a sentir esperança, torcendo para que ela se recupere, que alguém encontre um remédio, ou a se preparar para um triste final. O autor segreda bem a conclusão da trama, nos dando motivos para acreditar em ambas as possibilidades.

Sentaram-se em silêncio e viram o sol brilhar. Ela pousou a cabeça no ombro dele. Ele colou a sua no alto da cabeça dela. / “Eu deveria tirar uma foto.” [Midas ] / “Não. Apenas se lembre disso, de nós aqui.” [Ida]. / Ele engoliu a seco. / Ela sorriu. Era o tempo e o local exatos. / Então, beijaram-se. O vento soprava sobre eles.        - Página 270 * cada / representa um parágrafo

A Garota dos Pés de Vidro é um livro cativante, com um enredo interessantíssimo e elegantemente escrito do início ao fim. Recomendo para os fãs de dramas, romances ou para aqueles que curtem um bom texto ou saboreiam um bom livro.

Remember me – A vida é feita de momentos

Cartaz do filme no Brasil

Dirigido por Allen Coulter, Remember me é um filme de Romance e Drama que estrela atores como Robert Pattinson, Emilie de Ravin e Pierce Brosnan.

Tyler ( Robert Pattinson ) é um jovem que estuda na Unversidade de Nova Iorque.  Seus pais se separaram após o suicídio do irmão de Tyler. Desde então, o pai de Tyler ( Pierce Brosnan ) não liga para ele e para sua irma mais nova, Caroline.

Ally ( Emilie  de Ravin ) é uma jovem que também estuda na Universidade de Nova Iorque. Seu pai e ela sofreram muito após a morte de sua mãe. Os dois jovens estudantes que não tem nada a ver com o outro a não ser o passado trágico vão embarcar numa difícil, porém praserosa, paixão, onde o que não vale é olhar para trás, e sim para o presente.