
“O Inimigo” se passa em um mundo em que uma doença atingiu todos acima de 16 anos, transformando-os em algo muito parecido com zumbis. A história começa um ano depois da doença se espalhar e foca em um grupo de crianças que vive no supermercado Waitrose. O problema começa quando eles percebem que cada vez precisam ir mais longe para buscar mantimentos e se continuar no mesmo ritmo em breve não restará ninguém para contar a história. Felizmente, surge um garoto falando que do outro lado de Londres, no Palácio de Buckingham, está seguro e há alimento. O que é muito bom para ser verdade… Então, ele só precisam chegar até lá.
No começo, achei o livro um pouco lento e em parte me desanimava por causa dos estereótipos (às vezes até como se fosse um adulto falando de coisa se “criança” sem entender), mas conforme a história se desenvolve e você conhece os personagens essas coisas acabam ficando esquecidas. Você termina querendo saber o que vai acontecer com os personagens e preocupado com o que vai acontecer.
Isso nos leva a uma das coisas interessantes do livro: não há um protagonista. A narração vai mudando de foco conforme a história continua e dependendo da importância do personagem (mas sempre entre o grupo do Waitrose). E o que isso tem a ver com preocupação? Em algumas situações, tipo ataque de zumbis ou em um Jogos Vorazes, por mais que você fique louco para saber como a situação vai se resolver, você sabe que o personagem principal vai terminar bem. Já em “O Inimigo”, como não há um personagem principal, todo mundo corre risco de vida e você não sabe quem vai chegar ao final.
Outras coisas que merecem destaque nos livros envolvem as próprias crianças. Apesar do grupo do Waitrose ser o principal, esbarramos com vários outros grupos, tipo o de um supermercado perto, umas garotas “caçadoras” no maior estilo Ártemis, o dos garotos do castelo e ainda mais. O legal é ver que cada um se organiza de uma forma diferente, tipo “mini-sociedades”. Temos exemplos de estilo democraria, alguns parecidos com distopia, outros totalmente anti-governo… Aliás, acho que esse é o ponto alto do livro. Não sei se eu concordo em tudo, mas é legal quando há uma discussão do papel de líder e coisa assim. Tudo isso tão inserido na história que não chegaria “incomodar” como um texto “educativo”.
Há tantas crianças que é tipo uma coleção enorme de personagens com mil características diferentes. Eu não posso realmente falar muito sem dar spoiler, mas vou citar os meus preferidos: o Bobo, o Garoto e a Sophie. O primeiro não é que eu goste, mas a forma como ele foi construído me chama atenção. O Garoto pelo mesmo motivo, mas eu também gosto de como ele é. Já a Sophie é porque me lembra à Katniss e isso basta. Nenhum desses tem muito destaque, mas você pode ver que até esses são trabalhados. Acho que o autor buscar criar personagens no estilo metáfora para “tipos” da nossa sociedade.
O livro lembra um pouco a “Gone”, mas não como cópia (apesar de ter algumas semelhanças, tipo a ausência dos adultos e risco de vida por algum motivo). Eu achei um tão bom quanto o outro e acredito que sejam para o mesmo público. Eles não são livros necessariamente mais infantis (são até pesados em algumas horas), o que acontece é que são livros sobre uma realidade (sem cortes) com protagonistas crianças/adolescentes. Não tem como um garoto de 12 encarar a situação do mesmo modo que um de 30. “Jogos Vorazes” eu reclamo de estar na prateleira infanto-juvenil, mas “O Inimigo” e “Gone” ficam bem ali.
Título: O Inimigo
Primeiro da série “O Inimigo”, os outros ainda não foram lançados no Brasil. Mas não é realmente necessário ler os outros, tem até personagens diferentes.
Autor: Charlie Higson
Editora: Galera Record








