
“Um filme inovador, que infelizmente caiu no esquecimento.”
Por Bruno Albuquerque de Almeida!
É de uma maneira extremamente estranha que Hollywood – e seu público – funciona. Não sei se é falta de senso crítico, ou de conhecimento cinematográfico das pessoas, ou mesmo de divulgação dos filmes, mas o número de obras notáveis que passam despercebidas vem aumentado muito. E Speed Racer é uma delas. Inovando na maneira de utilizar efeitos visuais e montagem, o longa capricha na sua própria maneira de contar histórias.
Vamos começar falando dos efeitos visuais: bastante diferentes do que estamos acostumados a ver( com o irrealismo sendo colocado em primeiro lugar), aqui, os Irmãos Wachowski preferem mudar um pouco, empregando efeitos com texturas simples e mais caricatas, com o óbvio objetivo de tornar o visual do filme mais próximo ao dos desenhos animados. E isso é ótimo, pois essa proximidade aos cartoons dão uma liberdade criativa ao roteiro maior do que a de um filme extremamente racional. E os roteiristas( os Irmãos Wachowski, também) usam e abusam dessa liberdade, nos trazendo esplêndidas sequências de carros voando, escalando montanhas e até brigando( acreditem!)!! Além disso, os efeitos nos permitem apreciar momentos em que os Wachowski se mostram extremamente inspirados: como o slow motion dentro do caminhão, enquanto Corredor X o metralha com as armas de seu carro, e Speed literalmente decolando de seu carro, e em seguida deslizando pela pista, fazendo a clássica pose referente ao seu desenho animado de origem. A montagem do filme é simplesmente sensacional, pois, com o auxílio da sobreposição de imagens, eles conseguem fazer flashbacks e flashforwards instantâneos, e sem soar repentino demais para o ritmo do filme.
E, de maneira inteligente, eles usam os flashbacks para desenvolver quase todos os seus personagens. Speed, Pops, Mamãe Racer, Rex Racer e Corredor X – todos desenvolvidos pelos flashbacks. Ora, sem eles não conseguiríamos compreender o porque de Speed colocar seu coração nas corridas; sem eles, não entenderíamos o porque da morte de Rex ter afetado tanto os membros da família Racer; sem eles, uma emocionante revelação final sobre o Corredor X não teria o mesmo impacto. Ou seja: todas as cenas, todas as falas, todos os pulos temporais feitos pela narrativa foram previamente elaborados, detalhe por detalhe, pelos Wachowski. Brilhante.

E, além dos flashbacks, os personagens continuam evoluindo de acordo com os acontecimentos da trama. Trama, esta, que conta com algumas reviravoltas interessantes – como a traição de Togokhan sobre a parceria que este fez com os Racer e Corredor X e o convite para participar da corrida quer a irmã de Togokhan entrega a Speed, por exemplo. As atuações são ótimas, e destaco o talento de Pauli Litt, o Gorducho, e a presença de cena de John Gooldman e Roger Allan, respectivamente Pops e Royalton. E, antigamente, eu alegava que a atuação de Emile Hirsh era falha, pois não possuir emoção e expressões o suficiente. Agora, compreendo que ele nada mais estava fazendo do que mostrar duas importantes características da personalidade de Speed: a humildade e a simplicidade. Estas que, na cena em que ele nega a sua parceria com a Royalton, são reafirmadas.
O humor no filme surge naturalmente, já que Speed Racer se trata de um “desenho animado vivo”, além de parte dele ser categoricamente clichê: um menino e seu macaco de estimação se metendo em confusões. Mas ambos são tão carismáticos, e o macaco é tão bem treinado, fazendo gestos e poses que, de tão sutis, geram o riso, e acredito que num filme tão simpático como Speed Racer, é o que importa.
Agora, o filme também tem seus defeitos, mesmo que mínimos. O principal deles é a clássica( ou extremamente repetida?) câmera focando o rosto do motorista, enquanto este fala sozinho. Tudo bem que em alguns momentos ocorrem diálogos com esse enquadramento, mas em outros soa bastante gratuito.
Por outro lado, temos uma cena final extremamente emocionante, com Speed se superando para vencer a corrida – e ele não vence por sentir o prazer da vitória, mas para dar uma alegria única a sua família( como a própria Mamãe Racer, interpretada por Susan Sarandon, diz: “Obrigada, Speed.”). E o que dizer da montagem da cena em que é revelado o passado do Corredor X( que nos leva a mais uma reviravolta na trama) – em que nos é mostrado o que ele fez pela sua família, enquanto observamos sua expressão de tristeza? E, para fechar a cena com chave de ouro, Matthew Fox( o Jack de Lost) diz: “Se cometi um erro, então tenho que conviver com ele.”. Este crítico que vos fala não conseguiu segurar as lágrimas.

No mais, com uma fotografia que exalta bastante as cores( outra referência aos desenhos animados), personagens sensacionais e uma trama convincente, Speed Racer é um filme memorável, e que merece ser reassistido diversas vezes. Recomendação máxima!
Nota: 9,0













